Lilly aposta US$ 3,8 bi em medicamentos psicodélicos e reforça frente de neurociência

Empresa concordou em adquirir a AtaiBeckley no momento em que o campo tem sido impulsionado por sucesso da Johnson & Johnson, resultados promissores em ensaios clínicos e pelo apoio do governo Trump. Analistas da Bloomberg Intelligence afirmam que o mercado de tratamentos psicodélicos poderá atingir US$ 7 bilhões em vendas até 2032

Por

Bloomberg — A Eli Lilly concordou em adquirir a AtaiBeckley por um valor de até US$ 3,8 bilhões, o que ressalta o crescente interesse das grandes empresas farmacêuticas pela área da medicina psicodélica, antes considerada marginal.

A Lilly pagará US$ 6,75 por ação em dinheiro, além de até US$ 2,50 adicionais por ação caso sejam atingidas metas específicas no desenvolvimento de medicamentos, de acordo com comunicado divulgado nesta quinta-feira.

O preço base está 26% acima do valor de fechamento das ações da AtaiBeckley na quarta-feira (15). O anúncio confirma uma reportagem da Bloomberg News de que as empresas estavam prestes a fechar um acordo.

As ações da AtaiBeckley, com sede em Nova York, mais que dobraram de valor no último ano até o fechamento da quarta-feira. Elas subiram 32% às 9h35 desta quinta-feira. As ações da Lilly caíram 0,9%.

A Bloomberg News havia informado anteriormente que a AtaiBeckley estava explorando opções de venda ou parceria para seu medicamento principal, conhecido como BPL-003. O medicamento é um spray nasal de ação rápida para o tratamento da depressão resistente à terapia.

O acordo consolida a presença de longa data da Lilly na neurociência, área em que a empresa ajudou a transformar o tratamento da depressão com o Prozac há três décadas.

Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.

Embora a farmacêutica sediada em Indianápolis seja hoje mais conhecida por seus medicamentos de grande sucesso para obesidade e diabetes, ela continua a investir em neurociência, incluindo tratamentos para a doença de Alzheimer e analgésicos não viciantes.

A Lilly vem de olho no setor de psicodélicos há algum tempo, segundo pessoas familiarizadas com a estratégia da empresa que solicitaram anonimato ao discutir assuntos não públicos.

O acordo ocorre em um momento crucial para a medicina psicodélica. Após anos à margem do desenvolvimento de medicamentos, o campo tem sido impulsionado pelo sucesso do Spravato, da Johnson & Johnson, por resultados promissores em ensaios clínicos e pelo recente apoio do governo Trump. Analistas da Bloomberg Intelligence afirmam que o mercado de tratamentos psicodélicos poderá atingir US$ 7 bilhões em vendas até 2032.

Leia também: Trump flexibiliza restrições a drogas psicodélicas para tratamentos e pesquisas

Nova Era

A AtaiBeckley é uma das várias empresas preparadas para inaugurar essa nova era. Além da depressão resistente ao tratamento, a empresa, fundada pelo empresário alemão Christian Angermayer e apoiada pelo bilionário Peter Thiel, está desenvolvendo medicamentos para o transtorno de ansiedade social.

Em estudos de fase intermediária, os pacientes que tomaram o medicamento principal da AtaiBeckley apresentaram melhorias significativas nos sintomas depressivos em apenas dois dias após uma única dose, com benefícios que duraram até oito semanas. O medicamento recebeu a designação de “Terapia Inovadora” da Administração de Alimentos e Medicamentos dos EUA (FDA).

Médicos e a própria empresa afirmam que um dos principais benefícios do BPL-003 é o tempo de tratamento mais curto. A experiência psicodélica provocada pelo medicamento dura aproximadamente uma a duas horas, enquanto um composto concorrente da Compass Pathways pode exigir monitoramento do paciente por até oito horas. A GH Research está desenvolvendo um tratamento semelhante.

Leia também: De psicodélicos a ‘ilhas de energia’: as startups apoiadas por Sergey Brin

“Queríamos realmente algo que fosse fácil de usar tanto para o paciente quanto para o médico”, afirmou Srinivas Rao, diretor executivo da AtaiBeckley, em uma entrevista recente no escritório da Bloomberg em Nova York. “Algo que se encaixasse perfeitamente no paradigma do Spravato.”

Outras empresas que trabalham com psicodélicos incluem a Definium Therapeutics, que está estudando um tratamento promissor à base de LSD para o transtorno depressivo maior, e a AbbVie.

A Definium Therapeutics subiu 4,2% no início das negociações desta quinta-feira, após o anúncio da Lilly, enquanto outras empresas envolvidas com psicodélicos também registraram ganhos. A Compass subiu 2,9%, a Cybin avançou 8,7% e a GH Research registrou alta de 8,4%.

O Goldman Sachs Group assessorou a Lilly na transação, enquanto a AtaiBeckley trabalhou com a Moelis e a Centerview Partners. O Citigroup assessorou o conselho da AtaiBeckley.

O pagamento inicial em dinheiro na aquisição totaliza cerca de US$ 2,8 bilhões, e os acionistas da AtaiBeckley receberão mais aproximadamente US$ 1 bilhão caso todas as metas sejam atingidas, de acordo com o comunicado.

Angermayer, em uma postagem no X, afirmou que, quando começou a cogitar a possibilidade de trazer os psicodélicos de volta à medicina convencional em 2014, “isso era amplamente visto como uma ideia maluca, praticamente sem chances de sucesso. Hoje, a medicina psicodélica parece quase inevitável. Naquela época, era tudo menos isso.”

Veja mais em bloomberg.com