Sem medo de ser global: nova geração de startups do Brasil acelera internacionalização

Se antes os empreendedores brasileiros buscavam crescer no mercado doméstico, muitos agora veem a expansão para outros países como natural; pesquisa inédita da Endeavor mostra que 71% já iniciaram o processo ou se preparam para ir para o exterior

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Bloomberg Línea — Há uma mudança silenciosa acontecendo no ecossistema de startups brasileiro. Enquanto a geração anterior de empreendedores debatia se deveria ou não se expandir para fora do Brasil, a nova onda de negócios começa a transitar por múltiplos países, processando transações globais e competindo em outros mercados.

Uma pesquisa inédita da Endeavor quantifica essa transformação: 71% dos empreendedores brasileiros já iniciaram ou estão se preparando para expandir internacionalmente.

Entre as startups e scale-ups (de alto crescimento), fundadas entre 2020 e 2024, quase metade planeja essa expansão no curto ou médio prazo.

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O dado é significativo porque revela uma mudança de mentalidade. Quando o Ebanx, hoje um conhecido unicórnio brasileiro se lançou em uma cruzada para processar pagamentos no começo da década passada, a startup era uma das poucas exceções, ao lado de negócios como a VTEX, Wellhub (ex-Gympass) e Hotmart.

O negócio nasceu com a tese global de ajudar clientes internacionais, como marketplaces dos Estados Unidos, China e Europa a venderem no Brasil.

Da experiência no mercado doméstico, a plataforma avançou por outros países a partir de 2015 e hoje processa pagamentos em 20, incluindo mercados emergentes na África e na Ásia.

Em 2025, 65% do lucro bruto veio do exterior e 20% de fora da América Latina. No ano, o unicórnio processou mais de 1,3 bilhão de transações para clientes como o Uber, Spotify, AliExpress, Shein e Canva.

“A nossa tese já começou pela missão de ajudar clientes internacionais a expandirem no Brasil e tínhamos que ir para fora para conseguir esses clientes”, afirma João Del Valle, co-fundador e CEO do Ebanx. “Primeiro, para oferecerem o Ebanx no Brasil e depois vimos que isso fazia sentido levar a nossa plataforma para outros países.”

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Pelo tamanho do mercado local, que permite que as empresas construam bases sólidas localmente, o processo de expansão ficava para um segundo plano.

Segundo a pesquisa, com dados de 101 scale-ups brasileiras, além de 20 entrevistas com empreendedores e investidores, 60% dos 25 unicórnios brasileiros sustentavam uma tese predominantemente doméstica quando atingiram o valuation de US$ 1 bilhão. Nos demais mercados da América Latina, o número fica em 16% dos unicórnios.

A nova geração de empreendedores em busca de internacionalização está associada a dois elementos internos principalmente: potencial de mercado, apontado por 75%, e demanda dos clientes (42%), em perguntas com múltiplas respostas. A saturação do mercado doméstico apareceu nas respostas de até 17% dos entrevistados.

A eles, somam-se ainda fatores externos como taxa de câmbio, liquidez do mercado privado, acordos de comércio e o novo ciclo de inovação internacional, impulsionado por inteligência artificial.

Entre quem já expandiu internacionalmente, os Estados Unidos foram o primeiro destino de 63% das startups. A Califórnia, estado onde fica o Vale do Silício, atrai a maioria dos empreendedores. Na sequência, aparece a América Latina (60%) e a Europa (49%), que tem Portugal e Espanha como pontos de entrada.

O processo de entrar em outro mercado não é ortodoxo e nem sempre começa com a abertura de um escritório. Esse movimento foi indicado por 51% dos empreendedores, outros 43% optaram por iniciar com vendas internacionais. A lista ainda inclui relocação de fundadores, M&As, parcerias e até captações internacionais.

De acordo com o estudo, a boa execução da internacionalização da presença da liderança. Entre os entrevistados, 44% informaram que se mudaram ou planejam se mudar para o novo mercado. Quarenta e seis porcento decidiram contratar executivos seniores locais para as operações.

Del Valle, do Ebanx, conta que, no momento em que decide entrar em outro mercado, o empreendedor precisa colocar o tema na agenda.

“Tem que estar no top 3 das prioridades e virar um ‘pet project’. Achar que vai delegar um projeto desse é uma ilusão”, diz. “Apesar de não ser uma coisa complexa, tem uma quebra de inércia ali para pegar a tração inicial.”

O executivo, hoje também mentor para startups, afirma que o principal conselho que oferece aos empreendedores, quando percebe o potencial do negócio internacionalmente, é para desmistificar a internacionalização.

“Muitas vezes o empreendedor está aqui muito focado no Brasil e internacionalização pra ele é um bicho de sete cabeças, mas não é. Para uma empresa de tecnologia, ele pode alocar um time, intencionalmente, explorar e errar um pouco. Primeiro, é uma coisa de mentalidade, o empreendedor tem que estar disposto a fazer”, afirma.

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