Construtora centenária de Curitiba cresce 48% e busca deixar reestruturação para trás

A Thá Engenharia, que já teve investimentos do bilionário americano Sam Zell, registrou faturamento equivalente de R$ 544 milhões em 2025 e mira expansão, segundo contou à Bloomberg Línea o CEO, Roberto Thá, da quarta geração da família que fundou a empresa há 130 anos

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Bloomberg Línea — A Thá Engenharia, uma centenária construtora de Curitiba que já chegou a ter investimentos do bilionário americano Sam Zell, tem registrado um crescimento significativo nos últimos anos, impulsionado por um boom de empreendimentos imobiliários na capital paranaense – incluindo o do edifício residencial mais alto da cidade.

Isso tem permitido à companhia iniciar um novo capítulo em sua história e antever o fim de sua recuperação judicial iniciada em 2019, segundo o CEO Roberto Thá, membro da quarta geração da família que fundou a empresa há 130 anos.

De acordo com o executivo, o grupo teve um crescimento de 34% no faturamento próprio no ano passado, para R$ 110 milhões, encerrando o ano com 28 canteiros de obras ativos. Já o chamado faturamento equivalente, que considera as receitas dos projetos imobiliários somados, saltou 48% para R$ 544 milhões, o maior valor dos últimos anos.

Em entrevista à Bloomberg Línea, o CEO afirmou que o grupo fechou em 2025 o contrato de sete novas obras, no valor total de R$ 563 milhões, um aumento de 11% sobre 2024.

Somada aos empreendimentos em execução, isso já garante um faturamento “contratado” para 2026 no mínimo equivalente ao do ano passado. Enquanto isso, as receitas previstas para 2027 já são próximas às de 2024, segundo ele.

“Com as obras que nós vamos começar a contratar agora em 2026, vamos ter mais uma alavancagem de volume. É bem provável que no final de 2026 nós tenhamos um crescimento de 10% a 15% do faturamento”, afirmou o CEO.

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De acordo com o executivo, a expectativa é chegar ao fim do ano com um faturamento equivalente na ordem de R$ 600 milhões, e uma receita própria de aproximadamente R$ 125 milhões.

“A somatória dos nossos contratos ativos em execução dá R$ 1,7 bilhão. Boa parte disso já está executada, mas o saldo a executar está ainda na faixa de quase R$ 1 bilhão”, afirmou.

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O crescimento do grupo coincide com uma fase de expansão do mercado imobiliário na região metropolitana de Curitiba. As vendas de apartamentos novos somaram R$ 7,4 bilhões no ano passado, segundo a Ademi-PR, a associação do setor, com cerca de 10,2 mil unidades comercializadas.

A expansão permitiu à Thá Engenharia reorganizar suas finanças nos últimos anos desde que teve o seu plano de recuperação judicial aprovado, em 2022.

Segundo o CEO, a empresa tinha quitado cerca de 94% de suas dívidas no fim do ano passado, e estava em uma situação que considera confortável.

A expectativa agora é encerrar formalmente a recuperação judicial ainda neste primeiro semestre de 2026.

“Ainda que, tecnicamente, nós ainda estejamos em recuperação judicial, essa já é uma situação fora do baralho. Inclusive, a juíza já até nos oficiou para que faça o encerramento”, disse ele.

Da fundação ao investimento de Sam Zell

Roberto Thá é um dos bisnetos de Maurizio Thá, imigrante italiano que se estabeleceu em Curitiba no fim do século 19 e começou a prestar serviços de construção civil em 1895. Depois de sua morte, três de seus cinco filhos deram continuidade ao trabalho e fundaram a construtora Irmãos Thá, em 1931.

Ao longo das décadas, a companhia se tornou uma das maiores do estado, tendo executado alguns edifícios icônicos da capital e seu entorno, como o Estádio Durival de Britto e Silva (Vila Capanema), o Shopping Mueller, o Curitiba Trade Center (conhecido como prédio do relógio), a fábrica da Audi, em São José do Pinhais (PR), entre outros.

O grupo também realizou obras em outros estados, como o Shopping Dom Pedro (o maior da América Latina), em Campinas (SP), o Hospital Unimed em Campo Grande (MS), além de uma série de unidades do Walmart Brasil e do Leroy Merlin pelo país, segundo o executivo. Ao todo, a empresa calcula ter construído mais de 8 milhões de metros quadrados em sua história.

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Em 2012, a Thá teve seu controle adquirido pela Equity International, veículo de investimentos do bilionário Sam Zell (falecido em 2023), que na época teve êxito em fazer um aporte na Gafisa antes de seu IPO, em 2008.

