Bloomberg — E se a inteligência artificial tomasse o seu emprego e, ainda assim, você continuasse recebendo mais de US$ 60 mil por ano?
Essa é a promessa central de uma ideia que vem ganhando força entre pensadores da IA que acreditam que o avanço da tecnologia levará a níveis elevados de produtividade e a uma redução drástica do trabalho humano.
A chamada renda universal elevada é uma versão ampliada da renda básica universal e já foi descrita por Elon Musk como “a melhor forma” de lidar com o desemprego provocado pela IA.
Os pagamentos de uma renda elevada podem não ser implementados tão cedo, mas, à medida que os efeitos da IA sobre o mercado de trabalho começam a se tornar mais concretos, formuladores de políticas públicas passam a prestar atenção ao tema.
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Daniel Schreiber adota uma abordagem prática nesse debate. O fundador de um think tank e executivo do setor de seguros criou um modelo econômico — utilizando inclusive ChatGPT e Claude no processo — projetado para redistribuir a riqueza gerada pela IA.
Embora banqueiros tenham descartado a ideia em reuniões privadas, classificando-a como comunista, ele também já prestou depoimento a subcomissões parlamentares em Israel.
“Não acredito que exista algo automático que garanta um final feliz quando se trata de IA”, disse Schreiber, 55 anos, cujo MOSAIC AI Policy Institute está sediado em Jerusalém.
A renda básica universal prevê que o Estado faça pagamentos regulares e de valor fixo aos cidadãos para ajudar a cobrir necessidades humanas fundamentais.
A renda universal elevada, por sua vez, imagina um mundo em que a IA e os robôs produzam tantos bens e serviços que todos possam desfrutar de uma vida de abundância sem precisar trabalhar.
Pelo modelo de Schreiber, os pagamentos dessa renda elevada seriam financiados por impostos sobre a produção empresarial e pelos lucros de fundos soberanos, entre outras fontes, e depois redistribuídos pelo governo.
Schreiber é um entusiasta da IA e acredita que ela impulsionará o crescimento econômico, além de ampliar o acesso universal a educação de excelência, atendimento médico e aconselhamento jurídico.
Como presidente-executivo da seguradora Lemonade, ele também observou os benefícios da tecnologia para os negócios. O uso de IA na precificação de apólices e no processamento de sinistros ajudou a aumentar receitas e número de clientes — tudo isso com menos funcionários.
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Mas Schreiber teme que, sem controle, a IA resulte em desemprego generalizado, maior desigualdade e pobreza.
Ele cita a greve dos roteiristas de Hollywood em 2023 como um alerta para o tipo de disrupção que a IA pode provocar.
Segundo ele, quando as demissões em massa começarem a ganhar força, até mesmo pessoas motivadas pelo crescimento econômico — ou pela ganância — terão de pensar em como “neutralizar a resistência” que surgirá.
Independentemente da posição adotada, o debate sobre o impacto da IA está cada vez mais acalorado.
No início desta semana, o senador Bernie Sanders, de Vermont, propôs a criação de um fundo soberano de IA que daria ao público participação nas maiores empresas americanas do setor e uma forma de se beneficiar dos “trilhões de dólares potencialmente gerados”.
Sam Altman, da OpenAI, defendeu a renda básica universal e, mais recentemente, o que chama de “capacidade computacional básica universal”, que envolve ampliar o acesso a recursos de IA. Já Dario Amodei, da Anthropic, alertou que a tecnologia pode eliminar metade dos cargos de nível inicial nos próximos anos.
Na Coreia do Sul, um dos países mais avançados na corrida pela IA, ações sofreram volatilidade nas últimas semanas depois que um assessor presidencial sugeriu nas redes sociais que receitas tributárias geradas pela IA poderiam financiar um dividendo para os cidadãos.
O papa Leão XIV também se manifestou e afirmou que as abordagens atuais da tecnologia podem “reduzir a qualificação dos trabalhadores”. Enquanto isso, o CEO do Goldman Sachs e o economista-chefe da Apollo Global Management minimizaram as preocupações.
Andrew Yang, que ajudou a popularizar o conceito de renda básica durante sua campanha à indicação presidencial democrata em 2020, afirmou estar encorajado pelo interesse que o modelo de Schreiber vem despertando. Os dois se encontraram recentemente em Nova York.
“O que eu adoro é que isso já deixou de ser apenas um exercício intelectual”, disse ele em entrevista por telefone. “Há um engajamento real de formuladores de políticas de alto nível.”
Alta produtividade
Programas de transferência de renda existem há décadas. Apenas nos Estados Unidos, houve mais de 200 projetos desse tipo, segundo o Stanford Basic Income Lab, enquanto países como Irã e Finlândia experimentaram modelos próprios.
Os resultados desses programas continuam sendo motivo de debate.
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Defensores afirmam que transferências de renda podem reduzir a pobreza, melhorar a saúde mental e aumentar a empregabilidade, embora nem todos concordem sobre como os pagamentos deveriam funcionar na prática.
