Bloomberg Línea — A BlaBlaCar está lançando operações simultaneamente em 20 países, em sua maior expansão geográfica desde que chegou ao mercado, em 2006.
A empresa francesa, que conecta motoristas e passageiros para caronas e a venda de passagens de ônibus, chegará pela primeira vez a oito países da América Latina — Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru e Uruguai —, além de mercados do Sudeste Asiático, da Europa Oriental e do Marrocos, o primeiro país africano na plataforma.
Com a expansão, a BlaBlaCar estará presente em 41 países. “Percebemos que em muitos mercados, na Europa, na América Latina e na Índia, resolvemos algo para as pessoas em uma escala maior”, disse Nicolas Brusson, CEO e cofundador da empresa, em entrevista exclusiva à Bloomberg Línea. “E entendemos que era o momento de acelerar o roadmap e lançar o restante dos mercados onde ainda não estamos”.
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Há menos de um ano, em entrevista à Bloomberg Línea, Brusson afirmou que o movimento de expansão deveria acontecer no intervalo entre 2 e 3 anos.
A antecipação do movimento partiu de dois vetores distintos. Externamente, a demanda por carona vem crescendo em ritmo acelerado, impulsionada pela alta nos preços de combustíveis — acelerada pelo conflito no Oriente Médio — e pelo aumento generalizado do custo de transporte acima da renda dos usuários.
Em 2025, de acordo com números divulgados pela companhia, os motoristas cadastrados economizaram mais de € 568 milhões - o equivalente a R$ 3,35 bilhões na cotação atual, em despesas de viagem. Entre março e junho deste ano, mais de 800.000 novos motoristas entraram para a plataforma globalmente.
No lado interno, foi a inteligência artificial que tornou viável uma operação que antes exigiria anos e equipes locais em cada mercado.
“No passado, a quantidade de trabalho para lançar um novo mercado era muito maior. Você tinha que localizar o conteúdo, a fotografia — porque não se pode usar algo que parece o Brasil quando você lança na Argentina”, disse Brusson.
Hoje, segundo ele, a geração de conteúdo, imagens e até anúncios adaptados para cada mercado é feita por ferramentas de IA, sem a necessidade de equipes no campo na fase inicial. “Tecnicamente, conseguimos abrir 20 mercados em um período de poucas semanas.”
Nos novos mercados, a BlaBlaCar não terá equipes locais nesta fase que o CEO denomina de fase 1, que é focada exclusivamente em comunicação e publicidade para criar a massa crítica de motoristas e passageiros necessária para o modelo funcionar de forma autossustentada.
“O que chamamos de fase 1 é demonstrar que conseguimos convencer motoristas e passageiros. Eles começam a se juntar e você cria um pouco de flywheel (tração)”, disse Brusson. “Onde não precisamos fazer marketing e o boca-a-boca funciona”.
As operações serão gerenciadas remotamente a partir de escritórios como Paris, Madri e São Paulo, com conteúdo localizado via IA. Equipes locais serão contratadas apenas quando a plataforma atingir tração suficiente para justificar a fase 2, o que inclui a integração de operadoras de ônibus e a introdução gradual de modelos de receita.
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Para a maioria dos novos mercados, Brusson projeta que essa transição ocorra no intervalo entre 18 e 24 meses.
O CEO não divulgou o valor investido na expansão, afirmando que a empresa definirá metas financeiras mais específicas para 2027, conforme avalia a tração nos novos territórios. Os recursos serão direcionados a estratégias de marketing digital para criar reconhecimento inicial.
Os atributos relacionados à segurança devem ganhar atenção especial, por ser um elemento crítico da operação. Segundo o francês, a evolução tecnológica tornou os processos de checagem mais baratos e integrados à rotina digital, transformando a segurança em um pilar central da nova onda de expansão.
“Hoje ficou muito mais fácil fazer verificação de identidade. Há dez anos, quando lançamos a funcionalidade, era muito caro e as pessoas não faziam ou não queriam fazer”, diz.
O sistema atual soma a verificação de documentos a sistemas de avaliações mútuas, fotos obrigatórias e contas únicas. Isso permite à empresa exportar o que o executivo chama de pacote de confiança já testado e adaptado para os novos territórios.
“Ficou muito interessante porque temos mais ferramentas e que, ao mesmo tempo, ficaram mais baratas para serem empregadas e com usuários mais acostumados a usá-las”, afirma Brusson.
Depois de Brasil e México
A escolha e a estratégia para os novos países basearam-se nos sucessos recentes da BlaBlaCar fora da Europa, com destaque para a Índia, México e Brasil.
Atualmente, o mercado indiano vive um ritmo de crescimento sem precedentes, segundo ele, tendo superado o Brasil em volume de viagens dedicadas estritamente à carona. Em número de usuários, o Brasil ainda mantém a primeira posição, com 25 milhões. A Índia tem 19 milhões.
A bagagem acumulada no Brasil serviu como uma espécie de bússola para desenhar a expansão na América Latina. Para o CEO, países como Argentina, Chile e Colômbia compartilham de uma infraestrutura e comportamento de consumo parecidos, caracterizados por territórios extensos com áreas cronicamente desatendidas por redes tradicionais de transporte e uma dependência histórica do modal rodoviário.
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Nesses locais, a carona entra para preencher lacunas de conveniência onde o ônibus não chega ou não possui horários flexíveis. “Se você olhar para esses mercados, é claro que são diferentes, mas são bastante semelhantes no sentido do tamanho do país e de que as alternativas de transporte são mais ou menos as mesmas”, diz Brusson.
Em contrapartida, desbravar o Sudeste Asiático, em países populosos como Tailândia, Vietnã e Indonésia, exigirá um esforço adaptativo maior.
“Na Ásia, há diferenças profundas em termos de códigos sociais, comportamentos e na própria estrutura das alternativas de transporte existentes”, afirma. “Não acho que você possa usar o que aprendeu na Índia e aplicar diretamente na Tailândia”.
À medida que expande a operação, a BlaBlaCar deve inaugurar uma nova rodada de batalhas judiciais, algo com o qual a companhia aprendeu a lidar desde o começo da sua história.
Desde a França, onde nasceu, passando por mercados como Espanha, Ucrânia, Índia e Brasil, a empresa já sofreu - ou sofre - questionamentos sobre a legalidade do modelo de negócio.
O pilar que sustenta a segurança jurídica da operação globalmente é o cumprimento das diretrizes de compartilhamento de custos. A plataforma opera sob a premissa de que a carona não é uma atividade profissional ou comercial de transporte.
“O que é muito importante para nós é não ser transporte por aplicativo, ou seja, não ser uma atividade profissional, e sim uma atividade genuinamente de consumidor para consumidor, baseada na divisão de custos. E é isso o que fazemos e o que temos feito em todos os mercados há cerca de 20 anos”, afirma o CEO.