Bloomberg — A Raízen registrou baixas contábeis no valor total de R$ 11 bilhões num momento em que a dívida crescente representa um risco para a continuidade das operações da companhia.
Os encargos, que refletem itens como o ágio sobre a rentabilidade futura, sinalizam a urgência da empresa em captar novos recursos, dado que as negociações entre os seus principais acionistas, Shell e Cosan, se arrastam sem uma conclusão definitiva.
“Em termos de estrutura de capital, alcançamos um ponto de inflexão”, disse o CEO da companhia, Nelson Gomes, em teleconferência sobre resultados. “Todo o nosso plano de transformação operacional não tem sido suficiente para mitigar o desequilíbrio que temos na estrutura de capital da empresa.”
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A Raízen encerrou o ano passado com uma dívida líquida total de R$ 55,3 bilhões, um aumento de 43% em relação ao mesmo período do ano anterior. Isso elevou a alavancagem da empresa para o equivalente a 5,3 vezes o lucro antes de itens como juros e impostos, ante 3 vezes no ano anterior.
“O principal ponto negativo foi o fato de que os altos pagamentos de juros e a estrutura de capital desequilibrada aumentam o risco de continuidade operacional da empresa”, escreveram analistas do Citi, liderados por Gabriel Barra, em uma nota divulgada na sexta-feira.
O crescente endividamento de Raízen tem alarmado os investidores, e as negociações para obter financiamento se arrastam sem resultados, alimentando uma crescente liquidação dos títulos da empresa. No início desta semana, a classificação de crédito da Raízen foi cortada pela Fitch Ratings e S&P Global Ratings para “junk”.
Na teleconferência sobre os resultados, os executivos não forneceram detalhes sobre os planos de injeção de capital.
Gomes afirmou que a administração não pode “especular” sobre as possíveis estruturas. Ainda assim, em uma carta anexada ao comunicado de resultados, a Raízen declarou que os acionistas controladores “se comprometeram a contribuir com capital como parte de uma solução consensual, estrutural e definitiva”.
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Isso ajudou os bonds da Raízen a subirem nesta sexta-feira. Os títulos em dólar da empresa subiram em toda a curva, com papéis com vencimento em 2037 subindo 8,5 centavos de dólar, sendo negociados a 42,5 centavos de dólar, às 9h51 em Nova York.
“A teleconferência de resultados de hoje parece ter ajudado a aliviar algumas dessas preocupações com riscos de cauda, particularmente em relação à liquidez e à execução no curto prazo. Para que essa mudança seja sustentada, no entanto, o mercado precisará de maior visibilidade sobre os planos de desalavancagem e a resiliência do balanço”, disse Cesar Fernandez, sócio da Alpha Credit Advisors Ltd.
A velocidade da turbulência que envolve a Raízen alimentou preocupações sobre as dificuldades enfrentadas por outras empresas que captaram recursos nos mercados de dívida brasileiros.
A empresa precisa de entre R$ 25 e 30 bilhões, segundo uma pessoa familiarizada com as negociações ouvida pela Bloomberg News, que não quis ser identificada, pois as negociações são privadas.
A Raízen continuará trabalhando no próximo mês para reestruturar seu capital e não pretende entrar com pedido de recuperação judicial, disse a pessoa. A empresa já havia sinalizado a possibilidade de venda de ativos, o que poderia ser uma solução para sua situação, acrescentou a pessoa.
Questionado durante a teleconferência sobre a quantidade de caixa que a Raízen precisa, o diretor financeiro Lorival Nogueira Luz Jr. afirmou que a empresa busca um nível de alavancagem entre 2 e 2,5 vezes o Ebitda.
O prejuízo líquido da Raízen no terceiro trimestre aumentou para R$ 15,65 bilhões após a baixa contábil. Um ponto positivo foi sua unidade brasileira de distribuição de combustíveis, que reportou um Ebitda de R$ 1,6 bilhão, um aumento de 50% em relação ao ano anterior. Uma recente repressão policial ao crime organizado sufocou a concorrência de vendedores ilegais de combustíveis, favorecendo grandes empresas como a Raízen.
A Raízen, que já foi a principal empresa de biocombustíveis do Brasil, tem enfrentado dificuldades com dívidas após adquirir usinas de açúcar da Biosev, da Louis Dreyfus Holding BV, em 2021, e construir novas plantas para produzir etanol a partir de resíduos da cana-de-açúcar.
Desde que assumiu o cargo após uma reformulação da gestão no final de 2024, Gomes freou os investimentos e explorou maneiras de captar recursos. Na sexta-feira, ele afirmou que a Raízen já levantou até R$ 5 bilhões com a venda de ativos e continuará seu plano de desinvestimento.
Um próximo passo fundamental é a venda de uma refinaria e centenas de postos de gasolina na Argentina. Segundo Gomes, essa venda deve ocorrer antes do final de 2026. O negócio pode valer mais de US$ 1 bilhão, informou a Bloomberg News no início desta semana.
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