Lucro da BYD cai mais do que o esperado com concorrência acirrada na China

Avanço de competidores no mercado doméstico e maior pressão regulatória de Pequim pesaram sobre o resultado da montadora no quatro trimestre; lucro líquido do período recuou 38%, para 9,3 bilhões de yuans (US$ 1,3 bilhão)

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Bloomberg — O lucro da BYD caiu mais do que o esperado por analistas, à medida que a concorrência intensa e a regulação mais rígida na China aumentaram a pressão sobre a maior fabricante de veículos elétricos do mundo para retomar o ritmo de crescimento.

O lucro líquido do quarto trimestre recuou 38%, para 9,3 bilhões de yuans (US$ 1,3 bilhão), enquanto a receita caiu cerca de 14%, para 237,7 bilhões de yuans, segundo números derivados dos resultados anuais divulgados nesta sexta-feira (27).

Tanto o lucro quanto as vendas ficaram abaixo das estimativas médias de analistas compiladas pela Bloomberg.

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Os números encerram um ano difícil para o presidente do conselho Wang Chuanfu, à medida que descontos agressivos, que elevaram as entregas o suficiente para a BYD vender mais que a Tesla, cobraram seu preço.

A empresa registrou a primeira queda anual de lucro em quatro anos e o menor crescimento de receita em seis.

A ascensão da montadora ao domínio global enfrenta agora um teste de realidade, com a desaceleração das vendas domésticas forçando a empresa a gastar pesado para acompanhar modelos cada vez mais focados em tecnologia lançados por concorrentes como a recém-chegada Xiaomi.

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A concorrência “atingiu um nível febril e entrou em uma brutal ‘fase eliminatória’”, escreveu Wang em sua carta anual aos acionistas. “O cenário global evoluiu em ritmo acelerado, e a transformação centenária da indústria automotiva mundial entrou em uma fase crítica.”

Este é o terceiro trimestre consecutivo em que o lucro da BYD fica abaixo das estimativas, segundo dados compilados pela Bloomberg.

Foco no exterior

O início de ano também não foi animador. As vendas caíram nos dois primeiros meses, e, após dominar o mercado chinês por anos, a BYD perdeu a liderança para a Geely Automobile Holdings.

Isso tem levado a BYD a olhar cada vez mais para o exterior, onde a demanda por seus modelos cresce e a montadora obtém maior lucro por veículo vendido.

As exportações têm se mantido firmes até agora em 2026, em contraste com a queda nas vendas domésticas, e a BYD pretende vender 1,3 milhão de carros fora da China neste ano.

Ainda assim, trata-se de um esforço caro e de alto risco para a marca, que investe pesadamente na construção de fábricas no exterior para contornar tarifas e outras barreiras comerciais.

Além da concorrência crescente, parte das dificuldades da BYD foi causada pela própria empresa.

Alguns consumidores chineses recorreram às redes sociais para reclamar do God’s Eye, sistema avançado projetado para detectar perigos na estrada e praticamente permitir que o carro dirija sozinho.

Em meio a grande expectativa, a BYD anunciou no ano passado que o God’s Eye deixaria de ser exclusivo dos modelos premium e passaria a ser item padrão em toda a linha — até mesmo em hatchbacks mais baratos.

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A iniciativa buscava consolidar a liderança da BYD no maior mercado automotivo do mundo ao oferecer tecnologia avançada que rivais cobram como opcional, sem custo adicional.

Mas os problemas enfrentados com o God’s Eye evidenciaram os limites de parte da tecnologia da empresa e mostram um possível risco de adicionar sistemas avançados antes que todos os ajustes estejam concluídos.

Em meio às críticas por ficar atrás de rivais mais focados em software, como a Huawei e a Xiaomi, a BYD dá sinais de apostar de forma mais pragmática em soluções para a autonomia das baterias, em vez de recursos chamativos de direção inteligente.

No início deste mês, a empresa apresentou a nova geração das chamadas “blade batteries” e uma arquitetura de recarga ultrarrápida capaz de elevar a carga das novas baterias de 10% para 70% em cinco minutos e deixá-las quase totalmente carregadas em nove minutos.

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Ainda assim, as ações da BYD caminham para o melhor mês em mais de um ano, já que a disparada do petróleo em decorrência da guerra com o Irã melhora as perspectivas de vendas de veículos elétricos.

Os papéis listados em Hong Kong sobem quase 12% em março, entre os melhores desempenhos do Hang Seng Tech Index, ao lado de concorrentes do setor como Nio e Zhejiang Leapmotor Technologies.

O setor vinha em queda nos últimos meses diante de preocupações com demanda fraca e forte competição de preços na China.

Os investidores aguardavam as projeções da BYD para o ano atual e as chances de uma recuperação liderada pelas exportações.

Embora as montadoras ainda não tenham divulgado os números de vendas de março, o primeiro mês completo desde o início do conflito no Golfo Pérsico, sinais iniciais indicam que a BYD e outras fabricantes chinesas de veículos elétricos se beneficiam da alta do petróleo.

Mas manter esse aumento no interesse dos consumidores por veículos elétricos exigirá investimentos maciços em infraestrutura para reduzir o déficit atual de estações de recarga, segundo a analista Joanna Chen, da Bloomberg Intelligence.

Mesmo antes do choque do petróleo provocado pela guerra com o Irã, a penetração de veículos elétricos já avançava pela Ásia — com exceções notáveis, como o Japão.

Na China, veículos elétricos e híbridos plug-in representam mais da metade das vendas de automóveis, graças ao incentivo do governo ao crescimento de uma indústria doméstica baseada em energia alternativa.

Países do Sudeste Asiático apresentam taxas de adoção próximas de 40%, superiores às do Reino Unido e da Europa e entre as mais favoráveis à eletrificação no mundo, segundo o think tank britânico Ember.

A China deve concentrar a maior parte dos ganhos de um aumento global na demanda por veículos elétricos como maior produtora mundial.

As exportações de carros elétricos e híbridos plug-in nos dois primeiros meses do ano — antes do início da guerra — já haviam mais que dobrado em relação ao ano anterior, segundo dados da China Association of Automobile Manufacturers.

Em 2025, porém, o lucro da BYD caiu 19%, para 32,6 bilhões de yuans, enquanto a receita avançou 3,5%, para 804 bilhões de yuans. A margem bruta, indicador acompanhado de perto, recuou para o menor nível em três anos, de 17,7%, ante 19,4% em 2024.

-- Com colaboração de Charlotte Yang.

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