Bloomberg Línea — No fim de 2025, a Bemobi (BMOB3) anunciou a aquisição do controle da Paytime, fintech no-code white label e uma das principais plataformas de Payment as a Service (PaaS) do país. Mais do que uma simples aquisição, a transação marca um novo momento da companhia, que um dia já foi conhecida como a “Netflix dos Apps”.
Comandada por Pedro Ripper, também co-fundador, a empresa abriu o capital no começo de 2021 e tem feito uma grande transformação no modelo de negócio. A companhia fechou o ano passado com receita líquida de R$ 728,8 milhões, alta de 20,0% em relação ao ano anterior.
No quarto trimestre, a divisão de pagamentos verticais representou 43,2% da receita líquida, seguida por produtos de SaaS (software as a Service). Assinaturas, o negócio originário da empresa ficou com 25,2% e microfinanças, 10,1%. Juntas, as receitas de pagamentos e software somaram 65% no último tri no ano, após avançarem 50% e 23%, respectivamente, na comparação anual.
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Os números refletem uma bem-sucedida estratégia de migração do modelo de negócio da companhia, que apostou na tese de pagamentos recorrentes em determinados setores da economia como telecomunicações, saneamento e energia, educação e, mais recentemente, saúde, como uma bússola.
“Nós focamos na especialização, entendendo o que é mais importante para elas, porque as indústrias não são todas iguais e é preciso entender as peculiaridades de cada uma delas para poder, de fato, agregar valor pelas empresas e para os consumidores dela”, afirma Ripper.
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Na estratégia, que começou a ser empreendida nos últimos quatro anos, estão clientes como Vivo, Tim, Sabesp, Copel e Hapvida.
“Nesta frente, nós teremos expansões naturais em indústrias de serviço recorrentes e essenciais que não atuamos hoje, como condomínios e categorias de seguros”, conta o executivo.
A aquisição da Paytime reforça essa aposta, ao mesmo tempo que inaugura uma nova frente para a companhia, com a entrada B2B2B de olho em pagamentos verticais para ecossistemas e marketplaces. Essa nova fronteira, que a Bemobi pretende impulsionar ao longo dos próximos dois anos, vai além da recorrência e deve ser capitalizada a partir dos volumes e novas possibilidades de interações.
“Acreditamos nesta divisão como um modelo de parceria, em que eu vendo para um negócio, que combina o seu conhecimento com a minha solução para entregar um produto para uma empresa na ponta”, diz o CEO.
As oportunidades com esse formato customizado, segundo Ripper, estão em mercados como o de franquias. Os franqueadores podem contar com fluxos de pagamentos melhor desenvolvidos, que oferecem o split (divisão do valor entre as diversas partes da cadeia), evitem bitributação e avancem para soluções de crédito e banking.
“Tem muito valor em fazer uma integração de pagamento nesses ecossistemas ou nessas cadeias produtivas”, afirma Ripper, citando outros mercados como distribuição de combustíveis e fabricantes em cadeias como autopeças que financiam a operação dos seus clientes como postos de gasolina e oficinas mecânicas, respectivamente.
Segundo relatório do Itaú BBA, divulgado no começo de março, a transação permitirá “que o modelo PaaS (Plataforma como Serviço) seja implementado em clientes de maior porte, potencialmente melhorando as take rates (taxas de comissão) no longo prazo — o que consideramos, por ora, um risco positivo (upside risk)“, afirma o conteúdo assinado por Maria Clara Infantozzi. “Além disso, ela contribuirá para o crescimento marginal do TPV daqui para frente.”
Mais aquisições a caminho
Com R$ 350 milhões no caixa, a Bemobi deve continuar explorando oportunidades de M&As para avançar no mercado, estratégia que tem perseguido ao longo do tempo. No ano passado, além da participação na Paytime, a empresa adquiriu a fintech Celer, da Casas Bahia.
Os movimentos acompanham tanto a ideia de oportunidade para a entrada num novo mercado de capacidade técnica. “No caso da Paytime, ela tem um software que faz essa gestão de pagamentos para ecossistemas. Estávamos começando a desenvolver e percebemos que o deles já estava maduro”, afirma o CEO.
Segundo Ripper, a empresa não deve muda o ritmo de aquisições, caminho que aprendeu a desenvolver nos últimos anos. Desde o IPO em 2021, foram sete negócios, contando os dois mais recentes.
“Mas as transações precisam ser muito cirúrgicas e dar o check em várias caixinhas, como preço, características e entrega. Nós olhamos muitas empresas. No ano passado, foram umas 100 e fechamos duas. E vamos continuar olhando”, complementa.
Num momento de transformação aceleradas no mundo de tecnologia, impulsionada pelos investimentos em inteligência artificial, o que o CEO menos deseja é coadjuvante dentro do seu próprio mercado.
Até por isso, em paralelo aos M&As, Ripper diz que a empresa está super ativa também em relação à IA e aos impactos no futuro do negócio, que projeta ser totalmente diferente no horizonte de cinco anos.
“Não é difícil imaginar um futuro não tão distante em que você terá um agente que, entre outras coisas, irá organizar todas as contas e pague para você, sabendo aquela que ele pode atrasar, aquela que ele não vai poder atrasar ou aquela pode ser parcelada. Um pouco do nosso papel é como enxergamos esse mundo possível e como não somos espectadores”, afirma Ripper.
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