Bloomberg Línea — Apesar do estigma de falta de profissionalização e governança que ainda permeia grupos familiares, essas empresas devem continuar a crescer globalmente, a tal ponto que suas receitas devem praticamente dobrar na década até 2030, com avanço em ritmo superior ao das que não se enquadram assim.
A projeção faz parte do estudo inaugural da série “Defining the Family Business”, da consultoria global Deloitte, cujas conclusões são publicadas no Brasil em primeira mão pela Bloomberg Línea.
O relatório que faz parte de uma série mais ampla denominada “Family Business Insights” da Deloitte, abrangeu entrevistas com 1.587 empresas familiares no mundo, das quais 101 no Brasil, entre março e junho de 2025, com perspectivas de empresas com receita anual média de US$ 2,8 bilhões.
O documento também incluiu entrevistas com 30 executivos sêniores de grupos empresariais familiares de destaque globalmente.
“O crescimento [das empresas familiares] vem de uma série de fatores, mas principalmente de um entendimento maior sobre mercado, produtos e serviços diferenciados”, afirmou o sócio-líder do Deloitte Private Program e do programa Empresas com Melhor Gestão, Paulo de Tarso, em entrevista à Bloomberg Línea.
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“Essas empresas também têm buscado mais eficiência dentro da cadeia de suprimentos, além de treinamento e programas que exploram o desenvolvimento de executivos e de quem atende os clientes”, disse o executivo.
Globalmente, as empresas familiares correspondem a cerca de 22% de todas as companhias com receita anual acima de US$ 100 milhões.
Espera-se que esse faturamento chegue a um crescimento de 84% na década que se encerrará em 2030, para US$ 29 trilhões, o que significará, se concretizado, superar o aumento projetado de 59% das empresas não-familiares.
Em paralelo, o levantamento destaca que o número de empresas familiares deve crescer 22% no período.
“O mercado se mostra muito promissor para o segmento”, disse Tarso.
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Incertezas como principal risco
A expectativa de crescimento ocorre em um cenário de aumento de incertezas econômicas e geopolíticas, apontadas pelas empresas familiares como o principal risco externo, tanto no cenário global (68%) quanto no brasileiro (59%).
Na avaliação do grupo, esse quadro atrasa os principais investimentos e iniciativas de expansão: 70% das empresas globais – e 73% no Brasil – relataram que acreditam que o cenário de aumento tarifário impactará negativamente a economia ou seus negócios.
Entre outros fatores externos apontados como riscos para os negócios no Brasil estão a ameaça cibernética (57%), o custo de matérias-primas (56%) e o desafio de ser ultrapassado pelo rápido avanço da tecnologia (56%).
Nesse contexto, Tarso disse que os ganhos de eficiência dentro dessas empresas começam muito antes da operação em si.
Processo de sucessão
De acordo com o estudo da Deloitte, 90% das empresas do Brasil têm ou tiveram origem familiar e são responsáveis por 75% do emprego gerado no país, bem como de 65% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional.
São empresas que, em muitos casos, passam por momentos de sucessão, com planejamento que se torna cada vez mais recorrente.
“Existe uma grande oportunidade de tornar a sucessão exitosa quando os fundadores se conectam com as novas gerações, o que começa por falar de forma positiva do negócio dentro de casa. É preciso garantir que os herdeiros possam ter o desejo de contribuir”, afirmou o sócio da Deloitte, que ressaltou os riscos.
“A sucessão é uma das principais dores. Muitas estão na primeira geração e é preciso potencializar o conhecimento sobre o negócio usando as habilidades que cada um dos membros da família possui”, disse o sócio da Deloitte.
Trata-se de uma transição, no entanto, que nem sempre acontece de maneira natural. “Geralmente, o fundador tem um apreço maior pelo negócio, que cuida como se fosse um filho.”
Por outro lado, ele apontou que, diante desse quadro, um herdeiro pode comandar o negócio familiar de maneira mais eficiente justamente por não ter tanto apego.
“É importante entender que existe uma diferença geracional. Quem cria [o negócio] precisa se abrir para novas ideias, enquanto os herdeiros têm que mostrar que conseguem colocar isso em prática.”
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Na visão do sócio-líder do Deloitte Private Program, o fortalecimento da governança corporativa é um ponto crucial na geração de valor dentro do negócio.
“Existe um custo adicional para se reforçar a governança, mas muitas empresas já enxergam retorno [do investimento]”, disse.
Do IPO à entrada de fundos
A abertura de capital, uma das vias possíveis de crescimento na jornada corporativa, está no radar de 12% das empresas familiares globais e de 14% das brasileiras, segundo o estudo.
No horizonte dos próximos três a cinco anos, o relatório aponta que 26% das empresas familiares globais e 37% das brasileiras planejam atrair investidores externos ou fundos de private equity para seus negócios.
Aquelas que pretendem ampliar a participação da gestão não-familiar somam 19% entre as companhias globais e 14% nas brasileiras.
A venda integral do negócio, por sua vez, é considerada por apenas 3% das companhias globais e 2% das brasileiras.
Avenidas de crescimento
Ainda de acordo com a pesquisa, 40% das organizações globais e 43% das brasileiras apontam o investimento em tecnologia - incluindo inteligência artificial - como uma das principais estratégias para ganho de eficiência operacional, redução de custos e expansão.
Tarso ressaltou que existem inúmeras oportunidades de adoção de tecnologias que não exigem necessariamente altos investimentos e que trazem retornos importantes. Uma delas é o aporte em eficiência na cadeia logística e de estoques.
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“A cada nova inteligência implantada para otimizar a cadeia de supply chain, os custos de financiamento e a dependência da captação de recursos diminuem”, afirmou.
As estratégias de crescimento também passam pela diversificação das fontes de receita por meio do lançamento de novos produtos e serviços para 36% das empresas globais, segundo o relatório.
No Brasil, os investimentos têm se concentrado principalmente no fortalecimento de marca e no posicionamento estratégico (44%), além de parcerias ou alianças estratégicas (41%).
Para financiar essas prioridades, parcerias estratégicas ou joint ventures despontam como a principal aposta escolhida pelas empresas brasileiras familiares. Atualmente, 52% delas utilizam essa abordagem para alavancar o crescimento, uma abragência acima dos 42% no âmbito global.
“Grandes clientes da Deloitte começaram com receitas muito menores. Atendemos esses grupos familiares, ajudando essas empresas a serem vistas no mercado”, disse o sócio-líder do Deloitte Private Program.
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