Tenda está ‘blindada’ contra pressão de custos da guerra, diz CFO após lucro dobrar

Luiz Mauricio Garcia disse em entrevista à Bloomberg Línea que processo de turnaround da empresa no pós-pandemia preparou a operação para enfrentar novo ciclo de alta do INCC: ‘Estamos em nosso melhor momento na qualidade de execução’

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Bloomberg Línea — O lucro da construtora Tenda (TEND3) mais que dobrou em seu balanço do primeiro trimestre deste ano, alcançando um saldo de R$ 183,4 milhões – 44% acima do consenso Bloomberg News.

Segundo a empresa, o resultado consolida o processo de turnaround após a turbulência enfrentada no pós-pandemia – e blinda a construtora do maior temor atual no mercado imobiliário: a pressão de custos de materiais diante da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã.

O conflito começou no final de fevereiro, e o mais recente alerta veio na divulgação do Índice Nacional de Custo da Construção (INCC) de abril. O indicador registrou forte aceleração no último mês, subindo 1,04%, acima dos 0,36% observados em março.

Luiz Mauricio Garcia, CFO da Tenda, disse que a empresa está “blindada” contra a inflação de custos da guerra, cenário oposto do que aconteceu a partir de 2021, quando o avanço do INCC foi um dos detratores do resultado da Tenda.

A construtora sofreu com a alta dos preços de materiais causada pelo lockdown e enfrentou compressão de margens. Além disso, acelerou lançamentos antes e durante a pandemia e acabou enfrentando dificuldades operacionais.

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O CFO defende que a companhia fez o dever de casa e atualmente está bem posicionada para enfrentar o novo desafio – e, desta vez, sem solavancos.

“Estamos em nosso melhor momento na qualidade de execução. Isso ajuda a explicar o resultado acima do esperado alcançado neste trimestre e também porque estamos protegidos nesse cenário atual de aumento de custos com o conflito no Oriente Médio”, afirmou Garcia em entrevista à Bloomberg Línea.

O executivo vê o avanço da eficiência como resultado da aposta da Tenda em um modelo construtivo industrial, com uso de formas de alumínio, que encurta os prazos de construção e diminui a exposição da empresa à inflação de custos.

O ciclo de obra ficou mais curto nos últimos anos: o prazo total de obra caiu de 30 para 18 meses de 2020 para cá.

A melhora no resultado veio também após uma combinação de reformas nos processos de orçamento, governança e controle de custos.

A Tenda tem apostado no reajuste antecipado de preços (já executado em 7% a 8% no início do ano), em sua estrutura da carteira de recebíveis, que corrige pelo INCC na fase pré-chaves e pelo IPCA na fase pós-chaves, e no conservadorismo nas provisões.

Hoje, 11% do total do “a gastar” em obras está provisionado para inflação e eventuais, contra zero em 2020.

No cenário mais conservador simulado pela companhia, de INCC a 10% no ano e correção dos recebíveis limitada a 5%, o impacto no lucro de 2026 seria de R$ 20 milhões. É um impacto considerado marginal diante do guidance para o ano, entre R$ 500 milhões e R$ 600 milhões.

“Estamos com uma obra muito eficiente e isso ajuda a entender como alcançamos esse resultado mesmo sem ter sido uma empresa que surfou na onda das faixas mais altas [do programa Minha Casa Minha Vida], que foi o grande impulsionador para muitas empresas nos resultados recentes”, disse.

Leia também: Tenda prevê benefícios ‘expressivos’ com reajuste do Minha Casa Minha Vida, diz CFO

A Tenda hoje tem 43% das vendas contabilizadas para a faixa 1 do MCMV, a mais baixa do programa, que atende o público de renda de até R$ 2.850 por mês.

A longo prazo, a companhia projeta uma distribuição mais similar entre as três principais faixas do programa, o que deve aumentar ainda mais em resultados com o aumento da penetração nas camadas mais altas do MCMV.

Outro ponto de atenção para os resultados da Tenda vinha sendo sua subsidiária Alea, grande queimadora de caixa. No trimestre, o segmento consumiu R$ 14,9 milhões – redução de 55% frente ao primeiro trimestre do ano passado.

Se mantiver a tendência, a companhia vai ficar abaixo do piso do guidance anual de queima entre R$ 60 a R$ 80 milhões para a Alea. A companhia encerrou o trimestre com apenas 13 canteiros ativos na subsidiária, frente a 33 no auge.

“A redução de queima de caixa era uma premissa importante para mostrar a estabilização da Alea, e alcançamos uma melhora substancial nesse trimestre”, afirmou o CFO.

Enquanto isso, a marca Tenda seguiu em tendência de aceleração. As vendas líquidas atingiram R$ 1,43 bilhão no trimestre – recorde histórico excluindo o programa Pode Entrar – com velocidade de vendas (VSO) de 26,9%.

O banco de terrenos consolidado chegou a R$ 29 bilhões em VGV potencial, crescimento de 24% na base anual.

A margem bruta ajustada do segmento Tenda foi de 38,5%, evolução de 1,8 ponto percentual frente ao primeiro trimestre do ano passado.

Já o EBITDA ajustado do segmento foi R$ 283,5 milhões no trimestre, alta de 67% na comparação anual. Anualizado, o número já supera R$ 1,1 bilhão — acima do teto do guidance para 2026, fixado entre R$ 950 milhões e R$ 1,05 bilhão.

A receita líquida total atingiu R$ 1,18 bilhão, também recorde histórico trimestral, com avanço de 36,9% na base anual. Já a geração de caixa do grupo somou R$ 86,6 milhões no trimestre, excluindo recompra de ações e distribuição de dividendos.

As ações da Tenda (TEND3) sobem 23,69% no acumulado do ano, contra uma alta de 16,33% do Ibovespa no mesmo período.

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