Com assistente clínico de IA, esta startup quer alcançar 1 mi de médicos em LatAm

A Telepatia, apoiada pela Andreessen Horowitz, quer levar seu assistente clínico a metade dos 1,9 milhão de médicos da região até 2027, em uma aposta para elevar a produtividade dos profissionais de saúde

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Bloomberg — Uma startup de saúde apoiada pela Andreessen Horowitz e criada na América Latina quer colocar seu assistente de IA nas mãos de metade dos 1,9 milhão de médicos da região até o fim de 2027, apostando que a tecnologia pode ajudar a suprir a escassez de profissionais em sistemas de saúde sobrecarregados.

A Telepatia, lançada na Colômbia em julho de 2025 e atualmente sediada em São Paulo, vê os hospitais e médicos da região, pressionados por excesso de demanda, tanto como uma oportunidade de crescimento quanto como um campo de testes para uma tecnologia que promete aumentar sua produtividade.

Seu assistente clínico de IA transcreve consultas, revisa prontuários, identifica possíveis erros e faz sugestões em tempo real com base na literatura médica e em diretrizes clínicas.

“É como um segundo cérebro para o médico”, disse Nicolás Abad, diretor-presidente e cofundador da Telepatia.

A empresa levantou US$ 33 milhões em abril em uma rodada Série A liderada pela firma de capital de risco do Vale do Silício Andreessen Horowitz, elevando o total captado para US$ 42 milhões.

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Entre os investidores iniciais estão Shyam Sankar, diretor de tecnologia da Palantir, Simón Borrero, fundador da Rappi, e David Vélez, fundador do Nubank. A Telepatia e a Andreessen Horowitz não divulgaram informações sobre a avaliação da empresa.

Para a Andreessen Horowitz, que investiu em startups americanas de documentação clínica automatizada, como Abridge AI e Ambience Healthcare, a Telepatia representa um de seus maiores investimentos em saúde baseada em IA fora dos EUA.

“Nós claramente os vimos como vencedores. Eles estão crescendo em um ritmo impressionante”, disse Daisy Wolf, sócia da Andreessen Horowitz. “Acreditamos que a saúde será o setor mais transformado pela IA. A questão não é se isso vai acontecer, mas quem fará isso.”

Abad afirmou que a inspiração para criar a Telepatia veio de seu pai, médico que morreu no fim de 2022, aos 58 anos, após um erro médico evitável.

Ele havia passado anos lendo artigos científicos sobre sua própria doença, mas uma interação medicamentosa entre um tratamento para soluços e um remédio para dormir foi fatal. Pouco depois, o surgimento da IA generativa ajudou a moldar a startup.

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Agora, Abad quer usar a tecnologia para evitar erros semelhantes. Também pretende ajudar clínicos a lidar mais rapidamente com grandes volumes de pacientes.

Segundo ele, a América Latina é um mercado natural para essa proposta: os sistemas de saúde dependem fortemente de médicos de atenção primária e enfermeiros, especialmente fora dos grandes centros urbanos, e o acesso a especialistas é limitado.

A defasagem de profissionais na região é significativa. Brasil e Colômbia têm cerca de 2,4 a 2,5 médicos por mil habitantes, quase um terço abaixo da média da OCDE, de 3,4.

Já a Colômbia conta com apenas 1,5 enfermeiro e parteira por mil habitantes, ante a média de 9,5 da OCDE. Médicos e enfermeiros também gastam entre 40% e 70% do tempo em tarefas que não envolvem atendimento direto ao paciente, desde documentação até a navegação por sistemas fragmentados, disse Abad.

A Telepatia aposta que a IA pode ampliar a capacidade dessa força de trabalho clínica ao apoiar os profissionais que estão na linha de frente da atenção primária na região.

A Telepatia vende suas soluções para instituições de saúde, seguradoras e governos locais. Em menos de um ano, afirma ter alcançado mais de 14 milhões de pacientes por meio de mais de 25 instituições públicas e privadas de saúde no Brasil, Colômbia, México, Chile e Argentina.

No Brasil, trabalha com grupos de saúde listados em bolsa, incluindo Hospital Mater Dei, Kora Saúde e Hapvida. Na Colômbia, seus clientes incluem Fundación Santa Fe de Bogotá, Comfama e Colsubsidio, além de órgãos públicos em Bogotá, Medellín, Barranquilla e outras cidades.

No Hospital Mater Dei, a Telepatia é utilizada para reduzir o tempo que os médicos gastam buscando informações em prontuários ou digitando anotações, além de ajudar a rede hospitalar brasileira a organizar dados clínicos, identificar riscos à segurança dos pacientes e priorizar resultados de exames.

Segundo dados da empresa, os médicos utilizam a ferramenta em média oito horas por dia e recuperam, em média, 1,7 hora diária.

Na MiRed Barranquilla, que opera grande parte da rede pública de saúde da cidade colombiana e atende principalmente pacientes de baixa renda, a Telepatia ajuda a identificar diretrizes não seguidas, exames desnecessários e procedimentos que deveriam ter sido solicitados, afirmou Fredy Bojanini, médico e assessor de estratégia.

A ferramenta também cria registros mais claros para auditorias e reclamações de pacientes, oferecendo aos médicos “esse respaldo”, disse.

Regulação

A regulamentação ainda está em formação na América Latina, o que pode permitir que empresas como a Telepatia cresçam mais rapidamente, mas também criar riscos futuros.

O Senado brasileiro aprovou um projeto de lei sobre IA que estabelece um marco regulatório baseado em níveis de risco para a tecnologia, embora a proposta ainda precise ser aprovada pela Câmara dos Deputados e sancionada pelo presidente.

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O governo colombiano também enviou ao Congresso um projeto que classificaria sistemas de IA por grau de risco e imporia supervisão mais rigorosa para usos considerados sensíveis.

Para empresas de IA voltadas à saúde, regras mais claras podem deixar hospitais mais confortáveis para adotar a tecnologia, mas também elevar custos de conformidade e retardar a implementação.

Bojanini afirmou que softwares de IA que fazem triagem de pacientes antes da consulta médica levantam questões jurídicas mais complexas, porque podem dar a impressão de tomar decisões médicas sem licença profissional.

Segundo ele, a Telepatia apenas apoia os clínicos, cabendo ao médico a decisão final e a assinatura do prontuário.

A empresa planeja aprofundar sua atuação na América Latina antes de se expandir para outros mercados emergentes, incluindo Índia, África e Sudeste Asiático.

Abad disse que a Telepatia é “o produto que teria salvado meu pai como paciente e que ele teria adorado como médico”.

--Com colaboração de Rebecca Torrence.

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