De salto de 1.250% em ativos ao Cine Belas Artes: a trajetória da Reag Capital

Grupo fundado e liderado por João Carlos Mansur teve expansão acelerada com mais de 15 aquisições, que ajudaram a levar os ativos sob gestão para mais de R$ 340 bilhões; em nota, Reag negou envolvimento com atividades dos clientes

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Bloomberg Línea — “De GetNinjas a REAG3: uma história digna das telas de cinema no mercado financeiro.”

Assim a Reag Investimentos, rebatizada de Reag Capital Holding, descrevia em comunicado à imprensa em 28 de janeiro de 2025 a sua ascensão meteórica ao papel de uma das novas protagonistas do mercado de capitais brasileiro.

No mesmo dia, pela manhã, sócios e executivos da Reag tomaram conta do saguão da B3 no centro histórico de São Paulo para celebrar a negociação de sua ação REAG3 em bolsa, com o famoso toque de sirene de abertura do pregão.

No centro das atenções estava João Carlos Mansur, presidente do conselho de administração da Reag, da qual havia sido fundador em 2012.

Ao longo de mais de uma década, mas em particular nos últimos anos, no pós-pandemia, a Reag ganhou notoriedade não somente na Faria Lima mas também fora desse círculo da elite financeira do país, tanto pelo ritmo acelerado de crescimento como pela grandiosidade de seus projetos.

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A empresa ocupa uma sede com pouco mais de 5.000 metros quadrados na alameda Gabriel Monteiro da Silva, praticamente na esquina com a avenida Faria Lima, em um dos trechos mais valorizados da cidade de São Paulo.

O avanço meteórico a tornou a oitava maior gestora do país - e primeira entre as independentes -, com mais de R$ 340 bilhões em ativos sob gestão, segundo dados de julho deste ano da Anbima, associação de entidades e instituições do mercado.

Pouco menos de cinco anos antes, em dezembro de 2020, a Reag tinha R$ 25,3 bilhões em ativos, sendo a 29ª maior gestora do país por esse critério; e, quase uma década atrás, em dezembro de 2015, era R$ 1,6 bilhão (92º lugar).

O salto no volume de ativos sob gestão entre dezembro de 2020 e julho deste ano foi da ordem de 1.250%.

Nesta quinta-feira (28), no entanto, a empresa de investimentos voltou aos holofotes por outro motivo: ao se tornar um dos principais alvos da Operação Carbono Oculto, nome dado para a investigação da Polícia Federal e da Receita Federal contra esquemas de lavagem de dinheiro ligados à organização criminosa do PCC.

A transformação da Reag em uma potência do mercado de capitais começou em 2022, quando abandonou um crescimento orgânico até então gradual e adotou uma estratégia agressiva de aquisições e de captações.

Em três anos, a gestora comprou 15 empresas e expandiu sua atuação para tecnologia financeira, empréstimos, seguros e diversos serviços.

O movimento incluiu a aquisição de empresas que originalmente não tinham relação com sua expertise no mercado financeiro, como foi o caso do GetNinjas, plataforma digital de contratação de serviços diversos, de diaristas a contadores.

A estratégia incluiu a exposição da marca por meio de contratos de patrocínios - naming rights - como o do tradicional cinema Belas Artes, na rua da Consolação, em São Paulo, que passou a se chamar Reag Belas Artes; e até patrocínio a jogadores de futebol, como o zagueiro Vitor Reis, do Palmeiras.

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Mansur foi apontado no mercado como um dos idealizadores, junto com a incorporadora WTorre, do Allianz Parque, arena multiuso que abriga o estádio do Palmeiras, além de shows de artistas nacionais e globais.

A Reag também é sócia da SteelCorp, que ergue residências de luxo com estrutura de aço, comandada pelo empresário, publicitário e ex-apresentador Roberto Justus, que liderou a versão brasileira do reality show “O Aprendiz”.

Em 2023, o grupo de Mansur apresentou uma receita operacional líquida de R$ 133,8 milhões, com média de R$ 70 milhões nos últimos quatro anos.

A Fitch Rating atribuiu esses resultados ao “forte crescimento orgânico e inorgânico” e à maior diversificação entre as verticais de negócio da empresa.

Os R$ 341,5 bilhões em ativos sob gestão da Reag em julho estavam distribuídos em R$ 139,6 bilhões em fundos de participações, R$ 136,8 bilhões em fundos multimercados e R$ 53 bilhões em fundos de direitos creditórios.

