Bloomberg — O PicPay, que de uma carteira digital se transformou em uma fintech com negócios mais diversos nos últimos cinco anos, está prestes a ter essa mudança de estratégia avaliada pelos investidores.
A empresa controlada pela bilionária família Batista busca um voto de confiança dos investidores após entrar com um pedido de oferta pública inicial de ações (IPO) nos Estados Unidos neste mês, buscando um valor de mercado de até US$ 2,5 bilhões. Se bem sucedido, será o primeiro IPO de uma empresa brasileira desde que o rival Nubank abriu capital, em 2021.
A oferta aproveita de uma maior demanda por ativos de mercados emergentes, um salto que ajudou a levar a bolsa brasileira a patamares recordes. A oferta atraiu demanda mais de três vezes maior que a oferta até a sexta-feira, segundo informou a Bloomberg News.
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Fundado em 2012 e comprado pelos Batista três anos depois, o PicPay — atualmente o terceiro maior banco digital do Brasil em número de clientes — é apenas parte de seus extensos negócios. Do começo, em 1953, com o que viria a se tornar a JBS, a maior produtora de carnes do mundo, o império empresarial hoje inclui empresas em setores como os de mineração e de produtos de higiene pessoal.
Na década passada, o PicPay era uma das empresas que buscavam trazer para o Brasil o modelo de carteiras digitais, em um momento em que transferências bancárias não estavam amplamente disponíveis. O negócio deu um salto durante a pandemia da Covid-19, que aumentou a disposição dos brasileiros em utilizar bancos digitais.
Mas a chegada do Pix, o sistema de transferências instantâneas criado pelo Banco Central, forçou as instituições financeiras a oferecerem o serviço, eliminando uma vantagem competitiva que o PicPay e empresas similares possuíam. Alguns rivais deram um passo atrás, e outras empresas diversificaram negócios, como o PicPay. A companhia abraçou um modelo de negócios baseado em crédito.
“Embora o PicPay tenha um ecossistema amplo e tenha sido lançado como uma carteira digital com menor volume de ativos, o crédito está se tornando cada vez mais relevante para seu modelo de negócio, lembrando o de bancos digitais como o Nubank”, disse o analista do BTG Pactual, Eduardo Rosman, em uma nota enviada a clientes no ano passado.
O PicPay não comentou para essa reportagem.
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A empresa recrutou vários executivos de outras companhias do setor para fazer a virada, confiando em seus conhecimentos para começar ou escalar novos negócios — ou para tomar conta de suas próprias “mini empresas” dentro da principal, como o presidente do conselho de administração, José Antonio Batista, costuma dizer.
O CEO, Eduardo Chedid, trabalhou para a bandeira de cartões Elo e para a adquirente Cielo, ambas ligadas a bancos tradicionais, antes de se juntar à empresa em 2021. O diretor de relações com investidores, André Cazotto, ajudou a liderar o IPO da PagSeguro em 2018. Outros executivos passaram por bancos como o Itaú Unibanco e o Banco do Brasil, os dois maiores do país em volume de ativos.
A transformação do negócio pode aumentar o patrimônio do CEO e do presidente do conselho com o IPO. Se a oferta for precificada no topo da faixa indicativa, as fatias de Batista e de Chedid combinadas atingiriam um valor de US$ 101,4 milhões, considerando os números que o PicPay apresentou no prospecto.
O crédito foi a alavanca que ajudou o PicPay a sair de um prejuízo de R$ 1,9 bilhão em 2021 para um lucro de R$ 252 milhões em 2024. Nos nove primeiros meses do ano, o lucro líquido foi de R$ 314 milhões, segundo dados do prospecto do IPO.
O caminho para o lucro demandou uma mudança de planos — e muito dinheiro. O PicPay atuava apenas distribuindo crédito originado por terceiros, evitando os riscos e os requerimentos de capital que a concessão de crédito traz consigo. A estratégia mudou à medida que o cenário pós-pandemia intensificou a competição entre as fintechs brasileiras.
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Os empréstimos tiveram um impulso em 2024, quando o PicPay assumiu a operação de varejo do Original, outro banco da família Batista.
O capital exigido também aumentou naquele ano, e o PicPay recebeu cerca de R$ 804 milhões em injeções de capital em 2025 para cumprir com as exigências. Com os planos de IPO adiados anos atrás, os Batista fizeram uma série de injeções, à medida que o modelo de negócio era convertido em banco, com índices de capital maiores.
O PicPay disse que uma adoção mais ampla de produtos de crédito pela base de clientes deve ser uma das principais alavancas de crescimento no futuro, e os recursos obtidos no IPO devem ajudar a financiar essa expansão.
A fintech tinha 67 milhões de contas abertas em dezembro, um crescimento de 11% em relação ao ano anterior. O PicPay estava atrás apenas do Nubank e do Mercado Pago, de acordo com os dados do BC relativos àquele mês. Ao contrário dos dois rivais, a empresa atualmente opera apenas no Brasil, expandindo em linhas de negócio ao invés de geograficamente.
Em um dos movimentos mais recentes, a fintech fechou um acordo para comprar a seguradora Kovr, que anteriormente pertencia ao Banco Master. O negócio ainda depende de aprovação, e o PicPay afirmou no prospecto do IPO que mesmo que tenha acontecido após o Master vender a Kovr aos executivos da companhia, pode ser afetado pela liquidação do banco. Os recursos provenientes do IPO devem ajudar a financiar a operação.
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