Serasa Experian vê ganhos na análise de crédito após compra da ClearSale por R$ 2 bi

Em entrevista à Bloomberg Línea, VP de crédito e plataformas, Eduardo Mônaco, aponta que a integração permitiu a melhoria na estimativa de renda e o aprimoramento dos produtos de crédito

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Bloomberg Línea — Pouco mais de um ano depois de concluir a aquisição da ClearSale em um negócio de R$ 2 bilhões, a Serasa Experian tem colhido os benefícios da integração com a empresa de serviços antifraude, o que tem ajudado a tornar mais assertivos os seus produtos tradicionais de análise de crédito.

Segundo Eduardo Mônaco, ex-CEO da ClearSale e que assumiu o cargo de vice-presidente de crédito e plataformas da Serasa Experian, um desses ganhos identificados é uma melhora de 30% a 50% na estimativa de renda de consumidores.

Isso decorre do fato de que a ClearSale trouxe para o ecossistema da empresa um conjunto de dados comportamentais de consumo – como o tipo de produto comprado, a frequência de compras e os endereços de entrega – que, combinados com as informações já disponíveis na Serasa Experian, permitem uma estimativa de renda mais precisa.

“Esse é um dado muito relevante para a concessão de crédito. Porque como eu te dou o seu limite de crédito? É muito em função de sua capacidade de pagamento, da sua renda. Isso muda muito o jogo”, afirmou em entrevista à Bloomberg Línea.

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Fundada em 2000, a ClearSale acumulou um longo histórico de dados sobre o comportamento do consumidor e que têm se mostrado benéfico dentro da oferta de serviços da Serasa Experian, segundo o executivo.

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Outro ganho, por exemplo, foi um incremento de mais de 15% no indicador usado pelo grupo para verificar a qualidade da discriminação entre clientes pagadores e não pagadores.

Segundo Mônaco, parte da relevância desses dados está no fato de que fraude e crédito são fenômenos mais interligados do que aparentam.

“Não adianta nada você falar que teve uma inadimplência de um cliente que não pagou, mas na verdade não era essa pessoa que estava abrindo a conta. Alguém usou os dados dela, você nem sabe o que aconteceu. Só estourou uma inadimplência ali, mas a causa foi uma falha no processo de fraude”, afirmou.

É nesse contexto que os dados da ClearSale ganham valor. A partir do monitoramento de dispositivos e transações, é possível saber onde o consumidor compra, com que frequência, que tipo de produto adquire e para quem faz entregas – e, sobretudo, se aquelas compras foram legítimas ou envolveram tentativas de fraude.

Um exemplo citado pelo executivo ilustra o potencial desse tipo de dado. Ele diz que um cliente descobriu que pessoas que praticam corrida tendem a ser mais adimplentes do que pessoas sedentárias. O problema era identificar quem pratica o esporte. “Eu falei para ele: mas eu sei, porque eu consigo olhar para dentro do ambiente transacional e perceber que aquela pessoa compra produtos vinculados à corrida”, contou Mônaco.

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Outro uso em desenvolvimento é a análise do contexto de relacionamento do consumidor. A lógica é que o risco de uma pessoa não pode ser avaliado de forma isolada, mas precisa levar em conta também com quem convive, como familiares e amigos próximos. Avaliar como essas pessoas se comportam financeiramente também importa.

“O risco das pessoas que estão próximas a você, cada vez mais olhando o comportamento geral, também discrimina o seu nível de risco”, disse o executivo. “A ideia de você olhar o contexto da pessoa vai ganhar cada vez mais força dentro do ecossistema de crédito”, afirmou.

No final do dia, na avaliação do executivo, isso tem permitido aos clientes fazerem uma avaliação de crédito mais assertiva e ser mais seletivo na concessão de um empréstimo, por exemplo.

Consumidores que antes talvez fossem recusados, agora podem ser aprovados com uma análise de informações mais extensas. Ou o cliente consegue identificar se está concedendo o produto de crédito correto com o limite mais adequado, exemplifica o executivo.

No momento em que o Brasil enfrenta números recordes de inadimplência, com mais de 82 milhões de pessoas com pagamentos em atraso, essas são capacidades cada vez mais demandadas no mercado de crédito.

“É natural que a seleção seja mais criteriosa. Ainda mais nesse cenário, a inteligência analítica, dados, qualificados, etc. ficam ainda mais relevantes. Porque não é sobre conceder ou não conceder. Mas como você escolhe melhor o produto certo, para a pessoa certa, com a qualidade correta das informações”, resume.

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