Constantino Jr., fundador da Gol e pioneiro do low cost no Brasil, morre aos 57 anos

Filho de Nenê Constantino, do império de transportes rodoviários Comporte, o executivo introduziu o modelo de baixo custo na aviação brasileira em 2001. Depois foi cofundador em 2022 da holding Abra, que reúne companhias aéreas em 25 países

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Bloomberg Línea — O empresário Constantino de Oliveira Júnior, fundador e presidente do conselho da Gol Linhas Aéreas (GOLL54), morreu neste sábado (24), aos 57 anos, segundo nota divulgada pela companhia. Ele estava com câncer.

No início dos anos 2000, Constantino Júnior foi responsável pela introdução do modelo low cost na aviação brasileira, conceito que combina passagens mais acessíveis em preço com menos serviços aos passageiros.

A companhia foi fundada em 2000, e o primeiro voo ocorreu em janeiro de 2001 entre Brasília e São Paulo.

Em 2025, a Gol foi a segunda empresa que mais transportou passageiros, com 31,7 milhões, atrás da Latam (39 milhões), segundo dados da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil).

O modelo de negócios implementado por Constantino Júnior na Gol foi importante para ajudar a transformar o mercado de aviação comercial no Brasil a partir dos anos 2000, ao tornar as viagens aéreas mais acessíveis à população.

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Anos mais tarde, o lançamento da Azul Linhas Aéreas, do empresário David Neeleman, deu novo impulso ao mercado nacional, também no modelo low cost.

O empresário e executivo era filho de Nenê Constantino, que fundou a Comporte Participações, um dos maiores grupos de transporte rodoviário do Brasil, que controlou viações como Piracicabana, Penha, Expresso União e Expresso Maringá.

Entre 1994 e 2000, atuou como diretor da Comporte Participações.

A implementação do conceito low cost por Constantino Júnior rompeu com o modelo de aviação vigente no Brasil.

A estratégia incluiu medidas como a padronização de frota com aeronaves Boeing 737, redução de gastos com serviços de bordo e operação em aeroportos regionais com taxas menores.

O fechamento do espaço aéreo ao longo de meses durante a pandemia da covid em 2020, com subsequente processo gradual de retomada da demanda nos anos seguintes, deixou a empresa com dívidas elevadas, a tal ponto que teve papel relevante para levar a Gol a entrar com pedido equivalente à recuperação judicial nos EUA em janeiro de 2024.

O processo foi concluído em junho de 2025.

A expansão da Gol sob a liderança de Constantino Júnior ocorreu em um período de crescimento do setor de aviação no Brasil, marcado pelo aumento da demanda por viagens aéreas e pela entrada de novos competidores no mercado.

A aviação brasileira alcançou em 2025 o recorde de 101 milhões de passageiros em voos domésticos, ante 93,3 milhões no ano anterior, segundo dados da Anac.

Do comando da Gol ao Grupo Abra

A companhia consolidou-se como uma das principais operadoras de transporte aéreo do país ao longo de suas mais de duas décadas de operação.

Em 2001, Constantino assumiu o cargo de diretor-presidente da Gol, conduzindo o início das operações da companhia e sua expansão no mercado nacional.

Três anos depois, em 2004, tornou-se membro do conselho de administração, acumulando essa função com a presidência executiva até 2012, segundo a nota da empresa.

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Em 2007, a Gol comprou a Varig por US$ 320 milhões, selando o domínio low cost. A Varig foi gerida (2000-2002) por Ozires Silva, fundador da Embraer (EMBJ3) e criador do Bandeirante, avião que lançou a indústria nacional. Hoje, aos 95 anos, Ozires permanece como o ícone vivo dessa evolução.

A partir de 2012, Constantino Júnior deixou a função executiva e passou a ocupar o cargo de presidente do conselho de administração da Gol, posição que mantinha até a data de seu falecimento.

Ele também era membro do conselho de administração e um dos fundadores do Grupo Abra, holding criada em 2022 que reúne a Gol e Avianca sob controle comum, com frota de 300 aeronaves e operações em mais de 25 países.

Em novembro de 2025, o Grupo Abra anunciou acordo preliminar para incorporar a chilena Sky Airline, um deal que aguarda aprovação regulatória.

A trajetória do executivo no setor de aviação foi reconhecida ao longo dos anos. Em 2008, ele recebeu o título de “Executivo Ilustre” na categoria Transporte Aéreo pela premiação Gala (Galería Aeronáutica Latinoamericana), patrocinada pela Iata (International Air Transport Association).

A Gol disse em seu comunicado que os princípios estabelecidos pelo fundador contribuíram para o crescimento da empresa e sua atual participação em um grupo internacional. A companhia afirmou que esses princípios seguem presentes em sua cultura organizacional.

E destacou o estilo de liderança de Constantino Júnior. “Sua liderança, sua visão estratégica e, sobretudo, seu jeito simples, humano, inteligente e próximo deixaram marcas profundas em nossa cultura”, afirmou a companhia.

Nascido em Patrocínio, no Triângulo Mineiro, pai de três filhos, Constantino Júnior faleceu após internação em São Paulo para tratar um câncer de pulmão, informação apurada pela imprensa, embora a nota da Gol não detalhe a causa.

Reação na indústria do turismo

A morte de Constantino de Oliveira Júnior repercute na indústria do turismo. A CVC Corp (CVCB3), a Abear (Associação Brasileira das Empresas Aéreas) e o Ministério de Portos e Aeroportos divulgaram notas de pesar pelo falecimento do fundador da Gol.

A operadora destacou a relação histórica com a família Paulus, que fundou a CVC, e o papel do empresário na democratização das viagens aéreas, enquanto a Abear o definiu como “empreendedor visionário”.

O ministro Silvio Costa Filho afirmou que Constantino teve “papel decisivo no fortalecimento da aviação brasileira, ampliando conexões e oportunidades”. A CVC Corp, a Abear e o ministério se solidarizaram com familiares e colaboradores.

-- Atualizado às 14h20 com inclusão de notas da CVC, Abear e Ministério de Portos e Aeroportos

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