Crise na Oncoclínicas se agrava após prejuízo no 1º tri e pressão por OPA na CVM

Operadora de tratamento oncológico viu ação despencar de R$ 19,75 no IPO de 2021 para menos de R$ 1,20; pedido de oferta pública de aquisição feito pelos minoritários chegou ao Colegiado da CVM para julgamento

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Bloomberg Línea — A Oncoclínicas (ONCO3) atravessa seu momento mais delicado desde a abertura de capital, em 2021.

A operadora de centros de tratamento oncológico, que estreou na bolsa a R$ 19,75 por ação e hoje é negociada abaixo de R$ 1,20, enfrenta ao mesmo tempo a repercussão de um balanço do primeiro trimestre recebido de forma negativa pelo mercado e uma disputa societária que ganhou um novo e decisivo capítulo na Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

No fim de 2024, a Centaurus Brazil Holdings, veículo que sucedeu participações reorganizadas pelo Goldman Sachs, ultrapassou o limite de 15% previsto no estatuto da companhia.

Pela cláusula, ao atingir essa fatia, o acionista é obrigado a lançar uma oferta pública de aquisição (OPA) aos demais sócios. A Centaurus e a Oncoclínicas nunca reconheceram a obrigação. Os minoritários recorreram à CVM, que demorou a se manifestar.

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O relatório de resultados do primeiro trimestre não menciona a disputa em torno da OPA. A companhia tem evitado se manifestar publicamente sobre o tema.

Os advogados da Associação Brasileira de Investimento, Crédito e Consumo (Abraicc) fundamentaram o recurso na tese do silêncio administrativo, comum no direito tributário, mas até então inédito em mercado de capitais.

Nesta semana, o pedido saiu da Superintendência de Registro de Valores Mobiliários (SRE) e foi submetido ao Colegiado da CVM para julgamento.

A movimentação foi confirmada à Bloomberg Línea pelo advogado Felipe Demori, contratado há pouco mais de um mês pela Abraicc para representar os minoritários.

Os números do litígio impressionam. Pelo estatuto, a OPA deveria considerar a maior cotação dos 12 meses anteriores ao fato gerador, multiplicada por 1,2, uma referência que aponta para algo próximo de R$ 16 por ação.

É quase 14 vezes o preço de tela. O desembolso total chegaria a R$ 6 bilhões (US$ 1,2 bilhão na cotação atual).

O bloco que pressiona pela OPA tem na Latache seu acionista mais relevante. A gestora detém 14,62% do capital e ocupa cinco dos sete assentos do conselho.

Beneficiam-se da medida, embora sem articulação conjunta, a Geribá Participações (5,90%), a MAC Capital (representada pelo BTG) e o Fundo Lumen.

Do outro lado, a Centaurus e o Goldman Sachs resistem, coordenados pelo escritório Matos Filho no contencioso e amparados por nove pareceristas, entre eles Otávio Yazbek, Gustavo Gonzalez e Pablo Renteria.

O segundo movimento (o balanço) indica a fragilidade da companhia. O Ebitda ajustado do primeiro trimestre ficou negativo em R$ 68 milhões, ante consenso de mercado de R$ 214 milhões.

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Em relatório a clientes, o analista Joseph Giordano, do JPMorgan, descreveu o trimestre como de “alto nível de angústia” e classificou a continuidade do negócio como dependente de ajuda externa.

Não houve plano novo anunciado junto com o resultado. A recomendação para a ação foi mantida em underweight, equivalente a venda.

Três fatores explicam o desempenho. A limitação no fornecimento de medicamentos retirou R$ 40 milhões da receita bruta, ou 3% do total.

A reclassificação de R$ 119 milhões em provisões entre receita bruta e líquida eliminou uma discricionariedade que ficava nas mãos da gestão anterior. E o reconhecimento de R$ 148 milhões em provisões para perdas de crédito esperadas refletiu o risco da exposição à Unimed Leste Fluminense.

