Bloomberg — O CEO da Glencore, Gary Nagle, chamou a potencial fusão entre a mineradora anglo-suíça e a concorrente australiana Rio Tinto de “escolha de negócio mais óbvia” do setor da mineração.
Seu antecessor e mentor, Ivan Glasenberg, vem tentando realizá-lo há quase duas décadas. No entanto, a fusão da vinha se mostrado difícil - pelo menos até agora.
Pessoas familiarizadas com o assunto disseram à Bloomberg News que a atual rodada de negociações para criar a maior mineradora do mundo, que as duas empresas confirmaram na noite de quinta-feira (8), é a mais séria que já houve, embora enfatizem que ainda estão em um estágio inicial.
No centro da mudança está uma preocupação dentro da Rio Tinto de que seu portfólio de minério de ferro pesado possa ser deixado para trás à medida que o frenesi de fusões e aquisições de cobre varre o setor, bem como uma configuração de personalidades em ambos os lados que são mais capazes de chegar a um acordo.
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Quando o acordo foi discutido seriamente pela última vez, no final de 2024, as negociações fracassaram devido à falta de disposição da australiana em pagar um grande prêmio, bem como às diferenças nas culturas promovidas pelo então CEO da Rio Tinto e pela liderança da Glencore. Na época, a Glencore pressionou para que Nagle dirigisse a empresa combinada.
Agora a Rio Tinto tem um novo chefe e ambos os lados parecem mais dispostos a se comprometer. A mineradora australiana pode, em última instância, considerar o pagamento de um prêmio de aquisição, disseram algumas das pessoas.
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Já outras sugeriram que o lado da Glencore está aberto a ser pragmático na questão da administração - reconhecendo que uma empresa maior que pagasse um prêmio de aquisição provavelmente tentaria instalar sua liderança na nova empresa.
Além disso, uma mudança na atitude dos investidores em relação à mineração de carvão significa que a Rio Tinto poderia comprar a Glencore diretamente com menos medo de reações adversas.
A Bloomberg News informou anteriormente que a Rio Tinto estava aberta a manter o vasto negócio de carvão da Glencore.
Ainda assim, as negociações estão em um estágio muito inicial e as pessoas advertiram que os dois lados ainda estão longe de chegar a um acordo.
Mesmo que consigam, qualquer combinação seria altamente complexa e exigiria a aprovação de vários órgãos reguladores em um momento de maior escrutínio dos recursos naturais por parte do governo.
“Parece que os dois lados querem um acordo”, disse George Cheveley, gerente de portfólio da gestora de ativos Ninety One, que possui ações da mineradora anglo-suíça.
“A Glencore tem muitos projetos de cobre brownfield e greenfield e a Rio não tem, mas a Rio tem a experiência para construí-los e administrá-los.”
Representantes da Rio e da Glencore não quiseram comentar.
Tentativas anteriores
Nas negociações de 2024, a Glencore havia solicitado uma proporção de fusão que deixaria seus acionistas com cerca de 40% da empresa combinada, de acordo com várias pessoas.
Se o mesmo nível permanecesse como referência para as negociações da Glencore, isso representaria um prêmio de pouco mais de 25% em relação aos preços das ações das duas empresas.
Duas pessoas familiarizadas com o pensamento da Rio Tinto disseram que ela pode estar disposta a considerar o pagamento de um prêmio de aquisição, embora outras pessoas tenham advertido que ainda é muito cedo no processo para avaliar.
A ideia de uma combinação das duas empresas foi discutida várias vezes ao longo de mais de uma década. Ela foi lançada pela primeira vez antes da crise financeira global de 2008 e depois reavivada em 2014 - quando a Rio Tinto rejeitou rapidamente uma abordagem informal da Glencore - antes que as conversas fossem retomadas com seriedade em 2024.
Embora essas conversas tenham terminado sem um acordo, a ideia de combinar as duas empresas nunca desapareceu. A Bloomberg News informou em setembro passado que a Glencore continuou a trabalhar nos bastidores com seus banqueiros sobre os contornos de um possível acordo.
Dessa vez, foi a Rio Tinto que reiniciou as conversas mais recentes, de acordo com algumas das pessoas.
A mineradora havia passado por uma mudança importante desde o fracasso das discussões sobre 2024: tinha um novo CEO.
Jakob Stausholm, um dinamarquês sóbrio, sem experiência no mundo da mineração, foi convidado pelo conselho a deixar o cargo, e seu substituto, Simon Trott, executivo de longa data da Rio Tinto, foi anunciado em julho.
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Cobre nos holofotes
Para a companhia, o argumento fundamental para a compra da Glencore se resume ao cobre. Embora a mineradora seja uma participante importante em mercados que vão do alumínio e do cobre ao lítio, o minério de ferro ainda é responsável por mais da metade de seus lucros em seu relatório financeiro mais recente.
A perspectiva de médio prazo para o minério de ferro é pessimista, com o esfriamento do mercado imobiliário chinês minando a demanda, enquanto o novo e enorme projeto da Rio na Guiné está pronto para inundar o mercado com oferta.
O cobre, por sua vez, há muito tempo é o metal mais cobiçado pelos executivos de mineração, que veem um futuro brilhante para o metal, já que a tendência de eletrificação sobrecarrega a demanda.
A Rio Tinto tem uma relativa escassez de perspectivas de desenvolvimento de cobre à medida que sua vasta mina Oyu Tolgoi, na Mongólia, atinge sua capacidade.
A Glencore, por outro lado, passou um dia de investidor no mês passado destacando sua gama de opções de desenvolvimento de cobre na Argentina, Peru e República Democrática do Congo.
O acordo de fusão firmado entre a Anglo American e a Teck Resources em setembro e o recente aumento nos preços do cobre para níveis recordes acima de US$ 13.000 por tonelada apenas aumentaram a pressão sobre a Rio Tinto para agir.
Os executivos da empresa reconheceram que sua própria dependência relativa em relação ao minério de ferro, juntamente com os planos de crescimento da Glencore, se for capaz de realizá-los, significava que esperar provavelmente só tornaria o negócio mais caro, de acordo com algumas pessoas.
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Desafios do acordo
Ainda há muitas complexidades a serem superadas, mesmo que as duas empresas consigam chegar a um acordo sobre os termos.
O negócio de carvão da Glencore ainda é problemático para alguns grandes acionistas da Rio Tinto devido a preocupações com a sustentabilidade.
E outras partes de seu negócio - desde sua unidade de comércio, que em 2022 admitiu uma corrupção histórica generalizada, até seus ativos em países como o Congo e o Cazaquistão - podem se mostrar pouco atraentes para alguns.
É provável que a estrutura da transação também seja complicada pela dupla listagem da Rio no Reino Unido e na Austrália, enquanto um acordo bem-sucedido seria examinado por órgãos reguladores antitruste em todos os lugares, da China ao Canadá.
Ainda assim, em conversa com a Bloomberg News na sexta-feira (9), grandes acionistas de ambas as empresas se mostraram timidamente favoráveis a um possível acordo.
“Não estamos pressionando por um acordo, mas estamos abertos a toda e qualquer opção que crie e destaque valor para os acionistas da Glencore”, disse Justin Hance, sócio da Harris Associates, com sede em Chicago, que é o 11º maior acionista da Glencore, de acordo com dados da Bloomberg.
“A atratividade de qualquer negócio dependeria não apenas da proporção de acionistas, mas também da estrutura, dos termos e dos detalhes mais finos da transação.”
-- Com a colaboração de Paul-Alain Hunt.
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