Bloomberg Línea — Diante dos juros ainda elevados e as incertezas no Brasil e no mundo, a Movida tem adotado uma estratégia focada na expansão da base de clientes, mas sem abrir mão da rentabilidade.
Segundo o CEO, Gustavo Moscatelli, o plano da locadora de veículos inclui iniciativas para aprimorar a experiência em seus pontos de venda, em um movimento para aumentar a fidelização e expandir a oferta de serviços.
Nesse ambiente, o executivo avalia que a companhia deve crescer este ano, mas não em frota de veículos.
“Queremos expandir a nossa base de clientes, mas não a qualquer custo”, disse ele, em entrevista recente à Bloomberg Línea. Segundo ele, a empresa registrou neste ano o melhor mês de janeiro de sua história.
Leia mais: Sem contato humano: Localiza reduz filas e acelera ganho de escala com digitalização
No consolidado de 2025, a Movida (MOVI3) conquistou 675.000 novos clientes (que nunca tinham usado o serviço da marca). Somando os consumidores que já utilizaram o serviço (recorrência), a companhia obteve um crescimento de 13% de sua base de clientes no ano passado, atingindo 1,33 milhão de aluguéis.
“Isso [a expansão da base clientes] tem trazido mais rentabilidade, uma vez que conseguimos precificar melhor. O mercado de locação não cresceu, mas nós ganhamos market share”, diz Moscatelli.
Segundo relatório do UBS de janeiro, apenas a Movida ganhou participação de mercado em volumes no ano passado.
Loja na área de embarque
A estratégia para crescer tem foco na maximização dos investimentos e na melhoria da experiência do cliente. O executivo relata que um exemplo importante disso é a inauguração da primeira loja de aluguel de carros do país dentro da área de embarque de um aeroporto - hoje a maior parte das locadoras está instaladas no desembarque dos terminais aeroportuários, segundo Moscatelli.
O novo modelo de atendimento foi inaugurado no terminal de Brasília. “Com uma loja na área de embarque, poderemos atender o cliente quando ele está com mais tempo e menos cansado da viagem”, explica o CEO.
Além disso, a companhia está investindo em totens de atendimento dentro das lojas para os clientes que querem fazer a contratação do aluguel de forma rápida.
Outra solução implementada nas lojas foi a distribuição de senhas digitais para os clientes, ao invés de filas físicas.
Moscatelli conta que, assim, não só o cliente aguarda com mais conforto pelo atendimento, sentado, como o headquarter da Movida tem controle, em tempo real, do número de clientes na fila para serem atendidos. A tecnologia permite inclusive o monitoramento do tempo de demora no atendimento.
Estratégia de seminovos
Atualmente, a Movida possui cerca de 260 lojas de aluguel e 100 unidades de vendas de carros seminovos. Para 2026, o plano é abrir entre 10 e 20 lojas de locação e pouco mais de 25 de seminovos.
A principal novidade na área, segundo Moscatelli, é a inauguração de lojas nos chamados autoshoppings, que oferecem grandes estruturas com múltiplos lojistas, bem como a conveniência de serviços de financiamento, vistoria e despachante, por exemplo.
Moscatelli relata que o custo para abrir uma loja deste modelo é bem mais baixo do que uma unidade padrão da Movida, que tem, entre outros atrativos, espaços para crianças e pets, além de outras comodidades.
No auto hopping, a companhia ainda pode vender aqueles carros que têm mais quilometragem e que acabam ficando fora do padrão do varejo, sendo vendidos para grandes lojistas (atacado), mas com margens menores.
Verticalização
Outra aposta da Movida para aumentar a eficiência operacional está na abertura de unidades de serviços de manutenção rápida para a frota alugada, chamadas de “Pit Stop”.
Moscatelli afirma que um grande desafio para qualquer locadora é quando o cliente da locação tem algum problema no carro, se vendo obrigado a procurar uma oficina autorizada (terceirizada) mais próxima.
“Essas oficinas não têm o mesmo nível e estrutura das nossas lojas de carros”, diz. A Movida mapeou os locais com mais demanda por manutenção e iniciou um processo de abertura de unidades Pit Stop para verticalizar esse serviço dentro do grupo.
Seis unidades foram inauguradas e outras 23 serão abertas até o final do primeiro semestre, todas dentro de shopping centers ou supermercados.
“O conceito envolve ter serviço disponível para o cliente enquanto ele espera pela manutenção do carro, que dura até uma hora”, diz.
Segundo Moscatelli, a redução total de custo da manutenção feita dentro da oficina da Movida em comparação a de terceiros é de 19%. “Também atingimos um nível de satisfação de 90% do cliente, mesmo em uma situação de carro ‘quebrado’”, afirma.
Gestão de dívidas
No último dia 5 de fevereiro, a Movida anunciou captações no montante total de R$ 3,5 bilhões, o que permitiu à companhia fazer frente aos vencimentos previstos em balanço de 2026.
O pacote incluiu a participação do IFC (International Finance Corporation), braço do Banco Mundial, no valor de US$ 235 milhões (cerca de R$ 1,3 bilhão).
De acordo com Moscatelli, o pacote de financiamentos visa melhorar o perfil da dívida, além de reduzir o custo médio e aumentar o prazo médio.
Para 2026, ele espera mais ocupação da frota com maior retorno. “Vamos crescer este ano, mas não com aumento da frota. Temos muitas novidades para implementar, estamos no melhor momento da companhia”, diz.
Leia também:
Movida levanta R$ 3,5 bilhões em financiamentos com foco na gestão de dívida
Império das concessionárias: Automob vê oportunidades para consolidação, diz CEO
Esta fornecedora brasileira automotiva disputa com marcas globais e agora vai aos EUA