O quadro financeiro também ajuda a entender o momento da companhia. A dívida líquida, incluindo passivos de M&A, somou R$ 3,27 bilhões em março, com alavancagem em 5,2 vezes Ebitda ajustado, ante 3,5 vezes no fim de 2025. O fluxo de caixa operacional ficou negativo em R$ 153 milhões no trimestre.

Em relatório, o BTG Pactual classificou o momento como “desafiador” e manteve recomendação neutra para a ação, com preço-alvo de R$ 3 em 12 meses, quase três vezes a cotação atual, a cotação atual, de R$ 1,11 (queda de 5,1% no final da manhã).

“A visibilidade segue limitada tanto sobre o ritmo da recuperação quanto sobre o desfecho final dessas iniciativas”, escreveu o analista Samuel Alves, lembrando que a ênfase do auditor do balanço sobre risco de continuidade operacional (going concern) reforça o pano de fundo ainda frágil enfrentado hoje pela companhia.

Há ainda uma frente paralela no exterior. Na Justiça federal de Manhattan, corre um pedido de produção de provas contra o Goldman Sachs sobre como a participação na Oncoclínicas foi descrita no prospecto do IPO de 2021.

Mesmo um desfecho favorável aos minoritários na CVM, observa Demori, ainda esbarraria na execução da obrigação contra um beneficiário sediado fora do Brasil.

A pressão dos minoritários se soma a uma crise operacional que extrapolou os balanços. Em março, a Oncoclínicas admitiu atrasos em sessões de quimioterapia, radioterapia e imunoterapia por falta de medicamentos. Pacientes têm recorrido à Justiça para garantir o fornecimento.

Em 16 de abril, a companhia aprovou uma operação de fomento de até R$ 150 milhões com a MAK Capital e a Lumina Capital, de Daniel Goldberg, para a compra de medicamentos.

Um aporte adicional de R$ 500 milhões proposto pela MAK caiu em 30 de abril, com a derrota da gestora na eleição do conselho. O fundador Bruno Ferrari deixou o colegiado após 16 anos.

Foco em caixa e qualidade assistencial

Em comunicado nesta quinta-feira (15), a Oncoclínicas afirmou ter intensificado, ao longo do primeiro trimestre, medidas de gestão operacional e financeira voltadas à preservação da liquidez, à continuidade do atendimento aos pacientes e à adequação da estrutura de capital.

A companhia disse ter reduzido sua exposição a fontes pagadoras com maior consumo de capital de giro e menor retorno financeiro, movimento que impactou a receita do trimestre, mas que, segundo a empresa, contribui para uma operação mais equilibrada.

A receita bruta do trimestre somou R$ 1,5 bilhão, e R$ 6,1 bilhões nos últimos 12 meses.

O ticket médio por procedimento cresceu 14,3% na comparação anual, a R$ 10.585. A empresa apresentou também um Ebitda ajustado próprio, negativo em R$ 49,2 milhões, diferente dos R$ 68 milhões negativos calculados pelo JPMorgan.

Nos 12 meses encerrados em março, o Ebitda ajustado pela métrica da companhia foi de R$ 627,9 milhões. A Oncoclínicas informou ainda ter iniciado conversas com credores para readequar o perfil de amortização da dívida.

As provisões que pesaram no resultado foram apresentadas pela companhia como reflexo de uma postura mais conservadora da administração.

Os ajustes de R$ 119 milhões em PCLD (provisões para contas que podem não ser pagas pelas operadoras) e os R$ 148,3 milhões relativos ao risco de crédito da Unimed Leste Fluminense foram descritos como medidas de fortalecimento da governança e maior aderência à qualidade dos ativos.

“Este foi um trimestre de decisões importantes para o fortalecimento da companhia no longo prazo. Avançamos em iniciativas voltadas ao aumento da eficiência, à disciplina na alocação de capital e à adequação da estrutura financeira ao momento da operação, sempre preservando a qualidade assistencial e a continuidade do cuidado aos pacientes”, afirmou Carlos Gil, CEO da Oncoclínicas, em nota.

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