Bloomberg Línea — A Lojas Renner se prepara para acelerar sua expansão em 2026, com o plano de abrir entre 50 e 60 lojas, ante 34 no ano anterior, depois de apresentar um lucro recorde de R$ 1,5 bilhão em 2025.
A expansão é a mais ambiciosa dos últimos anos e, segundo o CEO, Fábio Adegas Faccio, ocorre depois que o grupo varejista identificou uma janela de oportunidade construída sobre infraestrutura dos anos anteriores.
“A empresa está ainda mais preparada para esses investimentos”, disse o CEO, em entrevista à Bloomberg Línea.
Segundo o executivo, os investimentos feitos entre 2021 e 2023 em tecnologia, dados e infraestrutura logística, quando boa parte do setor cortava gastos para quitar dívidas, agora produzem vantagem competitiva mensurável, o que permite a expansão mais acelerada.
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Para o CEO, esse diferencial competitivo ainda não está refletido no preço das ações. Os papéis da Renner (LREN3) encerraram a sexta-feira (20) negociadas a R$ 14,84, acumulando alta de 10,9% neste ano, mas abaixo do pico alcançado no ano passado (R$ 19,65).
Nesse sentido, o executivo defendeu o programa recompra de ações da empresa. “Um dos melhores investimentos é comprar as ações da Renner. E por isso nós fazemos isso também com o programa de recompra de ações”, disse Faccio.
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Sobre a expansão, o critério de aprovação de projetos de novas lojas exige retorno positivo sobre o capital investido e, segundo o CEO, há uma fila de projetos com esse perfil.
O plano inclui a abertura de 22 a 30 unidades sob a marca Renner, 23 a 25 da Youcom e 5 lojas da Camicado, em um orçamento proposto de R$ 1,05 bilhão, de acordo com a empresa.
Geograficamente, a expansão da Renner caminha para cidades médias onde a marca ainda não está presente. A Youcom, marca do grupo voltada ao público jovem, ainda opera com densidade muito abaixo da Renner nas grandes cidades, o que abre espaço próprio.
A Camicado, pela natureza da categoria, cresce de forma mais pontual. No exterior, a Renner é líder de moda no Uruguai e opera quatro lojas na Argentina, mercados mantidos, mas sem prioridade de expansão agora.
A chegada da Bershka, marca da Inditex, dona da Zara, ao Morumbi Shopping e a expansão da H&M no Sudeste não alteraram a estratégia.
“Todo player formal que vem para o país trabalhando em portos e jogando o jogo que todos jogam é uma boa concorrência”, disse o CEO.
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Faccio argumentou que a abertura de lojas âncoras atrai fluxo para o shopping e que a Renner tem convertido melhor nesses ambientes. No mesmo Morumbi, a Camicado reabre em ponto novo e a Renner retoma acesso direto ao fluxo do shopping com a expansão.
Outra frente de expansão é o canal digital. O segmento atingiu 14,4% das vendas no quarto trimestre de 2025, com crescimento de cerca de 10% do volume bruto de mercadoria (GMV) na comparação anual. Faccio situou esse número acima da penetração de concorrentes diretos, que estariam entre 5% e 6%.
A rentabilidade do e-commerce, segundo o CEO, já é próxima à do físico, resultado de anos de corte de custos de aquisição, logística e conversão.
“A experiência omnicanal [entre loja física e canal digital] que a gente tem é uma vantagem competitiva frente àqueles que são somente digitais”, disse Faccio.
Expansão da receita
Além da expansão de lojas, o CFO da Renner, Daniel Martins dos Santos, detalhou a equação para os próximos anos. O crescimento de receita deve vir por duas frentes: volume e preço médio.
O preço médio sobe não por reajuste direto, mas pela redução de remarcações e menor volume de estoque antigo, efeito colateral da logística mais eficiente.
“Uma parte é por eficiência de modelo, redução de estoque antigo, de remarcação, isso acaba aumentando o preço médio”, disse Santos.
A margem bruta da Renner atingiu 56,1% em 2025, ante 56,3% no período pré-pandemia. Perguntado sobre sobre quando a margem Ebitda voltaria ao nível pré-pandemia, o CFO não quis indicar um prazo.
“Não temos uma data, porque não colocamos uma data, mas o objetivo é claro”, afirmou Santos.
Para o CEO, Fábio Faccio, a equação dos próximos anos se traduz numa frase: “crescer a despesa menos do que cresce a venda”.
Sobre a Realize, a financeira do grupo, O CFO descartou a leitura de que o braço financeiro virou um passivo. Os indicadores de inadimplência da carteira estão próximos das mínimas históricas.
O CFO reconheceu que o endividamento das famílias voltou a crescer no final de 2025 e deve pressionar o primeiro semestre de 2026, mas afirmou que a seletividade acumulada na concessão desde a crise de crédito de 2022 e 2023 protege a carteira.
“Estamos confiantes de que todo esse cuidado que já tivemos no passado permite navegar sem nenhuma surpresa”, reforçou Santos.
Visão do sell side
O Santander manteve recomendação outperform (equivalente à compra) para LREN3 com preço-alvo de R$ 19,00 após o balanço do quarto trimestre.
Em relatório assinado por Eric Huang, Lucas Esteves e Vitor Fuziharo, o banco avaliou que o desempenho operacional ficou levemente acima do esperado, com a margem Ebitda do varejo superando o consenso em 94 pontos-base.
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A Realize ficou abaixo das estimativas por yield da carteira inferior ao projetado, mas os analistas concluíram que o resultado não representa risco de revisão baixista para o consenso. A posição de caixa líquido de R$ 1,5 bilhão foi destacada como suporte para a continuidade da política de retorno ao acionista.
O BB Investimentos foi mais longe e elevou o preço-alvo de LREN3 de R$ 19,00 para R$ 21,20, mantendo recomendação de Compra.
A analista Andréa Aznar, do BB Investimentos, associou a melhora de rentabilidade à estabilização do Centro de Distribuição de Cabreúva e projetou que o efeito deve continuar ao longo de 2026.
“Entendemos que a Lojas Renner segue com bons fundamentos e apresentando melhorias relevantes de rentabilidade, mesmo em um cenário macro mais avesso ao consumo”, escreveu Aznar.
O banco espera que um ambiente mais favorável ao consumo ganhe tração no segundo semestre, o que, combinado com a alavancagem operacional em curso, sustenta a tese de compra para o papel.
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