Bloomberg Línea — O Grupo OKEAN, único estaleiro no mundo com licença para produzir iates Ferretti fora da Itália, volta ao Rio Boat Show quase uma década depois com um iate de R$ 80 milhões.
A escolha do palco não é casual. Com os Estados Unidos na contramão, o Brasil virou prioridade para o setor.
O mercado americano respondia por 60% da receita de exportações em 2024, segundo a Acobar, associação dos estaleiros nacionais. Com tarifas que chegaram a 50% sobre produtos brasileiros em agosto, a entidade projetou queda de mais de 30% nos embarques.
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“Nos últimos dez meses a gente tem sofrido horrores”, disse Roberto Paião, CEO do grupo, em entrevista à Bloomberg Línea, referindo-se às tarifas americanas que pressionam as exportações náuticas brasileiras.
Em novembro parte das sobretaxas foi retirada e, em fevereiro, a Suprema Corte derrubou o regime tarifário anterior, mas iates seguem sujeitos à sobretaxa global de 10%, em vigor até julho de 2026.
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O grupo OKEAN, sediado no polo náutico catarinense de Itajaí, registrou crescimento de 60% no segmento de iates entre 70 e 100 pés desde meados de 2024, segundo o executivo.
“Temos 75%, 80% do mercado de embarcações acima de 80 pés no Brasil”, disse Paião, em referência aos megaiates, como o segmento náutico chama embarcações com comprimento acima de 24 metros.
No Rio Boat Show, que acontece deste sábado (11) ao dia 19 de abril na Marina da Glória, o grupo apresenta a Ferretti Yachts 1000, de 100 pés, mais de 30 metros, cinco suítes.
A maior embarcação em fibra produzida em série no país divide as águas da Baía de Guanabara com o Azimut Grande 25 Metri, de 84 pés, dois megaiates italianos no mesmo evento pela primeira vez.
Sanlorenzo e Sessa completam a delegação italiana. O grupo OKEAN leva ainda as linhas FY 550, FY 670, FY 720 e FY 850 e a OKEAN 57, formando o estande com a maior soma de pés do salão, que é aberto ao público pagante.
“A presença expandida de marcas italianas acompanha a maturidade do mercado brasileiro e o aumento do interesse por barcos acima de 60 pés”, disse Ernani Paciornik, fundador e CEO do Grupo Náutica, organizador do evento.
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“A Itália é o berço mundial da náutica. O Brasil tem tudo para se tornar um dos líderes globais do setor”, completou Paciornik.
A última edição registrou cerca de 300 embarcações comercializadas, mais de 30 mil visitantes e aproximadamente 100 barcos expostos. O evento já concentra 70% dos negócios do setor náutico nacional.
Confira trechos da entrevista do CEO da OKEAN, editada para fins de clareza e concisão.
Por que a OKEAN volta ao Rio Boat Show depois de quase uma década?
Quando nascemos, em 2015, já começamos a exportar para os EUA, que era nosso principal mercado. O mercado doméstico não era prioridade. Hoje o cenário mudou: nos últimos dez meses temos sofrido horrores [com as tarifas], e o Brasil se tornou estratégico. Não vamos ficar parado, estamos tentando remodelar. As estratégias precisam acompanhar o mundo.
A Azimut Brasil dominou o Rio Boat Show nos últimos anos. Como vocês encaram essa disputa?
Com respeito e com estratégia clara. Não competimos em volume, competimos em tamanho e qualidade. Temos 75%, 80% do mercado de embarcações acima de 80 pés no Brasil. São públicos e propostas diferentes.
O que o Brasil ainda não enxergou sobre esse setor?
Que isso não é indústria náutica, é economia do mar. O Brasil tem 8 mil quilômetros de costa. A Itália tem 800. Temos 10 vezes o potencial deles e exploramos uma fração. Cada barco na água é um hotel, é turismo, é comércio. Aqui ainda é uma economia oculta. Quem enxergar isso primeiro vai anunciar um crescimento econômico que ninguém está esperando.
O perfil do comprador mudou?
Muito. Hoje ele tem entre 35 e 45 anos e não quer o iate como troféu de carreira. Quer a experiência do mar, do navegar, do explorar: a aventura, a conexão com os amigos, a família. Com Starlink, o cara está no mar de segunda a sexta trabalhando normalmente.
A utilização, que era de quatro, cinco, seis semanas por ano, está dobrando. A pandemia abriu esse canal: as pessoas perceberam que dinheiro guardado não serve a ninguém.
O mercado de barcos seminovos de alto padrão canibaliza as vendas de novos?
Pelo contrário, potencializa. Para vender um barco novo, às vezes vendo três, quatro barcos usados na cadeia. Do novo vem o usado, do usado vem outro usado. As pessoas estão descobrindo o mar, e isso movimenta toda a cadeia. Vendo um de 100 pés, entra um de 70, que libera um de 60, que libera um de 40. É uma economia oculta crescendo.
Você veio da indústria automobilística. O que esse olhar mudou na forma de produzir barcos?
A indústria automotiva me deu obsessão por ciclo produtivo. Na náutica encontrei o taylorismo puro: mão na massa, artesanal. Hoje operamos em dois turnos de quase 18 horas e estudamos um terceiro. Mas nosso negócio não é robô: cada embarcação exige profissionais quase artistas. Investimos pesado em pessoas. Esse é o nosso maior diferencial.
O Grupo Náutica leva ao Rio Boat Show um barco a hidrogênio. O setor tem resposta para a agenda de propulsão limpa?
No Brasil ainda não é uma demanda real do cliente de luxo. Nos EUA sim. A regulação ambiental e as questões de carbono são fundamentais, e o Ferretti Group tem atenção especial sobre isso.
Em 2022 fizemos uma OKEAN de 57 pés com 60% da propulsão solar, fibra de mandioca e tecidos biodegradáveis. A partir daí começamos a medir o carbono dos fornecedores à produção.
O hidrogênio, a eletrificação é um caminho. Nossa madeira hoje é teca de reflorestamento. O Brasil vai seguir a tendência americana e europeia.
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