Bloomberg — As ações da Intel (INTC) despencaram cerca de 17% depois que o CEO, Lip-Bu Tan, apresentou um guidance (projeção) pouco animador e alertou que a fabricante de chips enfrenta dificuldades na área de manufatura.
As estimativas para receita e lucro do primeiro trimestre ficaram bem abaixo das expectativas de Wall Street. Além disso, uma teleconferência com analistas, na qual Tan afirmou que será necessário “tempo e determinação” para reverter a situação da empresa, pressionou ainda mais os papéis.
Problemas de produção têm prejudicado a tentativa de recuperação, frustrando investidores que esperavam um impulso maior com novos produtos.
“Estamos em uma jornada de vários anos”, disse o CEO.
Leia também: CEO da Intel mira voltar ao topo com foco em IA. Mas investidores cobram resultados
A Intel, maior fabricante de processadores para computadores pessoais, sofre com baixos rendimentos de produção — a porcentagem de chips utilizáveis que saem de suas fábricas. Isso tem dificultado o atendimento de pedidos.
A empresa, que já dominou o setor de semicondutores, tenta há anos recuperar sua vantagem tecnológica e se reerguer após perder participação de mercado, e este é mais um revés.
A demanda é “bastante forte”, e a companhia trabalha intensamente para resolver os problemas de manufatura, disse Tan em entrevista. No entanto, a Intel consumiu grande parte de seus estoques no quarto trimestre, acrescentou.
“Nosso rendimento e nossa produção não estão no nível que eu considero adequado”, afirmou Tan. “Precisamos melhorar isso.”
As ações da Intel chegaram a cair para US$ 44,84 na sexta-feira (23), registrando a pior queda intradiária desde agosto de 2024. O papel havia fechado a US$ 54,32 na quinta-feira, antes da divulgação dos resultados, e acumulava alta de cerca de 152% nos últimos 12 meses.
A empresa não terá oferta adicional — especialmente de chips lucrativos para servidores — até o fim do primeiro trimestre, disse o diretor financeiro, Dave Zinsner, na teleconferência com analistas. A Intel esgotou seus estoques, e fabricar mais produtos levará vários meses, explicou. A oferta aumentará a cada trimestre deste ano, segundo Zinsner.
Leia também: Como o aporte de US$ 5 bi da Nvidia na Intel ajuda a moldar o jogo de forças do setor
Os gastos com novas fábricas e equipamentos em 2026 serão semelhantes aos do ano passado, marcando uma mudança em relação aos esforços recentes da Intel para cortar despesas. No entanto, qualquer aumento de produção decorrente de novas máquinas só deve ocorrer em 2027, disse ele.
Outro desafio: embora a demanda por chips para servidores seja sólida, a empresa não pode direcionar a produção de forma muito agressiva para esse mercado sem prejudicar seus clientes de PCs, afirmou Zinsner.
Há também preocupação de que preços mais altos de chips de memória se traduzam em laptops mais caros e demanda mais fraca, disse Tan.
A Intel vinha surfando uma onda de entusiasmo em Wall Street. Investidores aportaram recursos nas ações nos últimos meses, apostando que novos produtos fortaleceriam ainda mais as finanças da empresa. A Intel também atraiu investimentos de peso do governo dos EUA, da Nvidia e do SoftBank.
Após ajudar a articular o investimento federal em agosto, o presidente Donald Trump passou a destacar recentemente a valorização das ações. Os papéis haviam sido os de melhor desempenho no Philadelphia Stock Exchange Semiconductor Index neste mês, somando-se a uma alta de 84% em 2025.
“Havia muito otimismo em torno da possibilidade de a Intel estar virando a esquina”, disse Matt Bryson, analista da Wedbush Securities. “Ouvir que os rendimentos estão difíceis não é um bom começo.”
O governo dos EUA ainda tem um ganho expressivo com sua participação na Intel, segundo cálculos da Bloomberg. Após comprar ações a US$ 20,47, totalizando cerca de US$ 8,9 bilhões, a fatia americana vale aproximadamente US$ 20,4 bilhões no papel.
