Surto silencioso de Ebola no Congo expõe falhas de monitoramento e diagnóstico

OMS declarou ‘emergência de saúde pública de interesse internacional’ neste domingo (17) após surto de Ebola no Congo deixar ao menos 91 mortos e expor falhas na detecção do vírus em regiões sob pressão de outras doenças

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Bloomberg — Um raro surto de Ebola que pode ter circulado sem ser detectado por várias semanas no nordeste da República Democrática do Congo expõe a dificuldade de identificar vírus letais em regiões onde malária, febre tifoide e outras doenças que causam febre são comuns e os sistemas de saúde operam sob forte pressão.

Cerca de 350 casos suspeitos e 91 mortes foram registrados no nordeste do Congo, disse no domingo o ministro da Saúde do país, Roger Kamba, enquanto a vizinha Uganda confirmou duas infecções, incluindo uma morte em Kampala.

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Um caso separado também foi registrado no domingo em Goma, cidade do leste congolês controlada pelos rebeldes do M23 apoiados por Ruanda.

“Os hospitais já estão sob pressão”, disse Kamba a jornalistas em Bunia, capital da província de Ituri, onde acredita-se que o surto tenha começado em abril e levado 59 pessoas à hospitalização.

“Não é uma doença mística”, afirmou, ao pedir que pessoas com sintomas procurem tratamento rapidamente para ajudar a desacelerar a transmissão.

O surto é causado pela cepa Bundibugyo do vírus Ebola. O primeiro suposto paciente do Congo, uma enfermeira em Bunia, apresentou sintomas em 24 de abril, segundo Jean Kaseya, diretor-geral dos Centros Africanos de Controle e Prevenção de Doenças.

A demora na detecção tornou-se uma preocupação central para autoridades internacionais de saúde porque a cepa Bundibugyo continua muito menos estudada do que a cepa Zaire, responsável pela devastadora epidemia na África Ocidental há uma década.

Sem vacina

Enquanto o Ebola Zaire se tornou foco de intenso desenvolvimento de vacinas e terapias após o surto de 2013-2016 matar mais de 11 mil pessoas, a cepa Bundibugyo provocou apenas dois surtos anteriores e não possui vacina aprovada nem tratamento com anticorpos.

Os sintomas iniciais — incluindo febre, fraqueza, dor de cabeça, vômito e diarreia — podem se assemelhar aos da malária e de outras doenças tropicais comuns, dificultando a identificação rápida dos casos em clínicas já sobrecarregadas.

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A Organização Mundial da Saúde declarou o surto uma emergência de saúde pública de interesse internacional no domingo, citando a disseminação transfronteiriça, mortes sem explicação, infecções entre profissionais de saúde e incertezas sobre a real dimensão da epidemia após o que autoridades descreveram como um atraso de quatro semanas na detecção.

A declaração busca acelerar o financiamento internacional, a coordenação e os esforços de resposta emergencial.

O surto atingiu o nível máximo de alerta da OMS porque a cepa Bundibugyo não possui vacina nem tratamento aprovados, e o vírus se espalha em uma região afetada por conflitos, com infraestrutura precária e alta mobilidade populacional.

Testes iniciais para a cepa Zaire, mais comum, deram negativo antes que análises adicionais confirmassem a cepa Bundibugyo em 14 de maio, segundo a OMS.

Os testes rápidos de Ebola comumente usados na região podem não detectar de forma confiável infecções pela cepa Bundibugyo, o que potencialmente retarda os esforços de isolamento e rastreamento de contatos, segundo Robert Garry, virologista da Universidade Tulane que atuou durante a epidemia de Ebola na África Ocidental.

A aparente demora para reconhecer o surto lembra os estágios iniciais da epidemia na África Ocidental, quando a transmissão se espalhou entre vilarejos antes que autoridades de saúde entendessem a dimensão da crise, disse ele.

O surto reforça a necessidade de diagnósticos específicos para a cepa Bundibugyo em toda a África Central e Oriental para identificar infecções mais cedo em pacientes com sintomas leves, segundo Kirsten Spann, vice-diretora de pesquisa da Faculdade de Saúde da Queensland University of Technology.

Múltiplas ameaças

O Congo enfrentou vários surtos de doenças febris de causa desconhecida nos últimos anos, incluindo grupos de casos inicialmente suspeitos de envolver malária, gripe ou contaminação de alimentos e água antes que investigações laboratoriais esclarecessem as causas. Esses atrasos podem permitir que patógenos perigosos se espalhem silenciosamente por semanas antes que autoridades de saúde compreendam totalmente o que enfrentam.

Pelo menos quatro profissionais de saúde morreram em circunstâncias compatíveis com febre hemorrágica viral, segundo o Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças, o que aumenta as preocupações de que a transmissão possa ter ocorrido sem ser percebida dentro de clínicas antes da identificação do Ebola.

Especialistas globais em saúde também alertaram que cortes em ajuda externa e programas de vigilância epidemiológica podem enfraquecer a capacidade de detectar surtos em regiões frágeis.

A real dimensão do surto permanece incerta porque muitos casos suspeitos e mortes nas províncias de Ituri e Kivu do Norte ainda estão sob investigação, disse a OMS.

--Com a ajuda de Zoe Ma.

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