Bloomberg Línea — A revolução prometida pelos eVTOLs (veículos elétricos de decolagem e pouso vertical), conhecidos como carros voadores, terá de esperar. Enquanto a certificação dos novos modelos não sai, o helicóptero segue sem substituto no transporte executivo brasileiro e ganha anos adicionais de demanda.
A avaliação consta de relatório do J.P. Morgan publicado na última sexta-feira (17), após encontro do banco com investidores para discutir o mercado brasileiro de aviação executiva.
“O crescimento do mercado de eVTOL permanece uma incógnita, uma vez que as aeronaves ainda têm custo elevado, similar ao dos helicópteros, apesar dos menores custos operacionais”, escreveram os analistas Marcelo Motta e Jonathan Koutras.
O Brasil tem cerca de 4.200 aeronaves executivas em operação entre helicópteros, jatos e turboélices, ante 42 mil nos EUA, segundo dados do RAB (Registro Aeronáutico Brasileiro) compilados pelo J.P. Morgan. É a segunda maior frota do mundo, atrás apenas dos americanos, segundo a ABAG (Associação Brasileira de Aviação Geral).
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“A demanda no Brasil permanece resiliente, sustentada pelo tamanho continental do país e por uma mudança de hábitos pós-Covid-19″, avaliou a dupla sobre o mercado brasileiro de aviação executiva.
Nos jatos executivos, as filas para entrega de aeronaves novas chegam a três anos para modelos como o Praetor, da Embraer, e o HondaJet, da Honda Aircraft Company. Os preços seguem acima dos níveis pré-pandemia, após alta de 30% a 40% em 2021 e 2022, e o mercado de usados opera 2,5 vezes acima de 2019, sem sinais de enfraquecimento.
A leitura do banco ganha peso porque, no Brasil, nem as duas maiores operadoras de mobilidade aérea, Líder Aviação e Revo, apostam na substituição do helicóptero pelo eVTOL.
Ambas já comprometeram cerca de US$ 250 milhões cada em pedidos firmes e opções de compra junto às fabricantes Beta Technologies e Eve Air Mobility, respectivamente, com início da operação comercial previsto para 2028.
A Eve, controlada pela Embraer (EMBJ3), projetava inicialmente certificar seu modelo em 2026, prazo revisto para 2027 e, agora, com horizonte em 2028. O movimento acompanha rivais globais como a americana Joby Aviation, a britânica Vertical Aerospace e a chinesa EHang.
Segundo o J.P. Morgan, o custo por viagem do eVTOL não deve ficar muito abaixo do praticado pelo helicóptero. A promessa de despesas operacionais 40% a 50% menores convive com um preço de aquisição equivalente ao da aeronave tradicional, o que representa um obstáculo à adoção em larga escala.
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Procurada pela Bloomberg Línea, a Líder Aviação ponderou que a nova tecnologia deve avançar de forma gradual, sem ameaçar o helicóptero no curto prazo.
“O eVTOL é uma tecnologia com forte potencial de consolidação no mercado e tende a ocupar, de forma gradual, parte do espaço hoje atendido pelos helicópteros. Embora não seja uma solução voltada ao transporte de massa, a redução no custo por voo deve ampliar sua atratividade e aumentar sua base de usuários ao longo do tempo”, informou a companhia à Bloomberg Línea.
Regulamentação avança
A agenda dos “carros voadores” já sofreu uma série de reveses. No exterior, a alemã Lilium encerrou operações, a Volocopter pediu insolvência, e a Airbus pausou seu projeto citando limitações da tecnologia de baterias.
A Eve, por sua vez, sinaliza que o processo regulatório anda. Durante o Farnborough Airshow, no Reino Unido, a companhia anunciou dois avanços na certificação do Eve 100.
A Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) abriu consulta setorial com a revisão dos critérios de aeronavegabilidade da aeronave, com contribuições até 18 de agosto, e publicou a proposta de critérios de ruído, em consulta até 8 de agosto.
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A empresa também protocolou junto à EASA (European Union Aviation Safety Agency, agência europeia) o pedido para iniciar a validação do Certificado de Tipo, somando a autoridade europeia ao processo em curso com a FAA (Federal Aviation Administration, agência americana).
“Esses passos fortalecem ainda mais nossa trajetória rumo à certificação de tipo e apoiam nossa estratégia de levar o Eve 100 aos principais mercados globais”, afirmou Johann Bordais, CEO da Eve, em nota.