“O objetivo naquele momento era pegar a Thá, eventualmente juntar com algumas outras empresas, criar um grupo nacional, fazer uma oferta de ações, e depois dar saída ao investimento”, conta o atual CEO.

Entretanto, a recessão econômica de 2014 e as sucessivas crises políticas, que levaram ao impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, mudaram os planos. Segundo Thá, a empresa de investimentos de Sam Zell decidiu então fechar a construtora e sair do negócio, diante da baixa demanda no mercado imobiliário e do aumento dos distratos.

Foi quando Roberto Thá, então diretor técnico, se juntou com um executivo e dois primos que também trabalhavam na construtora. Eles propuseram recomprar a empresa e assumir a operação que levava o nome da sua família.

Em uma das primeiras decisões, o grupo decidiu interromper os planos de os novos lançamentos do seu braço de incorporação e focar apenas na construção. Nesse período, a prioridade, segundo ele, era concluir as obras em andamento, o que foi feito com a ajuda do aporte de investidores, que acabaram assumindo a propriedade de empreendimentos.

Outro desafio era lidar com o alto endividamento dos financiamentos imobiliários contratados com bancos. Depois de negociações, ficou claro que a melhor saída seria entrar com um pedido de recuperação judicial, para ganhar fôlego financeiro e reerguer o negócio.

Expansão para outros estados

Desde então, a Thá deixou de lado o negócio de incorporação e passou a focar unicamente na construção, executando as obras de edifícios residenciais de outras incorporadoras ou empreendimentos corporativos – como comércios, hospitais, fábricas, entre outros. Mas o maior volume de contratos é das obras residenciais.

“Hoje, nós somos uma prestadora de serviço pura e simples, uma construtora para terceiros”, disse o CEO.

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Um desses empreendimentos em execução é o edifício OÁS, da incorporadora GT Building. Com 54 pavimentos e 179 metros, o edifício que tem vista para um dos parques mais famosos da cidade (Barigui) deve se tornar o mais alto da capital quando for entregue, em 2027.

Já entre os atuais projetos industriais está uma planta da Neodent — braço brasileiro do grupo suíço Straumann, líder mundial em implantes dentários. Ela tem previsão de entrega neste ano e, segundo Roberto Thá, será a maior unidade do tipo no mundo em capacidade produtiva.

Apesar do pipeline robusto, Roberto Thá reconhece que o restante de 2026 pode ser mais desafiador para novas contratações, diante da taxa de juros ainda elevada e da campanha eleitoral, que torna o cenário para o país mais incerto.

Segundo ele, duas multinacionais com que a empresa estava negociando chegaram a suspender os processos de licitação, à espera de maior clareza sobre o cenário econômico.

No mercado imobiliário, as vendas também mais lentas podem frear o lançamento de novos empreendimentos neste ano, na sua avaliação.

Outro desafio é de mão de obra. A Thá emprega cerca de 1.600 trabalhadores nos canteiros, entre funcionários diretos (500 a 600) e empreiteiros (cerca de 1.000). E a idade média dos funcionários próprios é de 41,2 anos, elevada para uma atividade de alta exigência física, e vem crescendo a cada ano.

“Daqui a 10 anos eles se aposentam e não tem entrada de pessoas mais jovens”, disse.

A resposta da empresa combina um programa trainee para engenheiros recém-formados, qualificação progressiva de trabalhadores e campanhas internas para atrair novos entrantes no setor.

A adoção do BIM (Building Information Modeling), tecnologia de modelagem 3D que integra orçamento, planejamento e controle de qualidade, é outro investimento voltado a compensar a escassez de mão de obra com mais eficiência de processo.

Olhando para frente, a empresa agora dá início a um planejamento estratégico de três a cinco anos. O ponto central é a expansão geográfica para outros estados, que hoje está sendo estudada para Santa Catarina ou São Paulo.

Segundo o executivo, o estado do Sul tem concentrado um volume crescente de obras, e incorporadores locais já procuraram a Thá em busca de capacidade construtiva. Já São Paulo representaria um passo maior, mas com maior complexidade de entrada e concorrência mais acirrada.

Em ambos os casos, a estratégia segue a mesma lógica adotada pela empresa desde a saída da recuperação judicial, segundo ele: primeiro estruturar uma base operacional, com equipes de orçamento, controle de obras e gestão de mão de obra, para só então buscar contratos.

“Pegar um contrato e, sem ter a certeza de que a gente vai ter condições de executá-lo, é uma situação que nós não conseguimos admitir”, diz o CEO.

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