Bloomberg — A Latam se tornou a companhia aérea dominante na América do Sul, deixando concorrentes para trás ao emergir dos escombros de um setor duramente atingido pelos efeitos da pandemia de covid-19 nos últimos anos.
Apenas seis anos após entrar com pedido de recuperação judicial sob o Chapter 11 nos Estados Unidos, as ações da Latam acumulam alta de 76% nos últimos 12 meses, o melhor desempenho entre pares do setor, mesmo após recuarem nas últimas três semanas.
Seus títulos em dólar com vencimento em 2030 e 2031 atingiram máximas históricas neste ano, com retorno de 3,36% nos últimos três meses.
A reviravolta é notável. Rivais como Avianca, Gol e Azul — que também recorreram ao Chapter 11 nos últimos cinco anos — têm enfrentado dificuldades para retomar o desempenho operacional pré-pandemia.
A Latam, por outro lado, deslanchou após captar cerca de US$ 5 bilhões em ações e títulos conversíveis em 2022, bem mais que as concorrentes, e cortar aproximadamente US$ 1 bilhão em custos anuais.
“A Latam fez uma verdadeira ‘tabula rasa’ logo no início, quando outras quiseram evitar cortes profundos, apenas para depois se reorganizarem diversas vezes, como a Gol”, disse Peter Varga, gestor sênior de portfólio da Erste Asset Management. “Além disso, a reestruturação de Gol e Azul acabou beneficiando bastante a Latam.”
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Azul e Gol — que, junto com a Latam, dominam o transporte aéreo no Brasil, maior mercado da América Latina — continuam sob forte pressão financeira.
A Azul só entrou com pedido de recuperação judicial em 2025 e saiu do processo na semana passada, ao levantar até US$ 950 milhões em capital novo.
A Gol, que concluiu sua reestruturação no ano passado com até US$ 1,85 bilhão em financiamento, não registra lucro anual há quase uma década e apresenta alavancagem superior a seis vezes o Ebitda.
Fora do Brasil, a Avianca, que também se reestruturou em 2021 e levantou US$ 1,7 bilhão em novos investimentos, encontra-se em posição ligeiramente melhor.
A companhia colombiana reformulou seu modelo de negócios para se aproximar das low cost, reduziu a frota e reconfigurou cabines para aumentar a capacidade por voo. Sua dívida líquida equivale a pouco menos de três vezes o Ebitda.
Destaque regional
A Latam registrou dois anos consecutivos de lucros recordes, recompensando investidores que apostaram na empresa quando JPMorgan Chase e Goldman Sachs coordenaram uma operação de dívida superior a US$ 2 bilhões como parte do financiamento de saída da recuperação judicial.
Além da melhora no fluxo de caixa, a companhia expandiu capacidade, adicionou rotas e ampliou a frota. Tudo isso reduzindo a dívida líquida para 1,5 vez o Ebitda, ante 4,2 vezes em 2019 — abaixo da meta de duas vezes.
“Outro ponto positivo é a participação de mercado da Latam na região, com liderança na maioria dos países, exceto na Colômbia”, disse François Duflot, da Bloomberg Intelligence. “A Avianca tenta replicar isso, mas está alguns anos atrás e é mais voltada ao lazer, enquanto a Latam tem maior exposição a passageiros corporativos e um programa de fidelidade mais robusto.”
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Ainda assim, os títulos da Latam podem ter espaço limitado para novas altas. Ambos possuem opção de recompra nos próximos dois anos, com os papéis de 2030 podendo ser refinanciados já em outubro, o que tende a limitar ganhos adicionais. A recompra antecipada ajudaria a fortalecer o perfil de crédito da empresa.
Os títulos em dólar com vencimento em 2030 negociam com rendimento de 5,3%, enquanto os papéis de 2031 rendem 5,9%.
“Embora o potencial de valorização pareça limitado nesses níveis, acreditamos que o título ainda oferece um carrego interessante”, disse Alexandre Dray, diretor de pesquisa para mercados emergentes da Gimme Credit, acrescentando que a casa classifica os papéis como desempenho acima da média.
Joia da coroa
Não é apenas a alta dos títulos que pode perder fôlego. O crescimento dos lucros também pode enfrentar pressão.
Embora a receita operacional tenha avançado 16% no último trimestre de 2025, as despesas operacionais ajustadas totais subiram 12% na comparação anual, refletindo maiores gastos com salários e manutenção. Ainda assim, isso pode não ser suficiente para tirar a liderança regional da companhia.
“A Latam é a aérea com menor alavancagem, então as outras reduzirão capacidade ou eventualmente sairão do mercado antes dela”, afirmou Varga.
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De fato, a empresa pretende reduzir ainda mais a alavancagem, com meta de levar a dívida líquida para menos de 1,4 vez o Ebitda em 2026.
A Latam também planeja continuar expandindo, especialmente no Brasil, competindo diretamente com rivais fragilizadas.
Em setembro, a companhia assinou acordo para comprar até 74 aeronaves de corredor único da Embraer. As entregas começam no segundo semestre de 2026, abrindo caminho para 35 novos destinos. A empresa definirá nos próximos meses as rotas e cidades que serão atendidas no Brasil com o primeiro lote de aviões.
A administração da empresa mantém confiança na continuidade de resultados sólidos. A Latam projeta Ebitda entre US$ 4,2 bilhões e US$ 4,6 bilhões em 2026, acima dos US$ 4,1 bilhões do ano passado.
A receita deve avançar dos US$ 14,5 bilhões registrados em 2025 para algo entre US$ 15,5 bilhões e US$ 16 bilhões neste ano.
“Acreditamos que a companhia deve sustentar resultados operacionais fortes, embora mais estáveis do que as melhorias observadas nos últimos anos”, afirmou Filipe Nielsen, analista do Citigroup.
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