Rodadas da semana: as lições de 431 startups que quebraram, segundo o CB Insights

Falta de ‘fit’ do produto no mercado e a queda de parcerias são os principais alertas antes do fechamento de uma startup, aponta estudo da CB Insights; na semana, Core AI e Centeni recebem aportes

Por

Bloomberg Línea — As quebras de startups raramente são explicadas por um único movimento, mas o rastro deixado por elas antes do fim revela padrões que o mercado de venture capital não pode mais ignorar.

Um estudo da CB Insights com 431 startups que encerraram operações desde 2023 mostra que, embora 70% dos fundadores apontem a “falta de caixa” como o motivo do encerramento das operações, essa é apenas a causa terminal.

Os três principais fatores que levam aos problemas de fluxo de capital são na realidade: a falta de encaixe do produto no mercado (43%), cenário macroeconômico desfavorável (29%) e unit economics insustentáveis (19%).

Conheça e assine as newsletters da Bloomberg Línea, e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.

A análise, a partir de dados proprietários da plataforma, indica que o declínio é mensurável muito antes do fechamento oficial.

Cerca de 72% das startups que faliram apresentaram uma deterioração de 15% em suas classificações de saúde financeira e potencial de mercado no ano anterior ao fechamento, avaliados pelo Mosaic Score, sistema da CB Insights.

Outro sinal de alerta crítico foi a queda de 44% na atividade de parcerias e relacionamentos de negócios nos últimos 12 meses de vida, sinalizando uma perda de relevância comercial e fôlego operacional.

O volume de capital destruído impressiona: as startups analisadas levantaram, juntas, US$ 17,5 bilhões em equity antes de sucumbirem. Casos como o da startup de automação em saúde Olive e da corretora digital de fretes Convoy — que chegaram a valer US$ 4 bilhões cada e captaram cerca de US$ 1 bilhão — ilustram que nem mesmo valuations bilionários garantem sobrevivência quando o mercado vira.

O estudo aponta um “abismo de financiamento”: o tempo mediano entre a última captação e o encerramento é de apenas 22 meses.

Atualmente, estima-se que quase 50 mil startups apoiadas por investidores de venture capital não tenham levantado capital desde o início de 2023, intervalo que pode sugerir uma nova onda de consolidação ou fechamentos no horizonte.

Por setores, os negócios de saúde e biotecnologia lideraram em capital perdido (US$ 5,1 bilhões), um valor explicado pela alta intensidade de capital demandado para ensaios clínicos. 62 startups encerraram as operações desde 2023.

No universo das fintechs, os problemas concentraram-se em estágios iniciais e em mercados emergentes. Sessenta porcento das startups que fecharam estavam fora dos EUA, traduzindo uma dificuldade de sustentar modelos de negócio com margens apertadas em regiões de maior risco.

Em alimentos e agricultura, a aposta em proteínas alternativas foi o principal destaque negativo. Nomes como Believer Meats e Motif FoodWorks atraíram bilhões em 2021, mas não encantaram do mesmo modo a demanda dos consumidores.

Veja os principais aportes da semana:

Core AI

A fintech Core AI captou US$ 4,5 milhões em uma rodada seed para escalar sua infraestrutura nativa em inteligência artificial voltada à concessão de crédito. O aporte foi liderado pelos fundos 14B, Big Bets, Nameless, BFF e Norte, contando ainda com a participação de fundadores da Stone, como André Street e Eduardo Pontes, e de Fersen Lambranho, da GP Investimentos.

A startup oferece uma camada tecnológica modular e white-label que permite às empresas estruturarem as suas próprias operações de crédito em cerca de 25 dias.

A tecnologia utiliza agentes de IA para organizar dados e construir motores de risco proprietários, reduzindo o tempo de resposta de dias para segundos.

Com o novo capital, a Core AI planeja fortalecer sua plataforma proprietária e expandir a operação para novas verticais. Atualmente, a fintech atua em nichos como antecipação de aluguel e recebíveis médicos. Agora, prevê avançar por setores da gig economy e creator economy.

Centeni

A healthtech Centeni levantou R$ 2,5 milhões em uma rodada com mais de 40 investidores-anjo, incluindo fundadores da Alice, da 99 e executivos da Apple. O aporte foca no mercado global de saúde e bem-estar, avaliado em mais de US$ 5 trilhões, onde a startup busca implementar um modelo de acompanhamento contínuo e preventivo.

A operação baseia-se em um modelo de assinatura anual que utiliza dados clínicos, histórico e comportamento para monitorar a saúde dos usuários.

A proposta é inverter a lógica reativa do sistema de saúde tradicional, utilizando a tecnologia para antecipar problemas e personalizar o cuidado com base em evidências e dados em tempo real.

A tese da Centeni acompanha o avanço dos wearables, dispositivos vestíveis que já movimentam mais de US$ 60 bilhões anualmente em todo o mundo.

Ao integrar esses dados ao acompanhamento médico, a startup projeta uma redução de até 30% nos custos assistenciais ao longo do tempo, capturando valor por meio da eficiência e da prevenção de episódios agudos.

Com o novo capital, a healthtech planeja escalar sua base de usuários e refinar os algoritmos de análise de dados comportamentais. O investimento sinaliza o apetite por soluções que atacam a inflação médica e a ineficiência dos planos de saúde tradicionais.

Leia também

A Evertec já investiu US$ 1 bilhão em M&As no Brasil. O CEO global diz que quer mais

Live! compra 60% da Pink Cheeks, de dermocosméticos, e avança além da moda fitness