Bloomberg — Os fundadores da BioNTech vão deixar a empresa para criar uma nova companhia de biotecnologia focada em RNA mensageiro, a tecnologia por trás de sua vacina contra a covid-19, abalando a confiança dos investidores nas perspectivas da companhia.
Os ADRs da BioNTech chegaram a cair até 22% nas negociações nos Estados Unidos depois que a empresa informou que Ugur Sahin e Özlem Türeci passarão para a nova companhia até o fim do ano.
O anúncio inesperado levantou dúvidas sobre o futuro da BioNTech no momento em que a empresa se prepara para levar ao mercado sua primeira terapia contra o câncer.
A decisão “é uma notícia devastadora para a empresa e seus acionistas” em um momento crítico, disse Markus Manns, gestor de portfólio da Union Investment e investidor da BioNTech. “Os dois eram o coração e o cérebro do negócio.”
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Sahin e Türeci, que são casados, são cientistas que preferem dedicar sua energia à busca por inovação em vez de administrar uma grande empresa biofarmacêutica, afirmou Manns em entrevista.
A BioNTech sempre teve um ambiente com forte perfil acadêmico, publicando pesquisas originais, e Sahin costuma ser visto nas ruas da cidade-sede da companhia, Mainz, indo ao trabalho de mountain bike.
“A BioNTech agora entra em uma fase que tem mais a ver com velocidade, execução, comercialização e industrialização”, disse Sahin. “Isso leva tempo, e acredito também que existam gestores que gostam de fazer esse tipo de trabalho.”
A empresa cresceu rapidamente nos últimos anos, alcançando um valor de mercado de US$ 26 bilhões. Embora isso esteja bem abaixo dos níveis atingidos durante a pandemia, ainda representa quase sete vezes o valor de sua estreia na bolsa, em 2019.
Sob pressão
A BioNTech pretende apoiar o novo empreendimento contribuindo com parte de seus direitos e tecnologias de mRNA em troca de uma participação minoritária, além de pagamentos futuros vinculados a marcos de desenvolvimento e royalties.
A transição é resultado de mais de 18 meses de discussões sobre os próximos passos e diferentes modelos de liderança para a BioNTech, segundo Sahin.
A decisão de dobrar a aposta no mRNA ocorre em um momento delicado, já que a tecnologia enfrenta pressão política nos Estados Unidos, incluindo cortes no financiamento federal para projetos de vacinas baseadas em mRNA e uma estratégia de imunização mais cautelosa — fatores que têm pesado sobre o sentimento dos investidores.
“O potencial do mRNA é alto, e não devemos nos deixar guiar por acontecimentos fora do campo científico”, disse Sahin.
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A nova empresa será a terceira fundada pela dupla, após a Ganymed Pharmaceuticals, em 2001, e a própria BioNTech, em 2008.
A BioNTech voltou seu foco para vacinas durante a pandemia em parceria com a Pfizer. Agora, usa os bilhões de dólares obtidos com a venda das vacinas para levar ao mercado medicamentos promissores como o pumitamig, atualmente em testes contra tumores de mama e de pulmão.
Ao contrário da rival Moderna, a BioNTech usou os bilhões obtidos com as vacinas para diversificar além do mRNA e buscou acordos na China antes de outras empresas do setor.
A BioNTech também informou nesta terça-feira (10) um prejuízo por ação em 2025 maior do que o esperado. Para este ano, a companhia prevê queda nas vendas devido à redução da receita com vacinas contra covid-19 tanto na Europa quanto nos Estados Unidos.
A empresa continuará trabalhando em conjunto com a nova companhia de Sahin em possíveis abordagens de terapias combinadas. A separação deve ser concluída até meados de 2026.
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