Completavam o patrimônio sob gestão R$ 9,6 bilhões em fundos imobiliários e valores menores em renda fixa, ações e previdência.

Outro lado da Reag

A Operação Carbono Oculto visa desmantelar supostos esquemas de fraudes e lavagem no setor de combustíveis, que envolveriam desde importação e distribuição até ocultação do patrimônio via fintechs e fundos de investimento.

Em nota, a Reag confirmou ser alvo dos mandados de busca e apreensão da Polícia Federal nesta quinta, disse colaborar com as autoridades e que nunca possuiu envolvimento com as atividades conduzidas pelos clientes.

“Todos os fatos serão devidamente esclarecidos. Diversos fundos de investimento mencionados na operação nunca estiveram sob sua administração ou gestão”, disse a gestora, que reforçou ter agido “de forma regular e diligente”.

Processo na CVM

Segundo divulgado pela Polícia Federal, a investigação federal apura estruturas de ocultação patrimonial do PCC (Primeiro Comando da Capital) por meio de 40 fundos de investimento, dos quais 11 da Reag.

O acelerado crescimento da gestora já causava certa “estranheza” entre profissionais da Faria Lima e escritórios de advocacia, segundo pessoas a par da situação que descreveram a notícia da operação como “zero surpresa” e que falaram com a Bloomberg Línea sob condição de anonimato, dado que não têm autorização para falar em público sobre o assunto.

Essas pessoas descreveram o estilo de gestão de Mansur como “centralizador e hostil”.

Em reuniões do conselho da GetNinjas, por exemplo, ele teria se exaltado em discussões, elevando o tom de voz. A Reag mantém um conselho com quatro membros: o fundador, dois diretores e um conselheiro independente.

Para adquirir a GetNinjas no começo de 2024, a Reag se aliou à Arc Capital, de Sérgio Firmeza Machado, filho de um delator da Lava Jato, segundo outra pessoa ouvida pela Bloomberg Línea a par desse assunto.

Na época, a Reag negou atuação conjunta com a Arc, mas depois assumiu 65% do controle da GetNinjas, que possuía caixa de R$ 300 milhões - valor superior à própria avaliação de mercado.

Neste mês, a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) rejeitou a proposta de acordo da Reag para encerrar processo relacionado à aquisição da GetNinjas.

A autarquia acusou a gestora de omitir informações relevantes ao não declarar que as compras de ações tinham objetivo de influir na gestão da empresa, violando regras de transparência do mercado.

Procurada pela Bloomberg Línea, a Reag não quis comentar esse caso.

Visão da Fitch Ratings

Em relatório em dezembro de 2024, a Fitch Ratings disse considerar a estrutura organizacional da Reag “mais complexa” que a de pares devido ao grande número de subsidiárias e relações intragrupo, o que tornava a operação opaca.

Mudanças frequentes nas exposições dos fundos reduziam a visibilidade sobre participações que poderiam afetar o desempenho financeiro, segundo avaliação da agência de classificação de risco.

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Em 2023, a Reag reportou prejuízo operacional de R$ 94,4 milhões devido a provisionamentos e despesas de juros. Os resultados financeiros de 2024 não foram divulgados, bem como do primeiro e do segundo semestre deste ano.

A Fitch estimou uma alavancagem acima de 5 vezes medida pela dívida bruta sobre o patrimônio tangível em 2024, com tendência de alta, como reflexo da estratégia de maior exposição a ativos de risco adotada após 2022.

A agência destacou que a diversidade de ativos com diferentes níveis de liquidez e riscos colocava a Reag em posição de maior risco comparado a outras instituições.

Após o anúncio da operação da PF, a ação da Reag despencou 15,69% nesta quinta, para R$ 3,17, chegando à mínima de R$ 2,90 (-22,87%).

O volume de transações subiu 884% acima da média diária, para R$ 396 milhões, com a corretora da XP liderando as compras, e o BTG Pactual, as vendas.

A Fitch concluía no seu relatório do fim de 2024 que, apesar dos riscos operacionais e cibernéticos que poderiam comprometer a imagem da empresa, a Reag gerenciava essas questões de forma relativamente eficaz.

Para a Reag, o toque simbólico do sino de abertura do pregão em 28 de janeiro deste ano era mais um capítulo de uma história duradoura.

“E como toda boa história essa está longe de acabar. O filme a que assistimos em 2024 promete novas cenas de sucesso para 2025, assegurando que essa história continue a inspirar novas sagas para um mercado financeiro ainda mais vibrante e promissor”, disse a empresa em seu material de comunicação.

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