De empurrador de carrinhos a CEO: a ascensão e os desafios do novo líder do Walmart

John Furner, que entrou na empresa como funcionário de loja, agora assume a liderança global do gigante de varejo em um momento de alta para a companhia; ações subiram 20% no último ano e o valor de mercado se aproxima de US$ 1 trilhão

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Bloomberg — Novos CEOs costumam chegar com a missão de reverter os rumos de uma empresa. John Furner, do Walmart, assume o comando com outro desafio igualmente intimidador: entrar no cargo em um momento de auge.

A maior varejista do mundo registra forte crescimento entre clientes mais novos e de maior renda e colhe os frutos do sucesso no comércio eletrônico. As ações (WMT) subiram 20% no último ano, com o valor de mercado se aproximando de US$ 1 trilhão. O CEO que deixa o cargo, Doug McMillon, é amplamente reverenciado e visto como o líder mais influente da companhia desde o fundador Sam Walton.

Para Furner, um veterano do Walmart de 51 anos que se tornará o sexto CEO da empresa nesta próxima semana, esse contexto deixa pouca margem para erros.

Conhecido por dominar tecnologia e por desafiar convenções, ele agora precisa descobrir como ampliar a vantagem da companhia sediada em Bentonville, no Arkansas, e se preparar para a nova era da inteligência artificial sem perder a disciplina que definiu o varejista.

“Estamos à beira do período mais disruptivo do varejo desde o surgimento do comércio eletrônico”, disse Chad Lusk, managing director da área de consumo e varejo da Alvarez & Marsal. “Quando John assume as rédeas, especialmente como alguém da casa, não há espaço para acomodação.”

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Enquanto isso, a concorrência se intensifica: Amazon, Aldi e outros reforçam o foco em preços baixos, e a Target tenta reverter a queda prolongada ao apostar em produtos mais estilosos e em melhores experiências nas lojas. A Target também terá um novo CEO, Michael Fiddelke, que começa nesta próxima semana.

À frente do Walmart US, a maior divisão da empresa, Furner tem laços estreitos com McMillon — os dois, inclusive, frequentaram a mesma universidade. Ainda assim, pessoas que trabalharam com o herdeiro natural do cargo o descrevem como alguém disposto a desafiar o status quo em uma companhia conhecida por sua cultura corporativa profundamente enraizada.

Esse instinto aparece com mais clareza no dia a dia. Em visitas às lojas, ele oferece feedback direto e específico sobre o que funciona e o que não funciona, segundo pessoas familiarizadas com seu estilo, que falaram com a Bloomberg News e pediram anonimato ao tratar de assuntos internos.

Quando comandava a rede de atacarejo Sam’s Club, Furner apoiou a abertura de uma unidade de pequeno formato, um sinal de sua disposição para experimentar e de sua curiosidade sobre novas formas de comprar.

Durante a pandemia, quando o Walmart lançou seu programa de fidelidade, ele defendeu testar um benefício de cashback para clientes, mesmo com questionamentos internos sobre um possível conflito com o mantra da empresa de oferecer preços baixos todos os dias .

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Ao longo dos anos, ele passou a assumir um papel mais visível, entrevistando funcionários, executivos do setor e celebridades sobre suas experiências de trabalho. Guitarrista, chegou a liderar uma banda corporativa com outros executivos chamada “Smashing Prices” — uma referência à banda Smashing Pumpkins —, tocando músicas natalinas em uma reunião interna.

“Ele é muito curioso sobre o que vem pela frente”, disse Dan Bartlett, vice-presidente executivo de assuntos corporativos do Walmart, que trabalha com Furner há mais de uma década. “Isso molda o estilo dele, no sentido de estimular as equipes a não apenas administrar o dia a dia, mas tentar enxergar para onde as coisas caminham.”

Raízes profundas

Furner cresceu em fazendas no Arkansas e começou a trabalhar no Walmart como funcionário de meio período no setor de jardinagem de um supercenter. Seu pai também trabalhou na varejista, e Furner já contou como colegas ajudaram a arrecadar recursos para o tratamento de câncer de sua mãe nos anos 1980. Ele conheceu a esposa na empresa.

Antes de chegar ao topo, ocupou cargos que foram de empurrador de carrinhos a gerente de loja, passando depois pela liderança de áreas como o negócio de merchandising na China e o Sam’s Club. Em 2019, assumiu o comando das operações nos Estados Unidos.

À medida que avançou na hierarquia, sua postura tranquila e o estilo de comunicação claro lembraram alguns funcionários do Walmart de McMillon. Os dois trabalharam lado a lado, especialmente durante a pandemia e no período posterior. Nesse intervalo, as operações online da varejista cresceram rapidamente, enquanto a inflação nos Estados Unidos disparou.

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Em entrevista à Bloomberg News no ano passado, Furner afirmou que ele e McMillon buscaram permanecer fiéis à herança do Walmart em meio às mudanças do negócio e que “todo o resto precisa mudar conforme o mundo muda e o consumidor muda”.

Furner é conhecido como um líder atento aos detalhes, a ponto de já ter orientado que velas e outros itens de aniversário fossem posicionados mais perto da área de bolos em uma loja.

Pessoas que trabalharam com ele dizem que se sente confortável indo contra a corrente e vê essa capacidade como uma vantagem.

Ele está disposto a fazer apostas grandes, como mostrou a decisão de fechar dezenas de unidades do Sam’s Club com desempenho fraco — algo raro nessa escala. Em reuniões, costuma fazer cálculos rápidos, “no verso do guardanapo”, para testar ideias em tempo real.

“Parte do estilo operacional dele é ser acessível”, disse Scott Benedict, consultor de varejo que trabalhou com Furner no Sam’s Club. Ao mesmo tempo, ele “não tem problema em desafiar as pessoas em diferentes áreas do negócio”.

A fluência em tecnologia sempre foi importante para Furner, que esteve entre os primeiros na empresa a falar sobre drones. Mais recentemente, ele passou a conversar com sistemas de IA enquanto se desloca para o trabalho e dedicou tempo a empresas do Vale do Silício para entender pessoalmente tecnologias emergentes. Também recorreu à IA para ajudar em atividades musicais, como cantar.

Agora, o Walmart e seus concorrentes correm para se antecipar à onda da inteligência artificial, investindo em parcerias tecnológicas e incentivando funcionários a adotar novas formas de trabalhar.

“Nos últimos cinco anos, o Walmart tem sido uma das histórias de sucesso do varejo”, disse Neil Saunders, managing director da consultoria GlobalData Retail. “O desafio é: tudo isso é ótimo, mas como manter esse ritmo? Para John, essa é a pergunta central.”

Furner, que tem visitado mercados internacionais nas últimas semanas, já sinalizou que mudanças virão. Em janeiro, anunciou sua equipe de executivos seniores, destacando a nomeação de David Guggina, responsável pelas iniciativas de e-commerce, como seu sucessor no comando do Walmart US.

Ao escolher o executivo de 40 anos, a empresa rompeu com a tradição de colocar operadores de loja ou de merchandising no cargo, sinalizando a ambição de ampliar ainda mais sua presença digital.

“Tenho recebido muitas perguntas de investidores recentemente: isso significa uma guinada na estratégia ou será uma onda de gastos?”, disse o diretor financeiro John David Rainey em uma conferência com investidores em dezembro, ao se referir à ascensão de Furner.

“O que é importante saber é que a estratégia que executamos nos últimos anos tem as digitais do John por toda parte.”

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