Bloomberg Línea — Quem começa a usar semaglutida, o medicamento contido em canetas emagrecedoras como o Wegovy, recebe, junto com a receita, uma lista de exames a serem realizados. É um protocolo adotado atualmente pelos médicos diante do número crescente de estudos alertando para os riscos de complicações em órgãos vitais.
Esse protocolo abre um vetor de receita sistemático para laboratórios e clínicas de medicina diagnóstica.
O endocrinologista precisa saber se o fígado do paciente está respondendo bem, se os rins estão funcionando, se a tireoide não está atrapalhando o emagrecimento. Precisa avaliar glicemia, colesterol, enzimas hepáticas. Precisa de um ultrassom para olhar a vesícula, que fica sob pressão quando o peso cai rápido, segundo estudos recentes publicados.
São pelo menos dez exames laboratoriais mais uma ultrassonografia de abdome. Onze itens por rodada, que são repetidos enquanto o tratamento durar. A frequência depende do médico e do perfil do paciente.
Endocrinologistas ouvidos pela Bloomberg Línea pedem essa bateria de exames a cada três meses durante o tratamento ativo. Cada novo paciente que entra no tratamento se torna, na prática, um contrato de monitoramento recorrente com o setor de medicina diagnóstica.
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Em São Paulo, cidade mais populosa do Brasil, cada usuário de semaglutida chega a arcar com o custo de 11 exames de monitoramento que pode chegar a mais de R$ 4.600 em quatro ciclos por ano, dependendo do canal de acesso, como constatou a Bloomberg Línea em consultas ao mercado.
Laboratórios do segmento premium, como o Grupo Fleury (FLRY3), que opera também sob a marca a+ Medicina Diagnóstica, e a Dasa (DASA3), não utilizam tabelas de preços públicas e fixas, mas permitem a consulta de valores de valores em tempo real através de canais de agendamento digital.
A estimativa de mercado aponta para tickets entre R$ 900 e R$ 1.150 por rodada de exames. Com isso, o custo anual de monitoramento varia entre R$ 3.600, no cenário mais acessível, e R$ 4.600 no segmento premium, considerando a realização dos exames quatro vezes no ano.
No preço cheio da healthtech Dr. Consulta, o conjunto chega a R$ 638 por rodada. Com o cartão de assinante, cai para R$ 445. Multiplicado por quatro ciclos anuais, o ticket no preço cheio vai a mais de R$ 2.550 ao ano, sem incluir o custo com as consultas médicas e com a medicação no período, de acordo com uma verificação feita pela reportagem.
Demanda adicional à vista
Após a expiração da patente da semaglutida a partir desta sexta-feira (20), analistas da indústria farmacêutica têm a expectativa de que o maior acesso às canetas emagrecedoras aumente a demanda por exames de rotina. Até então a farmacêutica Novo Nordisk tinha a exclusividade da substância no Brasil.
A questão para quem analisa as empresas de medicina diagnóstica no Brasil é: quanto dessa demanda deve se converter em receita adicional e para onde ela vai?
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A bateria padrão prescrita pelos endocrinologistas inclui dez exames laboratoriais. Cinco deles cobrem metabolismo e risco cardiovascular, no preço cheio do dr.consulta: hemoglobina glicada (R$ 39), que mede o controle do açúcar no sangue nos últimos três meses; lipidograma completo com colesterol total, frações e triglicérides (R$ 71), que avalia o risco cardiovascular; TSH (R$ 63), que verifica se a tireoide está interferindo no metabolismo; e SHBG (R$ 101), proteína que carrega hormônios sexuais no sangue e funciona como marcador sensível de resistência à insulina.
Os outros cinco monitoram fígado e rins, órgãos diretamente afetados pelo emagrecimento acelerado: transaminases TGO e TGP (R$ 29 cada), que detectam inflamação ou sobrecarga hepática; albumina (R$ 22) e bilirrubinas (R$ 22), que completam o painel do fígado; e creatinina (R$ 30) e microalbuminúria urinária (R$ 62), que acompanham a função renal. O 11º item é o ultrassom de abdome superior (R$ 170), que avalia fígado, vesícula e pâncreas.
Demanda no Brasil
Entre as grandes empresas do segmento, ainda não existem detalhes de quanto dessa demanda extra já está se materializando nos resultados financeiros.
