Pague Menos prioriza redução de dívida e segura expansão após turnaround, diz CFO

Rede vista como recuperação mais consistente do varejo farmacêutico fechou o 1º trimestre com lucro de R$ 55,6 milhões, quatro vezes o de 2025, e ação em alta de 67% em 12 meses, e pretende baixar o patamar da dívida líquida, disse Luiz Novais à Bloomberg Línea

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Bloomberg Línea — Há dois anos e meio, a Pague Menos (PGMN3) era uma rede endividada em mais de quatro vezes o próprio Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização), com lojas sobrando estoque de baixo giro e margem corroída. Hoje, é vista como a história de turnaround mais consistente do varejo farmacêutico brasileiro. A ação acumula alta de 67,28% em 12 meses.

O primeiro trimestre fechou com lucro líquido ajustado de R$ 55,6 milhões, quatro vezes o do ano anterior, e o sétimo balanço seguido com Ebitda crescendo acima de 30%. A margem bruta chegou a 29,5%, recorde para um primeiro trimestre desde 2021. A venda média por loja, de R$ 818 mil, encostou nas líderes do setor.

“Terminamos agora o primeiro trimestre com 1,9 vezes dívida líquida e Ebitda. Ainda não é o patamar que a companhia gostaria. Queremos ficar mais próximo de 1,0 vez”, afirmou o CFO Luiz Novais à Bloomberg Línea.

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“No ano passado, no primeiro trimestre, a companhia estava com 2,8 vezes. Mas pretendemos ainda diminuir”, completou.

Os números vieram acima do consenso de mercado, e tanto BTG Pactual quanto Santander mantiveram recomendação de compra, com preço-alvo de R$ 9,00 e R$ 8,00, respectivamente, contra os R$ 5,39 do fechamento.

O Santander destacou em relatório que o resultado “reforça consistente execução e crescimento forte puxado por volume”, com vendas mesmas lojas, métrica que mede o desempenho de unidades abertas há mais de um ano, em alta de 13%, três vezes a inflação do período.

O BTG foi na mesma linha, classificando o trimestre como “mais uma receita saudável de crescimento e margem”, e elogiou o ganho de 14 pontos-base de market share, para 6,7%.

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Mas os relatórios não foram só notas positivas. O Santander apontou que o ciclo de caixa operacional se alongou para 72 dias, seis a mais que um ano antes, e que o fluxo de caixa operacional foi negativo em R$ 63 milhões, pressionado por estoques mais altos para abastecer o novo centro de distribuição na Paraíba e sustentar a categoria de GLP-1.

O BTG também marcou o ponto: “fluxo de caixa livre desapontou”, escreveu o banco, ainda que tenha ressaltado a sazonalidade do trimestre.

Novais reconheceu, mas deslocou o foco para o ano cheio. “A gente gerou no ano passado 52% do nosso Ebitda em caixa. Deu mais ou menos uns R$ 550 milhões. E estamos, sim, muito focados em reduzir dívida.”

A despesa financeira, de R$ 112 milhões no trimestre, ainda consome boa parte do lucro operacional. Os créditos tributários no balanço somam R$ 936 milhões, dinheiro que a empresa tem direito a receber do governo, mas que ainda não virou caixa.

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“Mesmo com uma despesa financeira relevante, a gente conseguiu gerar um lucro líquido no final de 280 milhões de reais no ano passado”, disse o CFO.

“Nesse ano, com a contínua redução no nível de endividamento associada à queda de juros, mesmo modesta, a perspectiva tanto de conversão de Ebitda em caixa quanto de lucro líquido é maior”, observou o CFO.

Há ainda o desconforto da produtividade. O JP Morgan apontou que a venda média mensal por loja, na casa dos R$ 800 mil, está praticamente empatada com as maiores redes do país, atrás apenas da RaiaDrogasil. A pergunta inevitável: como crescer a partir desse teto?

“Tem bastante espaço ainda pra crescer”, rebateu Novais.

“Muitas das ações que a companhia fez nos dois últimos anos a gente ainda não capturou todos os benefícios. Nosso canal digital hoje representa 22% da venda total. Tem players do nosso setor que já estão mais próximos de 30%. Então, também temos espaço aqui pra melhorar”, reforçou o CFO.

Outra alavanca, segundo ele, é logística. “A gente inaugurou neste mês de março um centro de distribuição novo na Paraíba, mas ainda tem praças no Brasil em que a gente não entrega todos os dias os produtos nas nossas lojas. O ideal seria que 100% das nossas lojas fossem abastecidas todos os dias”, reconheceu.

A consequência prática do foco em desalavancagem aparece no ritmo de aberturas. Apenas uma loja inaugurada no trimestre, contra 30 em todo 2025. “É um ano de expansão modesta”, admitiu o CFO. A nova rodada fica para 2027.

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