Bloomberg Línea — Dois anos depois de apresentar seu plano de turnaround, o Bradesco voltou a entregar um resultado acima das expectativas dos analistas no quarto trimestre de 2025.
Ainda assim, o mantra de um plano de recuperação gradual - “step by step” - executado pelo CEO Marcelo Noronha foi questionado por analistas e investidores, que esperam por uma aceleração a partir deste ano.
A principal decepção veio com as projeções para 2026, classificadas como conservadoras. O lucro líquido estimado a partir do guidance aponta para um resultado de R$ 27,5 bilhões – abaixo da faixa de R$ 30 bilhões esperada para o acumulado deste ano.
“O mercado cobra mais que chefes e conselho [de administração]. Eles entenderam a estratégia, mas querem mais”, afirmou Noronha a jornalistas nesta sexta-feira (6) ao comentar os resultados do banco.
O plano de recuperação do Bradesco foi planejado para durar cinco anos, com conclusão até 2028.
Um dos grandes desafios é a recuperação do retorno sobre o patrimônio líquido médio (ROAE), principal indicador de rentabilidade do banco, que chegou a “afundar” para 6,9% em 2023 após uma estratégia que se mostrou equivocada de concessão de crédito no pós-pandemia. A título de comparação, o ROE buscado pelos concorrentes ronda ou até supera a casa de 20%.
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O turnaround dos últimos dois anos elevou o ROE do Bradesco, que alcançou um indicador de 15,2% no quarto trimestre de 2025.
Foi a primeira vez que o ROE alcançou um patamar acima do custo de capital desde o início do plano de retomada no começo de 2024, pouco depois que Noronha assumiu como CEO em novembro de 2023, em substituição a Octavio de Lazari.
Noronha defendeu que o plano exige um nível ainda elevado de investimentos, especialmente em tecnologia, e que o Bradesco não vai alterar essa estratégia para ganhar competitividade no mercado no curto prazo.
“Não vamos mudar o que estamos fazendo [por causa do mercado]”, disse o CEO.
Noronha também refutou a tese que 2026 seria um ano de acomodação dentro da estratégia de retomada.
“Devemos ter um pouco mais de volatilidade no segundo semestre devido ao cenário eleitoral, mas vejo muita oportunidade de crescer”, afirmou.
O segundo maior banco privado do país estima um crescimento de receitas ancorado, entre outros pontos, no avanço do crédito.
A expectativa é crescer a carteira em 9,5%, no ponto médio do guidance, mas abaixo dos 11% de expansão registrada em 2025.
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Ainda assim, o guidance fica acima do intervalo esperado pelo Itaú, que estimou uma faixa de crescimento entre 5,5% e 9,5% para a carteira de crédito.
Entre as alavancas do crédito, Noronha destacou o segmento de pequenas e médias empresas, em que há o maior apetite para crescimento junto com ganho de participação de mercado.
O Bradesco é líder no segmento, com uma fatia de mercado de 16,1%, com ganho de 2,3 pontos percentuais em participação desde o final de 2023.
Na alta renda, o foco é aprofundar mais o relacionamento mais do que ampliar a base de clientes.
Ainda assim, é esperado um crescimento na base, o que inclui o segmento Principal, lançado em outubro de 2024 para atender clientes com renda superior a R$ 25.000 e investimentos a partir de R$ 300 mil.
O banco encerrou o ano de 2025 com 320 mil clientes no Principal e pretende crescer a base em 150%, para 800 mil ao fim de 2026.
Após a divulgação dos resultados, os ADRs do Bradesco chegaram a cair 5% no after market na quinta-feira.
As ações preferenciais (BBDC4) operavam em queda de 3,2% por volta das 14h30, em momento em que o Ibovespa subia 0,35%.
“A ação tem que ser ajustada em 5%? Não tem problema. Estou super confiante na nossa organização”, acrescentou Noronha a analistas.
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