Jeane Tsutsui, CEO do Fleury, referência centenária da medicina diagnóstica no país, disse à Bloomberg Línea que o GLP-1 tem mudado a saúde no mundo, mas os números ainda não detectaram um eventual reflexo da demanda dos usuários de canetas emagrecedoras no ponteiro de receita do grupo, que encerrou 2025 com uma receita de R$ 9 bilhões.
“Não temos nenhum produto específico para GLP-1, porque isso acaba sendo sendo um acompanhamento de uma situação crônica, como obesidade, hipertensão, diabetes”, disse.
Ela lembra que a principal causa de mortalidade no Brasil ainda é doença cardiovascular. “Quanto mais você mantém as pessoas saudáveis, elas vão viver mais e vão fazer medicina diagnóstica, mas isso não é ruim para o sistema de saúde”, disse Tsutsui.
Em relatório de janeiro, o Itaú BBA projeta que o mercado doméstico de GLP-1 pode ultrapassar R$ 50 bilhões até 2030, partindo dos R$ 10 bilhões estimados para 2025, um crescimento anual de cerca de 40%.
A expansão seria viabilizada principalmente pelo vencimento da patente da semaglutida, que o banco identificou como o principal catalisador para derrubar as duas barreiras que travam o mercado hoje: preço e oferta limitada.
O banco estima que uma queda de 50% no preço do medicamento após a entrada dos similares expandiria a população que pode arcar com o tratamento de 7,4 milhões para 22,5 milhões de adultos.
Para o setor de medicina diagnóstica, a análise do banco reforça o argumento de que o crescimento do mercado de canetas emagrecedoras vai muito além das farmácias.
O Itaú BBA destaca que 70% da população brasileira está acima do peso ou obesa, e que o Brasil ocupa o segundo lugar mundial em número de procedimentos estéticos, fatores que sugerem uma demanda latente muito maior do que a observada nos mercados desenvolvidos.
O banco não modelou explicitamente o impacto sobre laboratórios e clínicas de diagnóstica, mas ao projetar 15 milhões de usuários até 2030, entrega a escala do problema: cada um desses pacientes, enquanto estiver em tratamento, é um demandante recorrente de exames de monitoramento.
Alerta dos EUA
Nos EUA, os gastos médicos de usuários de GLP-1 sem diabetes cresceram 8,9% já no primeiro ano de tratamento e subiram para 9,7% nos anos seguintes, com tendência de alta até o sexto ano de acompanhamento, segundo estudo do National Bureau of Economic Research (NBER) em outubro de 2025.
O impacto não é pontual. Um grande empregador americano registrou alta de 15% ao ano nos gastos médicos de usuários de GLP-1 com obesidade por três anos consecutivos, dado compartilhado com o Peterson Health Technology Institute, centro de estudos de Washington.
Em relatório de dezembro de 2025, o instituto concluiu que usuários não diabéticos de GLP-1 têm gastos mais altos em praticamente todas as categorias de serviços de saúde já no primeiro ano, com crescimento nos anos 2 a 6.
Sem genéricos, biossimilares à vista
A expectativa de crescimento esbarra em um detalhe regulatório. A semaglutida e a liraglutida não terão versões genéricas no Brasil: registradas como biológicos pela Novo Nordisk, só admitem biossimilares, produtos semelhantes, mas nunca idênticos ao original.
O laboratório EMS, que aposta nesse segmento de mercado, informou que segue caminho diferente: seu produto é sintetizado por via química, não biológica, e obteve aprovação da Anvisa como medicamento novo.
Na prática, a entrada de mais concorrentes pode reduzir os preços e ampliar o acesso às terapias. Com mais pacientes em tratamento, isso significa que mais baterias de exames deverão ser realizadas a cada seis meses. O protocolo médico não muda com o fabricante do remédio.
Para obesos que usam semaglutida, não há diretriz publicada fixando frequência de exames. A prática trimestral é consenso clínico, não norma, e o número de exames prescritos também pode variar dependendo do médico.
Um posicionamento da Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica) e da Sbem (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia) de 2024 trata de eficácia e dose, mas não detalha qual deve ser a periodicidade.
Para diabéticos, o Ministério da Saúde recomenda HbA1c (exame de controle glicêmico) duas vezes ao ano se na meta, ou trimestralmente se fora dela.
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