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Mercados

Incertezas pesam e B3 amarga o menor volume de negócios em nove meses

Preocupações com teto de gastos, inflação e aperto dos juros fazem mercado redobrar cautela e estrangeiro retirar recursos da bolsa

Tempo de leitura: 4 minutos

São Paulo — As incertezas nos cenários fiscal e político no Brasil, além das preocupações com a política monetária dos EUA e com a disseminação da variante Delta da Covid-19, fizeram o mercado acionário brasileiro minguar em julho em volume de transações. Foi o mês com a menor média diária de negócios na B3 em nove meses, apesar da onda de IPOs com um número recorde de companhias estreantes no pregão.

Agosto pode reverter esse movimento, já que está prevista a abertura de capital da Raízen, gigante produtora de etanol do país, que pode levantar mais de R$ 7 bilhões, o que seria o maior valor de uma oferta pública inicial de ações do ano.

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Em julho, a B3 registrou uma média diária de negócios de R$ 28,188 bilhões, bem abaixo do registrado em junho (R$ 36,244 bilhões) e de fevereiro (R$ 38,599 bilhões), melhor mês do ano. A média diária dos sete primeiros meses de 2021 está em R$ 34,329 bilhões. Julho foi o primeiro em nove meses que esse indicador ficou abaixo da marca de R$ 30 bilhões.

Houve saída de recursos de investidores estrangeiros em julho. Até o pregão da quinta (28, último dado disponível), as vendas de ações por esse tipo de investidor (R$ 265,4 bilhões) superavam as compras (R$ 258,3 bilhões), resultando em uma retirada mensal de R$ 7,1 bilhões.

Saída de estrangeiros

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Os estrangeiros lideraram os negócios de julho tanto em compras (23,39% do volume total) como em vendas (24,03%), seguidos pelos investidores institucionais (12,55% do total de compras e 12,99% das vendas) e individuais (10,27% das compras e 10,18% das vendas).

Principal índice de referência do mercado acionário do Brasil, o Ibovespa ainda acumula valorização de 2,34% no ano, mas encerrou julho com recuo de 3,94%, interrompendo uma sequência de quatro meses de ganhos.

A última semana foi o divisor de águas no pregão, que terminou com tombo de 3,08% na última sexta, a maior queda diária desde 8 de março, período crítico da pandemia, quando as principais capitais do país voltaram a decretar lockdown por conta do aumento de casos, mortes e hospitalizações pelo novo coronavírus.

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A preocupação com a situação fiscal do Brasil voltou a pesar nos ativos domésticos.

“A possibilidade de novos gastos públicos e mudanças nas regras do teto de gastos foi o gatilho para piora nos preços no Brasil”, avaliou relatório da corretora Ágora, do Bradesco, em referência às notícias de que o presidente Jair Bolsonaro pretende aumentar valor do Bolsa Família em 50% e não descarta nova prorrogação do auxílio emergencial, de olho na eleição presidencial de 2022.

Aperto do Copom

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As apostas de que o Banco Central vai aumentar a dose de elevação da taxa Selic, na próxima semana, também contribuem para a cautela no mercado de renda variável, já que juros mais elevados tornam a renda fixa mais atrativa. O Comitê de Política Monetária (Copom) se reúne na próxima terça e quarta, e cresce a expectativa no mercado de juros de que a Selic suba 1 ponto percentual, chegando a 5,25% ao ano.

“O processo inflacionário está disseminado, e o choque de preços não se mostra mais como um processo temporário, o que poderá requerer um aperto mais intenso do que o esperado. Diante desse cenário, mais elevações nas próximas reuniões do Copom devem acontecer”, disse o superintendente da assessoria econômica da Associação Brasileira de Bancos (ABBC), Everton Pinheiro de Souza Gonçalves.

Os movimentos no mercado de câmbio também favorecem uma retirada de recursos na bolsa. Na sexta, o dólar saltou 2,57%, negociado a R$ 5,2097.

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“Notamos, no fechamento, uma elevação relevante de aversão ao risco com o comunicado de que o governo pretende alterar o teto de gastos para acomodar gastos maiores para políticas populistas”, disse o economista-chefe da assessoria de investimentos Invest Smart, Felipe Nascimento.

Delta se alastra

Para azedar ainda mais o cenário de curto prazo, a variante Delta se alastra pelo mundo, estudos científicos mostram seu poder letal e capacidade de driblar a proteção das vacinas, fazendo os EUA darem um passo atrás em suas recomendações, como a volta do uso de máscaras em locais públicos, uma evolução que põe em risco o ritmo de retomada da economia global neste segundo semestre.

“As preocupação com a variante Delta se recusam a diminuir, e o sentimento de apetite pelo risco se deteriora”, observa o analista de mercado financeiro da OANDA, Edward Moya.

Apesar do suspense sobre o impacto da nova cepa na eficácia das campanhas de vacinação, houve avanços em algumas capitais brasileiras, que divulgaram reduções de óbitos nas últimas semanas. São Paulo, o mais populoso estado brasileiro, vai retirar todas as restrições no próximo dia 17 de agosto, após os dados apontarem para uma queda das notificações e hospitalizações de pacientes graves, além da vacinação se estendendo para os mais jovens.

Sérgio Ripardo

Sérgio Ripardo

Jornalista brasileiro com mais de 25 anos de experiência, com passagem por sites de alcance nacional como Folha e R7, cobrindo indicadores econômicos, mercado financeiro e companhias abertas.

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