Bloomberg Línea — O GPA (PCAR3) anunciou na noite da quarta-feira (20) a venda de sua participação de 66,7% na Stix Fidelidade, joint venture de programas de fidelidade criada em 2019 com a então Raia Drogasil, à RD Saúde (RADL3).
A venda da Stix é o primeiro desinvestimento relevante da companhia após a conclusão da recuperação extrajudicial, em 5 de maio.
O valor de R$ 23 milhões implica um valuation de cerca de R$ 34,5 milhões para 100% da operação, um montante simbólico para uma empresa anunciada à época como a “primeira coalizão brasileira de varejistas com empresas de abrangência nacional”, segundo o comunicado de criação.
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Em novembro de 2025, já se apresentava como a maior rede entre os programas de fidelidade do varejo brasileiro, com Pão de Açúcar, Extra, Drogasil, Raia, Shell Box, Petlove e Sodimac como marcas-âncoras, e Itaú e Livelo como parceiros estratégicos. A rede nasceu com acesso a 55 milhões de clientes.
O fim da joint venture com a RD se encaixa em uma agenda de enxugamento de portfólio que o CEO Alexandre Santoro vem conduzindo desde que assumiu o comando da companhia em 5 de janeiro.
Em 5 de maio, o GPA concluiu a renegociação de R$ 4,6 bilhões em dívidas financeiras não operacionais dentro da recuperação extrajudicial protocolada em março, com adesão de 57% dos credores e deságio (haircut) de 70% sobre R$ 2 bilhões do passivo.
Em entrevista à Bloomberg Línea em 5 de maio, Santoro já havia sinalizado que a recuperação extrajudicial trataria do balanço, mas a frente operacional (margens, custos administrativos, capex anual) seguiria como agenda paralela.
A Stix, embora não citada nominalmente, era ativo dessa estratégia: relevante sobretudo em 2019, quando o GPA ainda tinha o Assaí (cindido em 2021) e o colombiano Éxito (vendido em 2024), mas periférico para a operação atual.
Os números do primeiro trimestre, divulgados em 14 de maio, ajudam a entender o timing para que isso acontecesse. A margem bruta atingiu 30,4%, o maior patamar da história recente da companhia, com avanço de 2,9 pontos percentuais associado à “priorização de canais mais rentáveis”.
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A margem Ebitda ajustada subiu para 10,5% (avanço de 1,9 ponto percentual), e o fluxo de caixa livre operacional dos últimos 12 meses cresceu 65,2%, totalizando R$ 522 milhões. O capex foi cortado em 55%, para R$ 87 milhões no trimestre.
Pelo lado das vendas, o avanço de mesmas lojas ficou em 0,6%, com retração de 5,2% na receita total, um efeito da descontinuação do formato Aliados e do ajuste de portfólio de lojas.
Em relatório a clientes, Lucas Esteves, analista do Santander, classificou o trimestre como “misto”, com “qualidade de margem encorajadora”, mas ponderou que a pressão de caixa no curto prazo e a possibilidade de que parte da dívida vire ações novas, diluindo os atuais acionistas, podem pesar no preço do papel.
O banco recomenda manter a ação, com preço-alvo de R$ 4,60 para o fim de 2026.
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O caso do GPA também se insere em um cenário mais amplo enfrentado por empresas brasileiras diante do aumento do custo do crédito e da pressão sobre as margens operacionais, segundo a advogada Patricia Maia, sócia do escritório Barbosa Maia Advogados e especialista em recuperação de ativos e reestruturação financeira.
“Nos últimos anos muitas companhias passaram a conviver com dívidas mais caras, redução de consumo em alguns setores e necessidade de reorganizar estruturas operacionais. A recuperação extrajudicial surge como uma alternativa para reorganizar passivos sem interromper a operação”, disse em comentário enviado aos clientes.
Do outro lado, uma RD em outro ciclo
Em relatório também divulgado desta quarta-feira (20), o BTG Pactual destacou que as vendas farmacêuticas no Brasil avançaram 14,1% em abril ante o mesmo mês de 2025, segundo dados da Sindusfarma compilados pela IQVIA, uma aceleração em relação aos 13,4% do primeiro trimestre.
Para os genéricos, o crescimento foi de 14,5% em abril, contra 13,4% no trimestre anterior. Os analistas Luiz Guanais, Yan Cesquim e Beatriz Cendon escreveram que “a reaceleração é consistente com a fala das companhias na temporada de resultados, sugerindo melhora nas tendências de demanda e normalização da oferta de GLP-1 [canetas emagrecedoras] a partir de abril”.
A casa mantém recomendação de compra para a RD Saúde, com preço-alvo de R$ 19,13.
Para o GPA, a transação está sujeita à aprovação do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica). O Programa Stix segue ativo nas lojas durante o período de transição.
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