Fleury seguirá estratégia própria enquanto Bradesco reorganiza ativos de saúde, diz CEO

Em entrevista à Bloomberg Línea, Jeane Tsutsui diz que movimento de seu principal acionista é ‘importante’ para o setor de saúde, mas que a estratégia da rede de diagnósticos continua a mesma; ela também afirma que negociações com a Rede D’Or não avançaram

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Bloomberg Línea — O Fleury manterá o curso de sua estratégia, definida com o aval do conselho, no momento em que o seu principal acionista, o Bradesco, busca consolidar todos os ativos de saúde em uma única estrutura.

Em entrevista à Bloomberg Línea, a CEO Jeane Tsutsui descreveu o movimento como “importante” para o setor de saúde, mas indicou que não haverá alteração no trajeto do maior grupo de medicina diagnóstica premium do país.

“O conselho do Fleury aprovou a nossa estratégia e estamos muito focados na execução dessa estratégia”, afirmou Tsutsui, refletindo um alinhamento entre o Bradesco e a rota independente do Fleury (FLRY3).

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A CEO listou a busca por eficiência como um dos pilares estratégicos para 2026, ao lado de crescimento orgânico combinado com aquisições seletivas e preservação da cultura médica como diferencial competitivo. “Todos na saúde precisam pensar na sustentabilidade do setor”, disse Tsutsui.

Sobre a possibilidade de uma combinação de negócios do Fleury com a Rede D’Or (RDOR3), tema de dois fatos relevantes à CVM em 2025, a CEO disse que o assunto não avançou. “Não houve nenhuma decisão, nenhuma assinatura de documento, nada”, afirmou.

Recentemente, o Bradesco (BBDC4) chamou a atenção de investidores ao anunciar a criação da BradSaúde, holding que consolida todos os ativos de saúde em uma única estrutura, incluindo a fatia de 24,85% no Fleury, detida pela subsidiária Bradesco Diagnóstico em Saúde.

O banco é acionista do grupo de diagnósticos desde a abertura de capital do Fleury, em 2009, há 17 anos.

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A reorganização prevê a criação de uma empresa com atuação em planos de saúde, hospitais e clínicas com cerca de R$ 52 bilhões em faturamento anual e mais de 13 milhões de beneficiários.

A decisão do Bradesco ocorre em um momento de transformação para o setor de saúde privada brasileiro, enquanto operadoras e grupos hospitalares enfrentam pressão financeira.

Dividendos, caixa e o teto para M&A

Em meio a esse rearranjo, o Fleury entra no seu centésimo ano com o balanço em ordem. Do lado financeiro, o exercício de 2025 trouxe seus próprios destaques. O Fleury distribuiu R$ 513 milhões em dividendos em 2025, alta de 49% sobre o ano anterior.

A companhia utilizou reservas de lucros acumuladas para antecipar pagamentos antes que a nova tributação sobre pessoas físicas entrasse em vigor em 2026.

“Distribuímos para privilegiar uma parte importante da nossa base acionária, que são pessoas físicas, com a incidência do imposto que passa a valer a partir do exercício 2026”, disse o CFO, José Filippo, à Bloomberg Línea na mesma entrevista.

O nível de alavancagem (dívida líquida/Ebitda) do Fleury encerrou o ano passado em 1,0x, uma das mais baixas dos últimos anos. Questionado sobre o limite para aquisições e investimentos, Filippo respondeu com precisão.

“Pode subir um pouquinho em termos de oportunidade de investimento ou de uma aquisição, mas ela não vai passar muito de 1,2x”, disse.

O parâmetro delimita o espaço de manobra do Fleury num momento em que o mercado acompanha de perto o rearranjo do ecossistema do Bradesco e os possíveis movimentos da Rede D’Or (RDOR3) e a corrida da Dasa (DASA3) para recuperar margens com foco em diagnósticos.

A conversão de 99,9% do Ebitda em caixa em 2025, ou seja, quase a totalidade do lucro operacional efetivamente transformada em dinheiro disponível, ante 97% em 2024, foi descrita pelo CFO como resultado de disciplina de gestão, não de pressão sobre fornecedores.

Já o prazo médio para receber dos convênios e operadoras de saúde recuou de 75 para 71 dias, enquanto o prazo para pagar fornecedores subiu de 68 para 70 dias.

“Pressionar demais a conta fornecedor acaba vindo no custo, às vezes sem que se perceba”, afirmou Filippo, sinalizando que os níveis atuais de capital de giro estão próximos do limite de otimização.

A alíquota efetiva de Imposto de Renda no ano foi de 21%, em linha com os 22% de 2023 e 23% de 2024, apesar da queda pontual para 4,3% no quarto trimestre, período em que os ajustes da Lei do Bem são sistematicamente contabilizados (incentivo fiscal federal que permite abater investimentos em pesquisa e desenvolvimento do imposto de renda devido).

Visão de analistas do sell side

Para o Bank of America, o Fleury enfrenta desafios crescentes de margem diante da concorrência no segmento premium e de expansão inorgânica concentrada em marcas abaixo da bandeira principal.

O banco mantém recomendação de underperform para o papel, com a ação negociando a 14 vezes o lucro estimado para 2026, e afirma não identificar iniciativas de eficiência capazes de compensar essa pressão de mix, segundo relatório de 11 de fevereiro assinado pelos analistas Flavio Yoshida, Gustavo Tiseo e Mirela Oliveira.

As ações do Fleury acumulam alta de 10,5% em 2026, até 4 de março, e negociam na faixa de R$ 16,47 a R$ 16,81, com capitalização de mercado de R$ 9 bilhões, ainda abaixo da máxima de R$ 18,10 registrada nas últimas 52 semanas.

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