Cora, apoiada por fundos dos EUA, entra em maquininhas após crescer em contas PJ

Fintech brasileira, que tem Greenoaks, Tiger Global e Ribbit Capital entre seus investidores, vê oportunidade para disputar o mercado de adquirência oferecendo taxas competitivas, segundo conta o CEO Igor Senra à Bloomberg Línea

Por

Bloomberg Línea — A fintech brasileira Cora, que conta com os fundos americanos Greenoaks, Tiger Global e Ribbit Capital entre seus investidores, decidiu ir além da sua oferta de serviços bancários tradicionais, voltados a contas para pessoa jurídica (PJ).

A startup desenvolve agora uma nova vertical de adquirência, com o objetivo de entrar em um mercado altamente concorrido e disputado por nomes como PagBank, Mercado Pago, Stone, CloudWalk (InfinitePay), SumUp, entre outros.

O movimento envolve soluções tanto de maquininhas de cartão quanto de tecnologia Tap to Phone, que transforma o celular em um terminal de pagamentos, segundo executivos da startup.

“Esse produto sozinho vai ser maior do que toda a Cora em dois ou três anos”, afirma Igor Senra, co-fundador e CEO da fintech, à Bloomberg Línea. “É um produto em que as pessoas têm uma alta sensibilidade a custo e nós iremos entrar com a possibilidade de derrubar o custo de maneira importante.”

Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.

A expectativa é disputar o vasto mercado de adquirência no país. Segundo a Abecs (Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços), as transações com cartões no Brasil somaram mais de R$ 1,1 trilhão no primeiro trimestre deste ano, depois de alcançarem R$ 4,5 trilhões no ano passado.

A oportunidade identificada pela startup está atrelada à alta sensibilidade do micro e pequeno empreendedor em relação às taxas cobradas no mercado.

Segundo o CEO, a operação enxuta da fintech foi desenhada para permitir uma redução de custos drástica na comparação com a concorrência, incluindo negócios que já nasceram digitais.

Leia também: ‘Adoção de IA não é opcional’, diz CEO da Red Hat, empresa da IBM que fatura US$ 7 bi

Para chegar ao modelo prometido, a Cora tem feito uma série de testes no mercado. O produto tem sido introduzido aos poucos, ainda em fase beta e com parceiros pontuais. No momento, a fintech oferece apenas a modalidade de link de pagamento, mas a expectativa é ampliar a oferta.

O CEO ainda evita indicar o quão competitiva podem ser as taxas oferecidas, mas diz que a nova vertical foi construída com base no aprendizado desenvolvido ao longo dos anos em suas duas verticais - crédito e conta bancária.

“O nosso custo de servir os clientes é na casa de R$ 14,00, cerca de 10% do valor para as grandes instituições. Isso nos permite, com muito menos dinheiro, cobrar muito menos e lucrativo”, diz Senra.

Criada em 2019, a Cora conta hoje com mais de 1,7 milhão de clientes e encerrou o primeiro trimestre deste ano com um volume de pagamentos transacionados em cerca de R$ 50 bilhões e a receita cresceu em torno de 50%, na comparação com semelhante período de 2025.

Ao entrar em adquirência, a startup vai procurar obter uma outra fatia movimentada por clientes já conhecidos.

Não é a primeira vez que os fundadores da Cora exploram o segmento. O CEO Igor Senra e seu sócio, Leonardo Mendes, foram fundadores da Moip, uma startup de meios de pagamento, que foi vendida à Wirecard em 2016 (a operação brasileira da Wirecard depois foi adquirida pela PagSeguro/PagBank em 2020).

Quando saíram do negócio, diferentemente de outras startups que passam por ciclos exaustivos de tentativa e erro, a experiência contribuiu para que a nova tese fosse validada logo no início.

O primeiro produto — a conta digital focada exclusivamente em Pessoas Jurídicas (PJs) — foi o que o chamam de “home run”, numa analogia com uma ataque certeiro no jogo de beisebol.

“Se você for pensar que a dinâmica de banking é um jogo de xadrez, a conta digital é o tabuleiro. É o que permite que tudo aconteça, é lá que as informações afluem”, diz Senra.

Em 2023, a startup também passou por um processo de verticalização, eliminando intermediários e assumindo a infraestrutura direta de Pix e boletos; e abraçou a inteligência artificial. Hoje, 100% das transações passam por modelos proprietários de IA para análise de risco, prevenção à lavagem de dinheiro (PLD) e fraude, além de 85% do atendimento ao cliente ser resolvido de forma automatizada por IA.

As mudanças, acompanhadas por um salto no número de clientes - de um número inferior a 1 milhão para os atuais 1,7 milhão -, levaram a startup ao breakeven um ano depois. De acordo com Senra, a sensação atual na Cora é “de que, de fato, controlamos o nosso destino” e de que não há a necessidade de capital externo para dar os próximos passos.

A última captação da startup ocorreu em 2021, quando levantou uma rodada série B de US$ 116 milhões (cerca de R$ 600 milhões na época) liderada pelo Greenoaks Capital, com a participação das gestoras Tiger Global e Tencent.

Antes disso, a empresa já tinha levantado uma rodada série A de US$ 26,8 milhões, que contou com a participação da Ribbit Capital. E levantou um investimento Seed de US$ 10 milhões, liderado pela Kaszek Ventures.

Leia mais: Google Cloud leva ao Cade supostas práticas abusivas da Microsoft no mercado de nuvem

Além da nova vertical, os planos de expansão da Cora passam por ampliar a participação da unidade de crédito, em que a liderança observa a oportunidade de aumentar em três vezes ARPU, sigla em inglês para Receita Média por Usuário.

“É surreal o tamanho da oportunidade de crédito para a gente”, diz Senra, que prevê saltar o volume dos R$ 200,00 atuais para R$ 600,00, com produtos como capital de giro, antecipação de recebíveis de boleto.

“Nós estamos falando de um negócio que hoje representa 20% do todo, mas que tem o potencial de ser três vezes maior do que o todo hoje”, afirma. “Ou seja, com adquirência e crédito, nós temos algumas avenidas que permitem esse negócio crescer bastante ainda.”

Segundo o executivo, a ideia é tocar todos esses projetos dentro de casa. Conversas já feitas para movimentos inorgânicos não avançaram devido à questões associadas a complexidades de integração. Novas captações também estariam fora do radar e o caixa seria “suficiente para as ambições”.

Leia também

Mastercard quer dividir com maquininhas prejuízo do Will Bank, do Master, dizem fontes