Bloomberg Línea — A inteligência artificial está derrubando uma das barreiras históricas do empreendedorismo brasileiro: a necessidade de capital para competir. Para o brasileiro Mike Krieger, co-fundador do Instagram e líder do Anthropic Labs, “nunca foi mais possível ir mais longe sem ter que levantar capital”, disse durante o Brazil At Silicon Valley.
A apresentação ocorreu um dia após o lançamento da ferramenta mais poderosa já lançada pela Anthropic, o Projeto Glasswing, iniciativa de segurança que utiliza o modelo Claude Mythos2 Preview como seu motor principal. Krieger subiu ao palco do evento para contar sobre a cultura de inovação, que apresenta um ritmo de desenvolvimento de produtos cada vez mais acelerado.
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Segundo o brasileiro, que ocupou a posição de CPO (Chief Product Officer) entre 2024 e 2026, antes da liderar a operação do Labs, os empreendedores brasileiros têm novas perspectivas em um mundo regido por inteligência artificial.
“Você pode ter o primeiro protótipo com Claude Code e lançar a primeira versão com Code ou com outras ferramentas”, disse no evento, organizado por estudantes de Stanford e Berkeley e que reúne empreendedores e fundos de investimentos para discutir tendências e impactos da tecnologia no ecossistema de startups.
Em outras palavras, na percepção do empreendedor, a desvantagem estrutural começa a cair em algumas áreas, fazendo com que um fundador em São Paulo, Salvador ou Recife possa construir um produto com a mesma qualidade de um em São Francisco, no Vale do Silício — sem ter que levantar $10 milhões em série A apenas para ter uma chance.
E aproveitar os conhecimentos específicos e característicos do país pode ser o caminho para uma operação bem-sucedida.
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“Eu acho que entender um mercado, entender a indústria, nunca foi tão importante. O que me deixa empolgado é quando ouço empreendedores no Brasil que estão profundamente imersos na área médica, na educação, no setor jurídico, ou entendendo como o governo poderia funcionar melhor”, afirma Krieger.
“Esses tipos de percepções regionais muito profundos e específicos são, hoje, os que estão mais distantes das capacidades dos modelos [de IA] e, na verdade, ainda são os mais defensáveis”.
As grandes empresas
A cultura de agilidade também deve ser uma demanda no ambiente das grandes corporações brasileiras, uma estratégia para quem não quiser ficar para trás.
“As corporações precisam ser realmente abertas à experimentação”, disse. “O que vai contra o típico procurement de TI de ‘nós escolhemos essa tecnologia e vai ser nossa stack pelos próximos 10 anos’. Isso não funciona em IA.”
Na prática, significa criar uma cultura de testes e estar abertos aos erros e acertos ao longo dos processos.
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“Acho que as empresas que temos visto ter sucesso de verdade são aquelas onde essa cultura de experimentação envolve abrir mão de um pouco de controle, sabendo que é assim que se mantém competitivo”, conta.
“As coisas estão mudando rápido e vão continuar mudando rápido. Você tem que se adaptar e usar suas vantagens, mas também estar aberto a isso, como em qualquer outra mudança”.
Avanço da Anthropic
A companhia tem adotado um novo ritmo de lançamentos de produtos nos últimos meses, um processo que só é possível por um trabalho ao longo de 2025 para refazer a infraestrutura de tecnologia.
“Muito do trabalho no ano passado foi meio penoso porque, na segunda metade do ano, não lançamos tanto quanto eu gostaria. Mas foi porque estávamos assentando as bases para este ano. Basicamente todos os produtos Claude agora utilizam em sua base, por exemplo, o Claude Code”, afirmou durante o evento.
Nos últimos dias, a Anthropic anunciou que a demanda dos clientes do Claude acelerou nos primeiros meses deste ano. A receita recorrente ultrapassou os US$ 30 bilhões — um salto em relação aos aproximadamente US$ 9 bilhões registrados no final de 2025.
A expansão tem sido tracionada pela demanda de clientes corporativos. Para ilustrar o ritmo, em fevereiro, quando anunciou a captação Série G, a empresa anunciou uma base de mais de 500 clientes corporativos que desembolsavam, cada um, mais de US$ 1 milhão em base anualizada. Em menos de dois meses, o número passou de 1.000 companhias.
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