Creditas chega ao breakeven e mira mais do que dobrar a receita em até dois anos

Em entrevista à Bloomberg News, fundador e presidente Sergio Furio diz que a fintech reduziu pela metade o número de colaboradores em relação a 2022, para 2.000 pessoas

Sergio Furio, fundador e CEO da Creditas
Por Giovanna Bellotti Azevedo - Cristiane Lucchesi e Daniel Cancel
05 de Abril, 2024 | 03:50 PM

Bloomberg — A Creditas, uma das fintechs mais valiosas da América Latina, emergiu da “ressaca” do setor de tecnologia deixando a fase de prejuízos para trás e com metade do pessoal.

A empresa, avaliada em US$ 4,8 bilhões em janeiro de 2022 em uma rodada de investimentos liderada pela gigante americana de investimentos Fidelity, foi uma das poucas fintechs latino-americanas que conseguiu chegar aos mercados globais de dívida em 2023 ao emitir um título simples e sem garantias. E tem planos de fazer mais captações neste ano, disse o fundador e presidente da Creditas, Sergio Furio.

“Até 2021, o crescimento era nosso único foco, dobramos de tamanho a cada ano; mas, desde março de 2022, mudamos de estratégia e entramos em uma fase de transição em que o objetivo é obter lucratividade”, disse em entrevista à Bloomberg News.

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A Creditas, com sede em São Paulo, reduziu o ritmo de crescimento para cerca de 30% nos últimos dois anos, ao mesmo tempo em que cortou custos e desacelerou contratações. Também alterou os preços da sua carteira de empréstimos após uma subida nas taxas de juros do Brasil, que passaram de 2% ao ano em março de 2021 para 13,75% em agosto de 2022.

Sua equipe, que atingiu 4.000 funcionários em 2022, hoje é de cerca de 2.000 pessoas.

A empresa, que tem uma carteira de crédito de R$ 5,5 bilhões, registrou receita de R$ 2 bilhões no ano passado e atingiu o chamado breakeven – quando as despesas são iguais às receitas – em dezembro.

A Creditas usa garantias como imóveis ou veículos para mitigar o risco de empréstimos a pessoas físicas, reduzindo as taxas de juros cobradas de 140% em média no mercado de crédito brasileiro para empréstimos sem garantia para cerca de 35%, ao mesmo tempo que estica prazos. A fintech também concede empréstimos consignados para funcionários de empresas privadas.

No México, onde as taxas de juros são muito mais baixas, mas o acesso ao crédito é menor, a Creditas utiliza a mesma estrutura de garantias para tentar aumentar as taxas de aprovação.

“Queremos manter a Creditas com lucro líquido próximo de zero, ao reinvestir todos os ganhos para continuar crescendo cerca de 30% ao ano”, disse Furio.

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Captação externa nos planos

Embora a fintech não precise de mais capital agora, isso não significa que não fará mais captação de recursos neste ano no mercado de dívida externa.

No ano passado, a Creditas levantou US$ 40 milhões em títulos globais vendidos a um grupo de cerca de 25 investidores na Europa, após uma reunião com investidores de renda fixa em Estocolmo, onde está sediado o VEF, um fundo que investe em fintechs. A Creditas representa cerca de 45% do valor patrimonial líquido da VEF, segundo Furio.

A fintech poderá retornar ao mercado global de títulos neste ano e emitir até US$ 60 milhões, disse Furio.

“Tivemos uma reunião com um grupo de investidores e acredito que ainda há apetite para mais títulos nossos”, disse ele.

Anteriormente, a Creditas usava os mercados de capitais de dívida apenas no Brasil, tendo levantado cerca de US$ 1 bilhão por meio de estruturas de securitização. Em junho de 2022, comprou a licença bancária Andbank no Brasil, transação que ainda depende da aprovação do Banco Central e que permitirá que a fintech utilize depósitos como forma de financiamento mais barata.

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Receitas de US$ 1 bi em até 24 meses

Fundos de capital de risco passaram a investir na América Latina depois da ascensão de fintechs na Ásia, em que WeChat e Alipay se tornaram gigantes globais ao atenderem as massas desbancarizadas da China.

Na esperança de conseguirem algo semelhante, injetaram capital em uma série de startups latino-americanas.

Mas, em 2022, o aumento dos juros globais teve um impacto negativo no apetite pelo risco. Fintechs foram forçadas a realizar fusões, recuar nos planos de expansão e a vender ativos para sobreviver, com investidores exigindo menos promessas e lucratividade mais imediata.

Furio nasceu em Valencia, na Espanha, e passou algum tempo no Deutsche Bank e no Boston Consulting Group antes de fundar a Creditas em 2012.

Junto com a equipe de gestão, ele possui cerca de 20% da empresa, disse ele, sem especificar sua participação exata. O fundo VEF detém 9% do capital social da Creditas.

Outros investidores incluem SoftBank, Kaszek Ventures, QED, Wellington e Advent International.

Uma oferta pública inicial de ações nos Estados Unidos ainda está nos planos, disse ele, pois o IPO aumenta o nível de transparência e pode reduzir os custos de financiamento de uma empresa.

Mas, para que isso aconteça, a Creditas precisa que o mercado esteja aberto e também precisa atingir uma “receita relevante” de cerca de US$ 1 bilhão (R$ 5 bilhões ao câmbio atual). Furio espera que ambas as condições sejam alcançadas dentro de 18 a 24 meses.

“Sempre preparamos a Creditas para ser uma empresa internacional”, disse. “E não faz sentido ser uma empresa internacional pequena.”

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