Bloomberg Línea — Depois de acumular quase 200 lojas de veículos leves e pesados, a Automob (AMOB3) quer transformar o negócio de concessionárias no Brasil com uma estratégia baseada em geração de valor nos ativos já existentes, com ganho de escala e de eficiência, além de consolidação estratégica.
De acordo com o CEO, Sebastian Los, o mercado tem se tornado cada vez mais disputado, principalmente com o avanço de marcas chinesas, e as montadoras tradicionais têm buscado se reinventar e oferecer boas propostas ao consumidor.
Segundo Los, a companhia controlada do grupo Simpar (SIMH3) já possui um portfólio diversificado de lojas e marcas, o que confere resiliência nesse ambiente. Mas ainda existem oportunidades de consolidação.
“O mercado vai ficar extremamente competitivo. A nossa estratégia de longo prazo é ser o grande consolidador do segmento”, disse Los em entrevista à Bloomberg Línea.
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O executivo disse que 80% das concessionárias do mercado são controladas por pequenos grupos.
“Quando fazemos aquisições, primeiramente padronizamos sistemas e a estrutura societária. Isso nos permite revisar processos e ganhar eficiência.”
O executivo reforçou que a Automob tem como objetivo se tornar o maior grupo de concessionárias do país.
“O mercado está aí para ser consolidado, mas faremos isso com responsabilidade e consistência. Temos que entregar proposta de valor.”
Mas ressaltou que esse plano de consolidação será executado de forma gradual, com planejamento e visão estratégica. Isso porque a prioridade no curto prazo da Automob é impulsionar o valor de ativos existentes.
“Temos a responsabilidade de olhar as oportunidades no mercado, mas nosso foco são os ativos que já temos.”
A Automob (AMOB3) é listada na B3 desde dezembro de 2024, por meio de um processo de reorganização do negócio que levou a uma cisão da Vamos.
As ações subiram perto de 20% nos últimos seis meses, o que atribui à empresa um valor de mercado aproximado de R$ 500 milhões.
38 marcas como parceiras
A Automob trabalha atualmente com aproximadamente 38 marcas de veículos leves, pesados e de máquinas de construção e agrícolas.
Também atua no segmento premium, com o grupo Autostar, que vende carros e motos da BMW, Jaguar, Land Rover, entre outras.
“Cada uma tem suas características próprias e isso é um grande desafio, mas nossa fortaleza é a escala”, disse o CEO.
A Automob é a única companhia listada do setor na B3.
Em média, vende 33 veículos por loja mensalmente, em uma proporção de 0,7 automóvel seminovo para cada 1 novo.
“Nossa meta é atingir [a proporção de] um para um”, disse. No negócio de atacado (B2B), o volume mensal é de aproximadamente mil unidades.
Segundo o executivo, as margens tendem a ser mais altas no negócio de seminovos, principalmente devido às receitas acessórias, como seguro, por exemplo.
Para se destacar em um setor tão pulverizado e de atuação local, o grupo tem como foco o aprimoramento da experiência do consumidor nas lojas.
“Praticamente 80% das nossas lojas receberam algum capex [investimento] nos últimos anos, seja em retrofit ou reforma mais profunda. Agora nosso foco é extrair mais valor desse investimento”, disse.
Ele contou que as lojas possuem desde áreas reservadas a crianças até espaço pet. “A experiência dentro da concessionária é um dos nossos diferenciais.”
O executivo acrescentou que a Automob investiu em quatro centros de reparo automotivo para centralizar a atividade, que “prepara” o carro que será vendido. São cerca de 500 veículos preparados por dia pelas equipes da companhia.
Já no modelo tradicional de concessionárias, esse tipo de serviço geralmente é feito dentro das lojas.
“Fizemos grandes investimentos na área porque isso tira a atividade do metro quadrado mais caro da operação, que são as lojas”, explicou.
Com isso, as concessionárias ganham espaço para alavancar o business que mais rentável, proveniente justamente da venda de veículos, o que amplia a receita média por metro quadrado.
Peso da Simpar e expansão digital
No Brasil, o modelo de negócio das concessionárias é basicamente de grupos regionais, ou até de atuação local - bairros - em grandes cidades como São Paulo. Segundo Los, o market share da Automob em nível nacional é de 2,5%.
“É baixo, porém, nas microrregiões, temos relevância importante. Queremos ser a maior e a melhor proposta de concessionárias do Brasil”, disse.
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O executivo explicou que, como o país tem dimensões continentais, é a relevância em microrregiões o que diferencia as concessionárias tanto do ponto de vista do cliente quanto da estratégia comercial, perante as montadoras.
“Somos número um da Volkswagen em São Paulo, o maior revendedor GWM do país, temos grande relevância no Maranhão e lideramos as vendas de BMW em Curitiba. Acreditamos muito no modelo de clusters geográficos”, afirmou.
O grupo também investe para crescer no canal digital. A Automob já atua na venda de veículos com a marca seucarro.com, mas também aposta em um centro de distribuição em Guarulhos para explorar o atacado de peças e as vendas digitais. “É um projeto que está em andamento”, disse o CEO.
Embora o grupo Simpar controle companhias que atuam junto às montadoras, como JSL (transporte), Movida e Vamos (ambas de locação de veículos), o executivo explicou que as empresas são totalmente independentes: quando há negociações de compra e venda, os preços de mercado são seguidos.
“O fato de estarmos sob a mesma holding maximiza o relacionamento, mas cada [empresa] cuida dos seus interesses”, afirmou.
Em sua avaliação, a relevância do grupo no mercado de modo geral, medida pela sua representatividade, é uma vantagem. “Ao sentarmos para negociar com uma montadora, existe um valor intangível de sermos do grupo Simpar.”
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