Como a consolidação da indústria de xisto entrou no alvo de Wall Street

Fusão entre duas empresas de petróleo do Texas sinaliza o início da era do ‘Big Shale’ no mercado americano, o que amplia a atratividade de grandes investidores

Precision Drilling oil rig operators work on a Royal Dutch Shell Plc oil rig near Mentone, Texas, U.S., on Thursday, March 2, 2017. Exxon Mobil Corp., Royal Dutch Shell and Chevron Corp., are jumping into American shale with gusto, planning to spend a combined $10 billion this year, up from next to nothing only a few years ago. Photographer: Matthew Busch/Bloomberg
Por Kevin Crowley, David Wethe e Mitchell Ferman
19 de Fevereiro, 2024 | 03:18 PM

Bloomberg — A consolidação da indústria de exploração de xisto avança com um acordo de US$ 26 bilhões. A fusão entre duas das maiores empresas de petróleo do Texas sinaliza o início da era que está sendo chamada de “Big Shale”, em alusão ao shale gas. E Wall Street, que durante a maior parte da última década olhou o setor com ceticismo, parece estar totalmente comprometida.

O acordo entre a Diamondback Energy e a Endeavor Energy Resources, anunciado há uma semana, marca o final de um ano que movimentou cerca de US$ 250 bilhões em negócios de petróleo e gás natural nos Estados Unidos, com a consolidação de uma coleção fragmentada de empresas de exploração privada em corporações maiores.

A Diamondback se orgulhou audaciosamente de ser “a ação obrigatória” no campo de petróleo mais rico da América. Em uma inversão acentuada da punição automática geralmente aplicada a quem desempenha o papel de comprador em fusões corporativas, suas ações subiram 11% em questão de horas. Foi talvez o sinal mais seguro de aprovação dos investidores.

No encerramento da semana, a empresa de exploração de xisto atingiu uma alta recorde e aumentou sua capitalização de mercado em US$ 5 bilhões, mesmo que a transação não deva ser concluída antes de vários meses.

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Em uma escala mais ampla, a onda de consolidação está curando a ressaca dos anos de gastos excessivos pelos perfuradores de xisto, que buscaram crescimento da produção às custas dos retornos aos investidores.

A demanda de Wall Street por escala, eficiência e retornos em dinheiro significa que a nova era está se transformando em uma de sobrevivência dos maiores players.

“Agora é um jogo de empresas grandes”, disse Mark Viviano, sócio-gerente da Kimmeridge Energy Management, que tem pressionado o setor de xisto para se consolidar por meio de meia década. “Agora você tem uma corrida ‘armamentista’ pela escala operacional e pela relevância para os investidores”.

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A evolução da indústria de xisto ocorre em um momento em que ações de empresas de energia representam apenas 3,8% do índice S&P 500, apesar do status dos Estados Unidos como o principal produtor de petróleo do mundo, bombeando 45% mais petróleo do que a Arábia Saudita.

Para colocar a transição em perspectiva, o grupo de empresas de exploração de xisto negociadas publicamente em bolsa diminuiu cerca de 40% nos últimos seis anos para cerca de 50 hoje, segundo a Warwick Investment Group.

“É meio que como o Pac-Man agora: consolide-se ou seja devorado”, disse Kate Richard, CEO da Warwick, que investiu em milhares de poços de xisto. “Provavelmente estamos voltando aos anos 70, quando havia de sete a dez grandes players nos Estados Unidos.”

Uma vez que o acordo com a Endeavor estiver concluído, a Diamondback dobrará seu valor de mercado para cerca de US$ 60 bilhões, tornando-se um concorrente do EOG Resources pelo título de maior ação puramente de exploração de xisto - ou seja, descartando petrolíferas tradicionais que tenham negócios nesse segmento.

“[O negócio] nos colocou em uma nova categoria de peso, o que é uma coisa boa”, disse Kaes Van’t Hof, diretor financeiro de 37 anos da Diamondback, durante uma entrevista. “A percepção é que ser maior significa mais durabilidade” nos ciclos de boom e queda do petróleo, bem como custos de capital mais baixos e um portfólio mais profundo de perspectivas de perfuração.”

Após o anúncio do acordo, a Diamondback está sendo negociada a 9,9 vezes o lucro, superando a EOG, que se comprometeu a ficar de fora da atual onda de compras.

A Diamondback saltará para perto do 150º lugar no S&P 500 em valor de mercado, saindo do 275º hoje, colocando-a no radar de grandes investidores em busca de mais exposição à Bacia Permiana, o prolífico campo de petróleo que atravessa a fronteira entre Texas e Novo México.

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Para a Diamondback, um balanço maior significa acesso mais fácil a capital e mais capacidade de sustentar pagamentos aos investidores mesmo em meio a choques de preços do petróleo.

Além disso, uma pegada geográfica mais ampla na região do Permiano significa acesso a mais locais de perfuração potenciais para escolher e priorizar. Também significa mais influência na negociação de termos com as empresas de serviços que fornecem desde plataformas de perfuração até brocas e equipes de fraturamento e tubulações.

Nova onda de ganho de eficiência

“Grandes compradores provavelmente liderarão uma nova onda de ganhos de eficiência impulsionados por avanços tecnológicos na produção e gestão de custos”, disse Teresa Thomas, líder de energia nos EUA da Deloitte.

Um fenômeno que muitas vezes passa despercebido é que aquisições desse tipo tendem a antecipar uma desaceleração no crescimento da produção de petróleo. Uma série de acordos adicionais pode ajudar a apoiar os preços globais do petróleo e aliviar parte da pressão sobre a aliança Opep+, que tem restringido a produção na tentativa de impulsionar os preços de mercado.

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A Endeavor foi um dos operadores de mais rápido crescimento do Permiano, aumentando a produção em 30% desde 2022. Mas, após a fusão com a Diamondback, esse crescimento desacelerará para menos de 2%, com o dinheiro que seria destinado ao aluguel de plataformas de perfuração e custos relacionados sendo liberado para dividendos e recompras.

A nova era também representa uma mudança na guarda executiva. Autry Stephens, fundador octogenário da Endeavor, se tornará o homem mais rico do petróleo dos Estados Unidos quando o acordo for fechado. Sua saída deixa um legado duradouro.

“Ele é um dos últimos selvagens originais, financiando coisas do próprio bolso e assumindo riscos”, disse Sam Sledge, CEO da ProPetro Holding, com sede em Midland, Texas. “Estamos jogando um jogo diferente agora.”

A decisão de Stephens de manter 40% do capital na Diamondback e o “respaldo implícito” de Warren Buffett na compra recente da CrownRock pela Occidental Petroleum são as principais razões pelas quais os investidores encontraram conforto nos negócios, de acordo com Andy Rapp, co-fundador da Petrie Partners, uma empresa de consultoria em fusões e aquisições.

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“Em algum nível social ou emocional, essa validação tem impulsionado o mercado a abraçar essas transações”, disse ele.

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