Bloomberg Línea — A healthtech mexicana Eden, dona de um sistema operacional em nuvem que usa inteligência artificial para apoiar médicos radiologistas na detecção de câncer, escolheu o Brasil como o novo principal mercado na América Latina.
Após captar US$ 22 milhões em uma rodada Série A no ano passado, a startup planeja destinar pelo menos metade deste montante (cerca de US$ 11 milhões) à operação brasileira ao longo dos próximos dois anos.
O movimento não é por acaso. O Brasil representa o maior mercado de saúde da região, concentrando cerca de um terço de todos os exames diagnósticos realizados na América Latina.
“Se você tem a capacidade de mudar o sistema de saúde do Brasil, tem a capacidade de impactar a vida de centenas de milhões de pessoas. Essa é a nossa prioridade estratégica principal”, afirma o CEO e fundador da Eden, Julián Ríos Cantú.
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A startup é apoiada por um grupo diverso de investidores, como os fundos Sierra Ventures, que liderou as rodada Seed e Série A, Kaszek, Khosla Ventures, Alt Capital - fundo de venture capital criado pela família de Sam Altman - e ainda pelos atores Ashton Kutcher e Leonardo DiCaprio.
Para preparar o terreno, o empreendedor de 26 anos viveu no Brasil durante a maior parte de 2025 estabelecendo as bases da operação, que já conta com uma equipe local dedicada e atende mais de 100 departamentos de imagem no país, incluindo a gigante Dasa.
O fundador também contratou Felipe Kitamura, um dos nomes mais respeitados na intersecção entre radiologia e IA, com passagens pela Dasa, Clínica Mayo e a Universidade de Stanford, nos Estados Unidos. Kitamura irá atuar como Chief Medical Officer (CMO) da startup.
“Eu já vinha estudando e ajudando a desenvolver a área, fazendo pesquisas de ponta com outros pesquisadores do mundo. E, para mim, ficou claro que existem alguns requisitos hoje para a levar a inteligência artificial para a próxima etapa”, disse o médico e professor. “E, na Eden, nós temos a possibilidade de executar esse trabalho que eu sempre quis, que é manter o desenvolvimento na fronteira do que existe de pesquisa e usar na prática essas ferramentas”.
A Eden diz que atende mais de 2.600 instituições de saúde em 18 países, registrando um crescimento de receita superior a duas vezes ao ano. No Brasil, prevê crescer seis vezes ao ano, dada a base mais recente.
Diagnósticos tardios
A motivação para a criação da startup carrega um histórico familiar severo de câncer e diagnósticos tardios e erros médicos, que levaram à perda dos avós. Aos 16 anos, ao ver a mãe diagnosticada com câncer de mama pela segunda vez, Cantú decidiu se dedicar a encontrar um mecanismo para ajudar na área.
A sua primeira empresa, a Eva, tentou resolver o problema do diagnóstico de câncer de mama por meio de hardware (dispositivos e cabines de detecção). Após ensaios clínicos robustos — inclusive em parceria com Stanford —, a empresa pivotou.
A Eden é para ele uma evolução do primeiro negócio.“Nós fizemos 15 publicações em revistas de investigação científica internacionais e tivemos vários patentes, mas, no final, não estávamos satisfeitos de que esse seria o caminho para cumprir com a missão de que nenhuma pessoa ficará sem o diagnóstico correto no tempo correto”, afirma Cantú.
“Foi quando vimos a oportunidade de não só fazer um impacto na mamografia, mas criar essa plataforma que tenha um impacto usando todo tipo de imagens. E hoje somos agnósticos e nos integramos com todo tipo de equipamento médico”.
Segundo números da startup, a tecnologia tem reduzido o tempo de interpretação dos exames entre 30% e 50%, chegando a 90% em alguns casos, além de integrar ferramentas que reconstroem as imagens em múltiplos planos e detectam até 10 patologias no tórax de forma automatizada, evitando que fraturas e lesões passem despercebidas.
A velocidade é um elemento importante na detecção dos tumores, e IA cumpre um papel de contribuir num cenário de escassez de profissionais de radiologia. O país encerrou o ano passado com 20.453 médicos especialistas na área, de acordo com dados do Atlas da Radiologia do Brasil.
O número registra uma densidade média nacional de 10,87 profissionais por 100 mil habitantes, que não é igualitária regionalmente. As regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste apresentam dados na casa dos dois dígitos, enquanto o Nordeste fica em 7,68 e o Norte com 4,72% de densidade de médicos por 100 mil habitantes.
Desde o início da operação, a Eden consolidou uma base de mais de 4 bilhões de imagens médicas.
No modelo de negócios, a startup descartou as tradicionais cobranças de licenças para adotar um modelo de receita de pagamento por estudo processado (pay-per-use). “Isso é o que nos permitiu atender desde uma instituição muito pequena no norte do Brasil até uma Dasa, oferecendo a ambos o melhor produto”, afirma o mexicano.
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