Críticos, incluindo uma ampla parcela dos conservadores, argumentam que esses benefícios são caros e desestimulam o trabalho.
Ainda assim, a redistribuição de riqueza impulsionada pela IA atravessa algumas fronteiras tradicionais da política e da economia: afinal, é raro encontrar convergência ideológica entre Sanders e Musk.
Musk fala sobre renda básica universal como resposta à automação desde 2016. Em 2023, passou a defender uma “renda universal elevada, e não básica, em um futuro positivo com IA”. Recentemente, publicou em sua rede social, X, que o governo federal deveria emitir cheques de renda universal elevada para enfrentar o desemprego causado pela tecnologia.
Schreiber — que disse ter interagido com Musk apenas pelo X — discorda, argumentando que imprimir o volume necessário de dinheiro provocaria inflação. Musk não respondeu aos pedidos de comentário.
Na visão de Schreiber, o que diferencia o desemprego provocado pela IA de períodos anteriores é que, enquanto os trabalhadores perdem seus cargos, as tarefas continuam sendo executadas de forma melhor e mais rápida pela tecnologia. Isso poderia levar, em última instância, a um cenário de desemprego em massa coexistindo com alta produtividade.
“Foi isso que abriu espaço para pensar em como poderíamos financiar um salário para todos”, afirmou.
Capacidades em expansão
Nascido em Londres, Schreiber iniciou a carreira como advogado corporativo antes de ocupar cargos de liderança em diversas empresas de tecnologia. Ele acompanha a evolução da IA há cerca de uma década, depois de participar da Singularity University, instituição do Vale do Silício voltada para estudos sobre futurismo, em 2015.
Ele fundou seu think tank em 2024. O instituto contratou economistas, analistas de dados e especialistas em políticas públicas, e seu conselho inclui vários ex-integrantes do governo israelense, entre eles o ex-chefe de IA do gabinete do primeiro-ministro.
Seu modelo de renda universal elevada, detalhado em um estudo de 38 páginas publicado neste ano, é focado em Israel.
A proposta prevê um imposto sobre valor agregado incidente sobre a produção e a destinação de parte dos lucros excedentes gerados pela IA para redistribuição. Segundo o relatório, esses recursos financiariam uma renda capaz de “eliminar a pobreza”, de aproximadamente 6.750 shekels (US$ 2.320) por mês para cada adulto.
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Isso equivale ao salário de uma pessoa da faixa inferior da classe média.
Outras fontes de recursos, como impostos sobre heranças e retornos de fundos soberanos, poderiam elevar os pagamentos mensais para 15 mil shekels, colocando os beneficiários no quartil superior de renda do país, segundo o relatório.
“Um futuro em que todos sejam privilegiados”, disse Schreiber, acrescentando que o modelo seria mais adequado para países com economias tecnologicamente avançadas pertencentes à Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Josh Bivens, economista-chefe do Economic Policy Institute, em Washington, é favorável à redistribuição de renda, mas afirma que as projeções de desemprego de Schreiber são mais extremas do que a maioria das estimativas e que seu modelo parece ignorar a possibilidade de queda na demanda por bens e serviços.
“O modelo parte do pressuposto de que a produção pode ser mantida enquanto o trabalho entra em colapso”, disse Bivens. “Do ponto de vista da oferta, talvez. Mas não vejo como isso funcionaria do lado da demanda.”
Rachel Greszler, pesquisadora sênior da Advancing American Freedom, grupo conservador de formulação de políticas públicas, afirmou que, se um padrão de vida de classe média não exigisse trabalho, menos pessoas estariam dispostas a trabalhar, enquanto outras passariam a ganhar mais devido à escassez de mão de obra.
Isso poderia alimentar ressentimento tanto contra trabalhadores de alta renda quanto contra pessoas que não trabalham, disse ela. No fim das contas, afirmou, a renda universal elevada “entraria em colapso econômica e socialmente, resultando em uma economia menor e em maior desigualdade”.
Peter Diamandis, fundador da X Prize Foundation e investidor inicial da Lemonade, que já discutiu a renda universal elevada com Musk, tem uma visão mais otimista. Para ele, o modelo de Schreiber é “uma solução elegante para algo que permaneceu em um impasse político durante anos”.
Canário na mina de carvão
Schreiber afirma que espera que suas previsões estejam erradas. Ele reconhece que a humanidade, em geral, saiu ganhando em disrupções tecnológicas anteriores, incluindo a Revolução Industrial.
Mas, embora aquele período tenha resultado em prosperidade ampla, os governos precisaram intervir com leis trabalhistas e de segurança, afirmou. Além disso, a globalização deixou regiões como o cinturão industrial dos Estados Unidos para trás.
Os pagamentos de renda elevada podem parecer uma proposta radical, disse ele, mas outras políticas antes consideradas impensáveis — como saúde e educação universais — se tornaram correntes em algumas partes do mundo.
Na visão de Schreiber, encontrar uma forma de compartilhar amplamente os benefícios da IA se torna cada vez mais urgente. Citando o proverbial canário na mina de carvão, ele concluiu:
“Meu canário acabou de morrer.”
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