Bloomberg Línea — O Grupo Pão de Açúcar (GPA), uma das operadoras de supermercados mais tradicionais do Brasil e dona das bandeiras Pão de Açúcar e Extra Mercado, anunciou nesta segunda-feira (5) a eleição de Alexandre Santoro como seu próximo CEO.
Santoro, que comandava a IMC (International Meal Company) desde 2021, assume com a missão de consolidar as operações e recuperar a rentabilidade do grupo, segundo analistas. Sua experiência em tornar empresas “mais simples e eficientes” deve orientar uma gestão focada em eficiência operacional.
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A IMC (MEAL3) opera marcas como Pizza Hut e Frango Assado no Brasil - e operava a KFC até o fim do ano passado.
À frente da presidência global do Popeyes entre 2017 e 2020, em experiência anterior, Santoro liderou a companhia integrante da RBI (Restaurant Brands International), grupo controlado pela 3G Capital, em uma fase de expansão, com foco igualmente em rentabilidade e eficiência operacional.
A estratégia de simplificação do negócio com vistas a ganhos de eficiência tornou-se marca registrada de sua gestão, repetida posteriormente na IMC.
O GPA, que passa por um período de desafios operacionais e de governança e de disputas societárias pelo seu controle, vinha sendo comandado de forma interina pelo executivo Rafael Sirotsky Russowsky. Ele permanece na companhia como vice-presidente de Finanças e diretor de Relações com Investidores.
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Russowsky havia assumido a presidência executiva interinamente em outubro de 2025, em sucessão a Marcelo Pimentel.
A decisão de eleição de Santoro foi aprovada por unanimidade pelo conselho de administração do GPA.
O grupo opera 731 lojas e registrou receita líquida de R$ 4,6 bilhões no terceiro trimestre de 2025 (dado mais recente divulgado), mantendo sua posição como um dos principais players do varejo de alimentos no país.

Análise do sell-side
Analistas da XP Investimentos classificaram a nomeação como neutra. Em relatório assinado por Danniela Eiger, Laryssa Sumer e Pedro Caravina, a equipe de equity research destacou que Santoro possui “um forte histórico no setor de varejo alimentar, especialmente no segmento de restaurantes”.
A XP disse que a mudança representa a “continuidade dos recentes ajustes de governança da GPA” após a primeira troca de controle em mais de uma década.
A equipe de analistas manteve a recomendação neutra para a ação PCAR3 devido ao “fraco momento dos resultados e riscos fiscais”.
As ações recuaram 6,8% em 2025, oscilando entre R$ 2,35 e R$ 4,95 em ano volátil, mas com alta de 42% até agosto depois de queda de 20% em maio. A volatilidade refletiu mudanças acionárias e reestruturação interna.
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Nova estrutura societária
A mudança de CEO ocorre em momento de transformação profunda para o GPA, com batalha pelo seu controle e a entrada de novos acionistas de referência.
A companhia fundada em 1948 por Valentim Diniz se transformou nas décadas seguintes um dos maiores grupos do varejo nacional, em particular sob o comando do empresário Abilio Diniz.
Em 2012, passou ao controle do grupo francês Casino, que abriu mão dessa prerrogativa como parte de uma estratégia de retomada do foco na França, em momento de grave crise financeira.
A saída gradual do Casino levou a uma reconfiguração societária significativa do GPA ao longo do último ano.
A família mineira Coelho Diniz - sem parentesco com os ex-controladores -, que comandam a rede regional de supermercados de mesmo sobrenome, tornou-se maior acionista individual com 24,6% do capital votante, superando o Casino, com 22,5% por meio das empresas Segisor e Obin Holdings Netherlands, segundo dados da B3.
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Cinco irmãos da família - André Luiz, Alex Sandro, Fábio, Henrique Mulford e Helton - são proprietários de rede Coelho Diniz, que conta com 22 lojas em Minas Gerais.
A família Coelho Diniz passou a deter cinco das nove cadeiras do conselho de administração do GPA,o que marcou a primeira troca de controle efetivo em mais de uma década.
Outros acionistas relevantes incluem o investidor Silvio Tini de Araújo e a Bonsucex Holding, que elevaram sua participação conjunta para 10,31% das ações ordinárias. Tini é conhecido por posições na Alpargatas e na Gerdau.
Concorrência com atacarejo
Santoro terá o desafio de recuperar a operação do GPA em um momento de transformação estrutural do segmento de supermercados no Brasil.
Ao longo dos últimos anos, o modelo tradicional de supermercados perdeu espaço, em detrimento da ascensão do chamado “atacarejo”, que se consolidou como dominante do ponto de vista de resultados ao conciliar características do varejo e do atacado.
Redes tradicionais de supermercados enfrentam margens pressionadas pela competição acirrada e pelo arrefecimento da demanda.
O cenário competitivo mudou drasticamente desde que os tempos em que o GPA liderava o setor.
O Assaí, antes uma subsidiária do próprio grupo, tornou-se uma empresa independente em 2021 e um dos players dominantes do atacarejo, ao lado do Atacadão, do grupo Carrefour Brasil, que também opera outros formatos de lojas. O Grupo Mateus consolidou sua presença no Norte e no Nordeste.
O setor supermercadista brasileiro movimenta cerca de R$ 1,067 trilhão anuais, segundo a Abras (Associação Brasileira de Supermercados). Os cinco maiores players são Carrefour Brasil (que fechou capital na B3 em 2025), Assaí (ASAI3), Grupo Mateus (GMAT3), Supermercados BH e GPA (PCAR3).
Trajetória do executivo
Em mensagem de despedida e agradecimento no LinkedIn, Santoro destacou ter construído na IMC uma empresa “mais simples, mais eficiente, menos alavancada e totalmente preparada para crescimento”.
A trajetória de Santoro inclui a atuação na XPO Logistics (2020-2021) como vice-presidente executivo, a citada presidência global do Popeyes (2017-2020), em período de expansão, e na América Latina Logística, por 13 anos. O executivo iniciou a carreira na Ambev em 1996. Formado em ciência da computação, tem pós-graduação pela FGV e programas executivos em Wharton e MIT Sloan.
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