Bloomberg Línea — A cada nova coleção de roupa ou lançamentos de calçados, muitos varejistas e fabricantes ficam com estoques excedentes e dar um destino para eles se torna um problema. Essa é a questão que a BackChannel, startup que opera um marketplace B2B desde o ano passado, procura resolver.
No ano passado, a empresa validou o seu modelo de negócios alcançando um volume bruto de mercadoria (GMV) de R$ 25 milhões. Agora, ela projeta um salto para R$ 150 milhões em 2026, com a ajuda de um novo aporte financeiro para impulsionar a operação.
A startup está anunciando a captação de R$ 25 milhões em uma rodada Seed liderada pela Sunna Ventures. O aporte conta com a participação de um sindicato de fundos como Positive Ventures, Norte Ventures e Accion Ventures. Em outubro de 2025, a startup levantou R$ 17 milhões para criar a plataforma.
Na liderança do negócios estão os argentinos Guillermo Freire e Guillermo Arslanian, também fundadores da Trocafone, marketplace para a venda de smartphones usados.
Os dois continuam sócios da empresa anterior, mas deixaram o comando das operações da Trocafone nas mãos de executivos e partiram em busca de novos negócios.
“Entendi basicamente essa grande dor que o mercado tem em relação aos excessos de inventário lá atrás com os os nossos parceiros como Apple, Samsung e Motorola”, afirma Freire. “E identificamos que esse problema está nas companhias de moda, de beleza, cuidados pessoais, utensílios domésticos e alimentos.”
As peças não vendidas acabam incineradas, descartadas ou largadas no meio ambiente. Uma pesquisa do Sebrae, feita em 2023, apontou que o Brasil produzia anualmente 170 milhões de toneladas de roupas por ano e apenas 20% eram recicladas ou reaproveitadas.
A criação da startup, após os sócios não encontrarem modelos concorrentes no Brasil e na América Latina, foi inspirada na americana Ghost, também investida da Cathay Latam, gestora que liderou a rodada anterior da BackChannel. “Nós adaptamos um modelo de negócio similar para a América Latina”, diz.
A grande diferença dessa segunda jornada é a velocidade permitida pela tecnologia. Na época da Trocafone, o desenvolvimento de processos similares levavam seis meses com o dobro da equipe. A infraestrutura da BackChannel foi erguida em dois meses.
“Nós não estamos apenas adotando IA, criamos tudo do zero baseados nela”, diz o CEO, que conta com um time de 40 profissionais e 8 agentes de IA. Segundo ele, a arquitetura permite que a startup escale com unit economics positivos desde o primeiro dia.
O coração da operação reside em agentes que ocupam funções que antes exigiriam grandes times comerciais, com tarefas de prospecção, envio de e-mails e o on-boarding automatizado de clientes.
No front-end, o lojista interage com uma interface ao estilo ChatGPT, onde descreve o perfil de seu negócio e recebe recomendações automáticas de lotes. E a IA assegura que um produto em liquidação apareça apenas para compradores que cumprem parâmetros rígidos de localização e canal, evitando que preços promocionais vazem para o e-commerce e canibalizem as linhas atuais.
“Isso permite que os fabricantes tenham um controle real de qual será o destino final do produto para minimizar conflitos”, afirma Freire.
A base atual reúne 18 mil lojistas - entre microempreendedores, lojas online e físicas - e mais de 100 grandes vendedores. A BackChannel recebe um take rate por transação de 12%, num negócio cujo tíquete médio é de R$ 50.000,00.
Após esse primeiro ano de experiência com foco em moda, a BackChannel começa a abrir o leque de produtos ofertados. A expansão também mira novas verticais, como beleza, cuidados pessoais e alimentos, onde o desafio do shelf-life (prazo de validade) torna a liquidez ainda mais urgente.
A startup nasceu com ambição regional, de acordo com Freire. E um primeiro passo em estruturação é a logística para a importação excedentes de mercados como China, Estados Unidos e Europa, o que oferece uma perspectiva para a BackChannel se transformar em uma plataforma global de arbitragem de inventário.
Com os novos recursos, além de aprimorar a plataforma para receber as novas demandas, a startup pretende acelerar sua vertical de fintech para oferecer crédito e prazos de pagamento para os pequenos e médios lojistas, que são o destino final dessas mercadorias.
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