Tecnicamente, os contribuintes possuem cerca de 274,6 milhões de ações, enquanto o restante permanece em uma conta de custódia aguardando recursos adicionais de um programa pelo qual o governo garante produção segura de chips para fins militares.
Ainda assim, todas as ações são contabilizadas no balanço da Intel, conforme as regras da Securities and Exchange Commission (SEC).
No pico recente do preço das ações, essa participação de 5,5% valia quase US$ 15 bilhões.
Os problemas da Intel representam um revés para o governo dos EUA, que tenta reconstruir uma indústria doméstica robusta de semicondutores e fez da empresa americana um pilar dessa estratégia. A Intel foi a maior beneficiária do Chips and Science Act, que destinou cerca de US$ 52 bilhões em subsídios para restaurar a produção de chips no país.
Os EUA tiveram mais sucesso ao atrair fabricantes estrangeiros. A Taiwan Semiconductor Manufacturing Co. (TSMC), líder na produção de chips avançados, planeja expandir suas operações no Arizona como parte de um acordo comercial com Washington.
A TSMC prevê construir pelo menos mais quatro fábricas de chips — além das seis já planejadas — exigindo cerca de US$ 100 bilhões adicionais em capital, informou a Bloomberg News neste mês.
A Intel afirmou que a receita do primeiro trimestre ficará entre US$ 11,7 bilhões e US$ 12,7 bilhões. O ponto médio desse intervalo ficou abaixo dos US$ 12,6 bilhões estimados pelos analistas. A empresa espera empatar em lucro por ação, excluindo determinados itens. Wall Street projetava lucro de 8 centavos por ação.
No quarto trimestre, a receita caiu 4,1%, para US$ 13,7 bilhões. O lucro foi de 15 centavos por ação, excluindo alguns itens. Analistas estimavam, em média, vendas de US$ 13,4 bilhões e lucro de 9 centavos, segundo dados compilados pela Bloomberg.
A margem bruta — a parcela da receita que permanece após a dedução dos custos de produção — foi de 37,9% no trimestre, em base ajustada. Para o período atual, esse indicador-chave de rentabilidade deve recuar para 34,5%. No auge de seu poder, a Intel reportava regularmente margens acima de 60%.
Zinsner afirmou que as margens atuais “não são de forma alguma aceitáveis”.
A empresa, sediada em Santa Clara, na Califórnia, ainda tem um longo caminho para recuperar o prestígio de outrora no setor de chips. Sua receita anual de US$ 53 bilhões no ano passado ficou cerca de US$ 25 bilhões abaixo do pico histórico, alcançado em 2021.
No início deste mês, a Intel anunciou que o design dos processadores Panther Lake já está disponível em dispositivos, com Tan destacando suas capacidades na feira CES, em Las Vegas. A Intel disputa espaço com a rival Advanced Micro Devices (AMD) e com potenciais concorrentes, como a Qualcomm, pela liderança no que esperam ser uma nova era de computadores pessoais com capacidade para inteligência artificial.
A divisão de computação para clientes da Intel registrou receita de US$ 8,2 bilhões no último trimestre, ligeiramente abaixo da previsão média de US$ 8,3 bilhões. As vendas para data centers somaram US$ 4,7 bilhões, ante uma estimativa de US$ 4,4 bilhões.
A divisão Intel Foundry Services — a unidade fabril da empresa — gerou receita de US$ 4,5 bilhões, alta de 3,8% em relação a um ano antes. Atualmente, essa unidade depende quase exclusivamente das divisões de produtos da própria Intel para encomendas, embora busque clientes externos.
Em última análise, a Intel enfrenta um desafio de execução, disse Tan na entrevista.
“Estamos totalmente focados, como equipe, em melhorar isso”, afirmou. “Sendo franco, o que precisa melhorar é a nossa execução.”
-- Com a colaboração de Ed Ludlow, Katie Greifeld e Romaine Bostick.
Veja mais em Bloomberg.com
Leia também
‘A Samsung está de volta’: CEO cita declarações de clientes sobre gigante asiática