Bloomberg Línea — Guardar uma obra de arte de valor relevante exige mais do que um depósito climatizado: temperatura estável em 20°C, umidade controlada em 50%, vigilância 24 horas, sistema antifogo específico para acervos e equipe técnica capaz de manusear pinturas, esculturas e fotografias sem danificá-las.
No Brasil, o mercado de reservas técnicas privadas com padrão museológico reúne poucas empresas, e a principal delas passa por reorganização estrutural com uma fusão.
A Clé Reserva Contemporânea, instalada em São Paulo desde 2014 com 5.500 metros quadrados de armazenagem, e a ArtQuality, especializada em transporte nacional e internacional de obras, passam a operar sob uma única marca, a Clé Chenue do Brasil. Ambas pertencem ao grupo francês Horus Finance, que atua no setor em oito países.
A nova empresa inaugura neste mês uma segunda unidade na região de Barueri, de 2.000 metros quadrados, com investimento de R$ 17 milhões. O faturamento anual é de R$ 25 milhões, e a empresa projeta alta de 80% sobre essa base nos próximos cinco anos.
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O CEO Diogo Mantovani afirmou à Bloomberg Línea que o aporte combina capital próprio com recursos do grupo controlador, sem dívida bancária.
“Não recorremos a financiamento externo, o que nos permite operar com a estabilidade necessária para um negócio cuja proposta de valor é, justamente, longevidade e segurança patrimonial para acervos culturais”, disse o executivo.
Ele trabalha com horizonte de retorno de médio e longo prazos, compatíveis, segundo ele, com infraestrutura especializada e alta retenção típica do setor, dado que um acervo instalado raramente migra de operador.
Os clientes desse tipo de serviço são museus, instituições culturais, bancos com acervos corporativos, galerias e colecionadores privados que mantêm obras fora de exposição.
A Clé informa que a unidade atual está com ocupação total e que parte do espaço novo já foi contratada antes da abertura, sem revelar nomes ou ticket médio por confidencialidade contratual.
O CEO disse que a base de reservas antecipadas reúne instituições culturais de grande porte, galerias em expansão de acervo e colecionadores privados, sendo este último o principal foco da nova unidade.
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Frentes de demanda
Mantovani aponta três frentes de demanda. A primeira é o crescimento da base de colecionadores privados. A segunda, a profissionalização das galerias brasileiras. A terceira é uma tendência internacional de museus que externalizam suas reservas técnicas para liberar espaço interno para exposições e atividades comerciais.
O caso mais visível dessa terceira frente é o Centro de Conservação do Louvre, inaugurado em Liévin em 2019, que hoje abriga 88% do acervo do museu fora do edifício de Paris.
O mercado de arte no Brasil movimentou R$ 2,9 bilhões em 2023, alta de 21% sobre o ano anterior, segundo a 7ª Pesquisa Setorial do Mercado de Arte no Brasil 2024, conduzida pela Act Arte para a ABACT (Associação Brasileira de Arte Contemporânea) em parceria com a ApexBrasil.
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A taxa composta de crescimento real do mercado interno entre 2019 e 2022 foi de 15% ao ano, com base em dados do Ministério da Fazenda compilados pelo estudo. O Brasil responde por 0,89% do mercado global.
A mais recente pesquisa indica que 77% das vendas das galerias brasileiras em 2023 foram para colecionadores nacionais. Os EUA absorveram 56% das exportações brasileiras de arte no ano, seguidos por Reino Unido, Suíça, França e Bélgica. Os cinco destinos somaram 90% do total.
O país tem 240 galerias ativas, conforme dados citados pela Clé Chenue. E 63% dos museus da América Latina e Caribe não dispõem de espaços projetados para reserva técnica, segundo levantamento do Conselho Internacional de Museus.
Papel de SP e Rio na estratégia global
Para crescer 80% em cinco anos sobre uma base anual de R$ 25 milhões, a Clé Chenue precisa expandir geograficamente. Mantovani disse que São Paulo segue como centro de gravidade do mercado e ainda comporta crescimento, mas que a empresa acompanha a evolução de outros polos culturais, em especial o Rio de Janeiro e regiões com instituições culturais em fase de profissionalização.
Sobre M&A com concorrentes locais, o CEO afirma que a junção entre Clé Reserva Contemporânea e ArtQuality é, em si, um movimento de consolidação interno ao grupo, e não comenta operações futuras.
Sobre o movimento do câmbio (queda de quase 10% do dólar frente ao real neste ano), cenário político (eleição presidencial em outubro) e dependência de poucos grandes clientes como possíveis riscos, Mantovani afirmou não ver os três como ameaça relevante ao negócio.
“Não vemos câmbio nem instabilidade política como riscos relevantes ao nosso negócio. Também não vemos concentração em poucos grandes clientes como vulnerabilidade. Pelo contrário: a base de colecionadores brasileiros está se ampliando justamente quando entregamos nova capacidade”, afirma.
Leilões recentes, segundo ele, têm registrado predominância de novos arrematantes, um sinal, no entendimento da empresa, de uma base que se alarga em vez de se concentrar.
De Maria Antonieta a São Paulo
A nova reserva técnica em São Paulo prevê controle de temperatura a 20°C com variação de dois graus, umidade relativa em 50% com variação de cinco pontos, gerador de energia de reserva, vigilância presencial por bombeiro civil e câmeras dedicadas por sala.
Há módulos individuais de armazenagem com mensalidade a partir de R$ 500 e áreas de coworking para conservadores, museólogos e gestores de coleção.
O Grupo Horus Finance opera em França, Suíça, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Singapura, China e Brasil. Entre suas controladas estão a André Chenue, fundada em 1760 para cuidar do enxoval da rainha Maria Antonieta e hoje prestadora de serviços ao Louvre, e a LP Art, especializada em transporte e manuseio de acervos de alta complexidade.
Em 2017, o grupo comprou também a Natural Le Coultre, empresa de logística e conservação de arte que atua como locatária do Porto Franco de Genebra, uma instalação conhecida por abrigar obras como ativo financeiro, com sigilo fiscal e transações que podem ocorrer sem que a peça deixe o entreposto.
Mantovani disse que esse modelo não tem paralelo no país. “No Brasil, não existe nenhuma figura jurídica equivalente ao regime suíço de zona franca aduaneira aplicado à arte. Portanto, não há como implementar um modelo similar aqui, e não é nossa intenção fazê-lo”, afirma.
Segundo o CEO, o Porto Franco é instituição controlada majoritariamente pelo estado de Genebra desde o fim do século 19, e não um ativo do Horus Finance.
A operação brasileira, diz, trabalha sob a legislação tributária e aduaneira aplicável a qualquer empresa do setor no país e em conformidade com exigências de compliance.
A Clé estima a participação global do grupo no nicho de logística e conservação de fine art em torno de 30%.
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