O diretor-presidente da Anac, Tiago Faierstein, classificou a mobilidade aérea avançada como prioridade estratégica da agência brasileira, ao ressaltar a expectativa de que o processo avance de forma coordenada com as demais autoridades reguladoras internacionais.
“A Anac sabe que os eVTOLs são um caminho sem volta e trabalhará fortemente para o desenvolvimento desse setor”, disse Faierstein, em nota.
A Eve também ampliou a carteira comercial em Farnborough. Ao assinar carta de intenção com a suíça Moov para um pedido de até 30 eVTOLs voltados ao mercado de Cabo Verde, com foco em turismo e conectividade aeroportuária.
Obstáculos nos EUA
Nos EUA, porém, o obstáculo é também jurídico. As líderes Joby e Archer travam disputa judicial iniciada em novembro de 2025, envolvendo acusações de roubo de segredos comerciais e, em resposta, de fraude na importação de componentes chineses.
A Archer também processa a britânica Vertical Aerospace por suposta cópia de design. As ações judiciais ameaçam atrasar as metas de certificação junto à FAA e já pesam sobre os papéis do setor em 2026, com Archer perdendo mais de um terço do valor em um ano e Vertical acumulando queda superior a 60% no mesmo período.
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Há sinais de aceleração regulatória também no mercado americano. No início deste mês, a Beta Technologies concluiu os primeiros voos operacionais do eIPP (eVTOL Integration Pilot Program), iniciativa do governo americano que reúne oito projetos em 26 estados para testar a integração das novas aeronaves ao espaço aéreo.
O marco, porém, foi alcançado com uma aeronave elétrica de decolagem convencional, e a certificação do eVTOL da companhia também só é esperada para 2028. A fabricante de Vermont opera hoje em Estados Unidos, Canadá, Europa, Noruega e Nova Zelândia.
A fabricante americana tem ponte com o Brasil. A própria Líder fechou em agosto de 2025 parceria para representar com exclusividade as aeronaves elétricas da Beta no país, com três encomendas firmes e opção de mais 50 unidades, investimento estimado em até US$ 250 milhões, e início da operação comercial também projetado para 2028.
Sem substituição
Do lado das operadoras, a Revo, do grupo português OHI (Omni Helicopters International), investiu US$ 250 milhões na compra de 50 aeronaves da Eve e promete ser uma das primeiras a operar eVTOLs da Eve no país, com início comercial previsto para 2028.
Hoje, a companhia voa com helicópteros bimotores Airbus H155 e H135 em rotas como Faria Lima-Guarulhos. As aeronaves elétricas serão destinadas a trajetos curtos, com autonomia de até 100 km, velocidade de cruzeiro de 200 km/h e recarga em cerca de 15 minutos.
O helicóptero seguirá como escolha principal para destinos mais distantes, como Fazenda Boa Vista, Angra dos Reis e Paraty, que exigem maior alcance e capacidade de bagagem. A estimativa da Revo é de custo 20% a 30% menor para o cliente no médio e longo prazo com os eVTOLs.
“O ecossistema que estamos construindo agora vai muito além da operação convencional no setor de aviação. É uma preparação concreta para uma nova etapa da mobilidade aérea urbana no Brasil, em que trajetos curtos tendem a ganhar uma lógica operacional própria”, afirmou João Welsh, CEO da Revo, em nota.
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O helicóptero, enquanto isso, sustenta um terço da frota executiva brasileira, segundo dados do RAB compilados pelo J.P. Morgan.
A Textron, dona das marcas Bell, Beechcraft e Cessna, domina 39% da frota, seguida pela Airbus, com os modelos H125 e da família H130-H145, e pela Piper, enquanto a Embraer aparece com 8,5% e cerca de 360 jatos em circulação.
Quando a transição finalmente vier, as próprias operadoras de helicóptero devem liderar o movimento, aproveitando rotas já estabelecidas, caso de Líder e Revo, que usam a frota atual como laboratório para mapear o comportamento dos passageiros e calibrar a logística dos futuros vertiportos.
O aquecimento do mercado tradicional deve dar o tom da Labace 2026, maior feira do setor na América Latina, marcada para os próximos dias 4 a 6 de agosto no Aeroporto Campo de Marte, em São Paulo.
Dados da ABAG (Associação Brasileira de Aviação Geral) apontam 94,8 mil pousos e decolagens na aviação de negócios nos 12 meses encerrados em abril, alta de 12,18% sobre igual período anterior. A organização espera superar os US$ 150 milhões em negócios registrados na edição de 2025, entre venda de aeronaves, peças e serviços.
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