Temos 98% do mercado para conquistar, diz CEO da Brex após aquisição pela Capital One

Após a integração com a gigante financeira, Pedro Franceschi reforça que a transação não é um ponto de chegada, e sim um passo a mais na construção da Brex no mercado americano

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Bloomberg Línea — O empreendedor brasileiro Pedro Franceschi costuma ser parabenizado pelo “exit”, a venda da Brex para a Capital One, anunciada em janeiro passado pelo valor de US$ 5,15 bilhões. A situação ainda o deixa confuso por permanecer na liderança na companhia que co-fundou com Henrique Dubugras em 2017, e que pretende ajudar a levar a outros patamares.

“Eu ainda continuo trabalhando naquilo todos os dias. Agora, eu me comprometi com metas maiores, uma empresa maior e tudo mais. Então, não parece uma ‘saída’ (exit)”, diz o CEO.

O empreendedor participou, ao lado de Victor Lazarte, cofundador da Wildlife, de um painel de abertura do Brazil At Silicon Valley, evento organizado por estudantes de Stanford e Berkeley que reúne empreendedores e fundos de investimentos para discutir tendências e impactos da tecnologia no ecossistema de startups.

“Claro que, do ponto de vista do capital, é uma saída. Mas acho que a sensação é um pouco diferente quando você está do lado de dentro. E, para mim, acho que sempre tive esse compromisso muito grande com a criação em si — que é o produto, a forma como ele é feito e o efeito que ele tem nos clientes", disse.

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A Brex é a segunda startup de Franceschi, que também fundou com o sócio Dubugras, a fintech Pagar.me, vendida em 2026 para a Stone. A venda da Brex representou um dos negócios mais bem-sucedidos já realizados por empreendedores brasileiros para companhias do exterior. A transação foi aprovada oficialmente nesta terça-feira, 7.

Fundada em 2017 com sede em São Francisco, no Vale do Silício, nos Estados Unidos, a Brex é uma plataforma de software com IA nativa que oferece soluções inteligentes de finanças corporativas.

O modelo de negócio da fintech permite que empresas e outras startups emitam cartões corporativos, automatizem a gestão de despesas e realizem pagamentos seguros em tempo real, tudo em uma única plataforma integrada.

A startup inovou ao combinar cartões de crédito corporativos, software de gestão de gastos e serviços bancários em uma solução verticalmente integrada.

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Conta atualmente com cerca de 30.000 empresas como clientes, incluindo a plataforma de investimentos Robinhood e a empresa de inteligência artificial Anthropic, uma das mais valiosas do mundo.

Segundo o empreendedor, a transação permitirá à Brex chegar em espaços não imaginados e que seriam difíceis mesmo que os fundadores tivessem optado pela abertura de capital.

“No fim das contas, acho que a empresa será muito maior do que jamais poderíamos ter imaginado. Mesmo nos melhores cenários, nas melhores expectativas de abrir o capital, perceber isso foi algo muito profundo”, afirmou.

A referência do nosso potencial, sob a estrutura da Capital One, pode ser medida no volume de recursos que a instituição investe em pesquisa e desenvolvimento anualmente, algo em torno de US$ 6 bilhões, montante semelhante também empregado em marketing.

“A Brex hoje é provavelmente 1,5% do mercado dos EUA. Há 98% a conquistar”, diz. A empresa concorre no mercado com empresas como a Ramp e a Mercury.

“Queremos ser a forma como cada empresa pensa e gerencia dinheiro na América e no mundo”.

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De acordo com Franceschi, a chegada do Capital One irá acelerar as transformações do negócio e maximizar os impactos que a startup oferece a seus clientes.

A ambição é construir uma marca no sistema financeiro de investimentos. “Com sorte, nos próximos 50 anos, poderemos olhar para trás e a Brex ainda ser uma parte fundamental disso”.

Pré-aquisição

Na época de múltiplos elevados, a Brex startup foi considerada um “decacórnio”, sendo avaliada em US$ 12,3 bilhões em sua última rodada, quando captou US$ 300 milhões em outubro de 2021. Em sua trajetória, a Brex atraiu grandes fundos Tiger Global, Y Combinator, GIC e Ribbit Capital, além de Peter Thiel.

Antes da aquisição, a startup enfrentou um período de turnaround para sobreviver a um cenário de turbulência.

Segundo o empreendedor, o crescimento acelerado criou um cenário de distrações, com a companhia operando com muitos braços, muitos produtos, e perdendo centenas de milhões de dólares por ano.

As mudanças, feitas ao longo dos últimos dois anos e meio, foi principalmente a partir de uma transformação de cultura.

“Nós mudamos muito a forma como deveríamos administrar a empresa. Fizemos algo chamado Brex 3.0, que era basicamente uma nova maneira de operar”, conta.

A transformação incluiu a decisão de ter apenas um CEO, ao invés do modelo de co-ceos, e de ter líderes da áreas que colocam a mão na massa, em vez de apenas gerirem as pessoas que desenvolvem os produtos.

“Esse foi um processo realmente poderoso porque eliminamos basicamente duas camadas de gestão em toda a empresa. Reconectamos todos de volta ao ofício, o que significa ser excelente no que cada um faz, seja na engenharia, no marketing seja nas vendas”, afirmou.