Grupo Toky retoma plano de expansão e mira Rio e Brasília para lojas da Mobly, diz CEO

Em entrevista à Bloomberg Línea, Victor Noda, CEO do grupo dono das marcas Mobly e Tok&Stok, confirma modelo hub nas duas cidades e diz que empresa tem trabalhado para transformar quase R$ 700 milhões em dívida em equity

Por

Bloomberg Línea — Depois de dois anos dedicados à integração de suas redes, o Grupo Toky prevê retomar os planos de expansão no varejo físico, com abertura de lojas da Mobly no Rio de Janeiro e em Brasília possivelmente em 2027.

O plano envolve a instalação de novas unidades dentro de estabelecimentos da Tok&Stok com metragem suficiente para abrigar as duas marcas no mesmo imóvel, de acordo com o CEO Victor Noda.

Em entrevista à Bloomberg Línea, o executivo disse que a iniciativa representa a primeira vez que a companhia indica praças específicas para a expansão física depois da integração das duas redes, em um processo que envolveu uma longa disputa societária.

Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.

Nas duas cidades, a Tok&Stok ocupa imóveis com área suficiente para que parte do espaço seja convertida numa loja da Mobly, mantendo as duas marcas com identidade separada e operação independente dentro do mesmo endereço.

O CEO não indicou a abertura como certa, mas disse que muito provavelmente as duas unidades estarão funcionando em 2027.

“O foco dos últimos dois anos foi captura de sinergias e integração. Ainda tem muito a fazer nessa frente, mas a operação já está num nível de maturidade que permite pensar em crescimento”, afirmou.

Leia mais: Grupo Toky avança em sinergias além do esperado em ‘corrida contra o tempo’

A decisão de retomar a expansão coincide com o primeiro balanço anual consolidado do grupo, divulgado em 31 de março, que mostra uma empresa operacionalmente diferente da que existia há um ano.

A receita líquida chegou a R$ 1,5 bilhão, patamar que nenhuma das duas marcas havia atingido separadamente. As margens subiram em todas as linhas, puxadas em parte pelas renegociações com fornecedores chineses, que cederam descontos relevantes num momento em que as tarifas americanas os deixaram mais dispostos a conversar.

O avanço operacional, porém, convive com uma herança pesada. Quando a Mobly absorveu a Tok&Stok, trouxe um endividamento que chegou a 16 vezes o resultado operacional da empresa.

Desde então, Noda disse que tem trabalhado para desmontar esse passivo convertendo-o em equity: credores abrem mão de parte do que receberiam, aceitam ações (TOKY3) no lugar e saem da condição de cobradores para a de sócios.

A SPX Capital, gestora que havia chegado ao negócio como credora após assumir ativos do fundo americano Carlyle, fez esse movimento no ano passado com um desconto de 60% sobre o valor da dívida e hoje detém 11% da companhia.

Agora Noda tenta repetir a operação com Itaú BBA, Santander, Banco do Brasil e membros da família Dubrule, fundadores da Tok&Stok, que também figuram entre os credores. Se todos toparem, o grupo terá retirado quase R$ 700 milhões em dívida do balanço em menos de dois anos.

Confira trechos da entrevista, editada para fins de concisão e clareza:

O grupo indica Rio e Brasília como próximas praças para a Mobly. Como esse plano está estruturado?

Estamos avaliando usar o excesso de área de lojas grandes da Tok&Stok para instalar uma unidade da Mobly dentro do mesmo imóvel. As duas marcas ficam separadas, com identidade própria, mas compartilham o espaço físico. Muito provavelmente teremos unidades da Mobly nessas duas cidades em 2027.

Por que agora? O que mudou no cálculo de expansão em relação ao ano passado?

O foco dos últimos dois anos foi captura de sinergias e integração. Ainda tem muito a fazer nessa frente, mas a operação já está num nível de maturidade que permite pensar em crescimento. A margem Ebitda saiu de menos de 5% para quase 16%. A margem bruta foi de 46% para quase 53%. Isso não é ajuste contábil, é redução de custo de mercadoria, ganho em logística, redução de custo fixo. Com esse resultado, a conversa sobre expansão muda de natureza.

O balanço de 2025 coincide com uma negociação ativa com credores para nova conversão de dívida. Qual é o tamanho dessa segunda rodada?

Depende de quem aderir. Se todos os credores que ainda estão na mesa converterem, retiramos entre R$ 300 milhões e R$ 480 milhões adicionais de dívida. Já fizemos R$ 230 milhões no ano passado com SPX e Domus, que aceitaram um haircut [desconto] de cerca de 60% e entraram como acionistas. No total, podemos sair com quase R$ 700 milhões de dívida convertida em equity em menos de dois anos.

O guidance de sinergias era de R$ 80 milhões a 135 milhões em cinco anos. Já está em R$ 100 milhões depois de um ano.

O guidance segue sendo de R$ 80 a 135 milhões, é o que nos comprometemos com o mercado e continuamos acompanhando trimestralmente. Olhando para onde estamos, acredito que vamos superar os R$ 150 milhões de sinergias anuais. Mas isso não é compromisso público. Ainda tem muito a capturar em custo de mercadoria, logística e receita cruzada entre as duas marcas.

A China segue competitiva para o grupo mesmo com o cenário de tarifas americanas?

Compensa e muito, dependendo da categoria. Em produtos com metal, plástico e mecanismos, como sofá-cama, cadeira de escritório, cadeira de jantar, produtos para área externa, decoração e iluminação, a China não tem concorrência relevante em custo e qualidade. Fizemos três viagens ao longo do ano para renegociar com os 180 fornecedores da Tok&Stok e conseguimos reduções entre 10% e 25%. O momento ajudou: com as tarifas americanas, eles estavam mais abertos a conversar.

A Maia, ferramenta de inteligência artificial desenvolvida em parceria com a Simbios.ai, trouxe 10% de incremento de receita na Mobly. Como esse uso avança para o grupo?

No segundo semestre deste ano, levamos a Maia para a Tok&Stok também, tanto para recomendação de produto e venda via chat quanto para busca com refinamento conversacional. O próximo passo é levar isso para os vendedores nas lojas físicas. Com acesso ao portfólio completo das duas empresas em tempo real, o vendedor consegue ser muito mais assertivo na recomendação do que qualquer pessoa conseguiria fazer de cabeça. Internamente, mapeamos 59 processos que podem ser totalmente automatizados. Cada um que a gente automatiza reduz custo de pessoal e elimina ferramentas de terceiros que contratávamos.

Quando a companhia entrega lucro líquido positivo?

A operação já gera resultado consistente. O que ainda pesa é a despesa financeira sobre o endividamento remanescente. Uma vez concluída a reestruturação que estamos fazendo agora, a estrutura de capital fica saudável e a geração de caixa operacional vira lucro líquido. É o que estamos construindo para mostrar que dois negócios que individualmente não geravam lucro, juntos e reorganizados, têm perpetuidade real.

Leia também

Com investimento de R$ 314 milhões, Iguatemi prepara sua maior expansão em Brasília