Bloomberg Línea — Quando o CEO do Iguatemi, Ciro Neto, tem reuniões com representantes de grandes grifes globais, o executivo do grupo de shopping centers premium tem o costume de recebê-los no Apartamento JK, um espaço residencial de uso exclusivo instalado dentro do JK Iguatemi, em São Paulo.
Conectado por escadas rolantes desde o andar superior até um grande hall, o local tem as paredes recobertas por painéis de madeira para receber a coleção de arte do shopping e recepcionar o visitante.
O ambiente de exclusividade é uma forma de estreitar o relacionamento com as grandes marcas. No momento em que o Brasil atrai a atenção de grifes de luxo, a estratégia é justamente reforçar a posição do grupo como um ponto de entrada para operar no Brasil, conectando casas internacionais ao consumidor brasileiro.
“O desempenho acima da média global colocou o Brasil na rota de expansão das grandes maisons“, disse o CEO em entrevista à Bloomberg Línea. “Se uma marca quer entrar no Brasil, ela entra com a gente.”
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O mercado brasileiro de luxo, avaliado hoje em torno de R$ 98 bilhões, deve atingir R$ 150 bilhões até 2030, com a base de consumidores regulares expandindo de um milhão para um milhão e meio de pessoas no mesmo período, projeta o CEO, que tem entre os concorrentes os grupos Multiplan, Allos e JHSF.
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Diante da perspectiva de crescimento, o executivo diz que tem investido para reforçar o relacionamento com consumidores, alinhado à estratégia de oferecer um serviço mais amplo às grifes do que apenas o de um administrador (atualmente são 15 shoppings e dois outlets premium no portfólio).
Segundo Neto, o grupo tem registrado crescimento expressivo das marcas internacionais no portfólio nos últimos três a quatro anos consecutivos, a um ritmo superior ao do mercado doméstico.
O Iguatemi (IGTI11) registrou R$ 25 bilhões em vendas em 2025 e está programado para divulgar seus resultados do primeiro trimestre na terça-feira (5), após o fechamento do mercado.
A agenda para os próximos anos passa pelo Teatro Iguatemi, aberto há cerca de sete meses, um rooftop com restaurantes também no Iguatemi São Paulo previsto para este ano, pela expansão de 50% no shopping de Brasília e por um bairro do tamanho da Vila Olímpia sendo desenvolvido ao lado do Iguatemi Campinas, com mais de 50 mil moradores previstos.
“O Iguatemi não tem hoje greenfield no radar”, afirmou Ciro Neto, que está no comando do grupo há cerca de um ano e trabalha na companhia há quase 15.
Leia a seguir a entrevista com CEO do Iguatemi, editada para fins de clareza e concisão.
Como vê a evolução do consumo de luxo no Brasil?
O mercado brasileiro de luxo deve chegar a R$ 150 bilhões até 2030, partindo dos atuais R$ 98 bilhões, com a base de consumidores regulares crescendo de um milhão para um milhão e meio de pessoas. O desempenho acima da média global colocou o Brasil na rota de expansão das grandes maisons, e e consolidou o Iguatemi como referência para marcas que querem operar no país.
Por que as marcas internacionais estão crescendo mais do que as nacionais no portfólio do Iguatemi?
As marcas internacionais cresceram acima de dois dígitos nos últimos três a quatro anos no portfólio do Iguatemi, a um ritmo superior ao do mercado doméstico. A diferença de preço em relação ao exterior caiu para entre zero e 25%, e o cliente brasileiro tem aqui um relacionamento que não encontra lá fora: no exterior, ele não está na carteira de CRM das marcas, enquanto aqui elas conhecem seu perfil, seus gostos, sua agenda.
Esse relacionamento só é possível porque o Iguatemi não é apenas um administrador de espaços: é a única empresa de shopping center que tem uma marca, e estar atrelado a ela faz muita diferença tanto para marcas nacionais quanto internacionais.
O Iguatemi opera marcas internacionais diretamente no Brasil. Como funciona esse modelo?
O Iguatemi opera hoje nove marcas diretamente no Brasil, entre elas Polo, Birkenstock e Louboutin, num modelo em que o grupo funciona como porta de entrada para marcas que não viriam operar sozinhas no país. A Balenciaga percorreu esse caminho, operada pelo Iguatemi até abrir sua própria operação no Brasil.
O grupo também mantém uma loja multimarca no JK Iguatemi e recentemente anunciou a chegada da Casa Blanca, marca parisiense, dentro desse modelo.
Como o Iguatemi equilibra expansão física com iniciativas digitais?
Diferente do mercado americano, onde os shoppings estão longe das centralidades urbanas e o digital cresceu mais, os shoppings do Iguatemi estão no meio da vida cotidiana das pessoas, o que reduz a pressão do e-commerce sobre o físico. Ainda assim, o grupo transformou o Iguatemi 365 de marketplace em braço de e-retail das marcas que opera diretamente, usando o canal para alcançar mercados onde não tem presença física.
Quais as prioridades de expansão para os próximos anos?
O Iguatemi não tem hoje greenfield no radar. O foco são três frentes: a expansão do Iguatemi Brasília, que crescerá mais de 50% e já tem marcas internacionais confirmadas, o rooftop do Iguatemi São Paulo, com inauguração prevista para 2026, e o projeto de uso misto em Campinas, onde o grupo desenvolve um bairro do tamanho da Vila Olímpia, com mais de 50 mil moradores previstos ao lado do shopping.
Como os lojistas e consumidores estão reagindo ao reforço no posicionamento cultural do Iguatemi?
O Iguatemi se consolidou como empresa focada no público A/B e no mercado de luxo ao criar experiências diferenciadas em pilares como design, arquitetura e parceria com arte e cultura, o que se traduz em espaços de eventos com curadoria própria, usados ora em parceria com marcas, ora com clientes, ora com empresas que querem promover experiências como shows. O Teatro Iguatemi consolida essa trajetória e tem sido um sucesso absoluto.
Quais iniciativas culturais tiveram maior repercussão entre os clientes?
A moda sempre teve participação muito importante no resultado e nas vendas do portfólio. O Iguatemi é patrocinador do São Paulo Fashion Week e usa seus espaços, inclusive o teatro, para parte dos eventos. O programa de fidelidade One, com mais de um milhão de clientes ativos, distribui benefícios nacionais e globais, desde estacionamento até descontos em hotéis internacionais.
Qual a visão por trás do Teatro Iguatemi e das parcerias com SP-Arte, Pinacoteca e MASP?
O Iguatemi acredita que tem um papel importante no fomento da educação e da arquitetura, e investe nisso com convicção. O grupo é patrocinador da SP-Arte com estande no evento, usa o teatro para receber artistas como Caetano Veloso e seu filho, e promove visitas à Pinacoteca e ao MASP como parte dos eventos que trouxeram pessoas de outros estados em 2025. Recentemente o grupo abriu também um auditório na torre de escritórios do Iguatemi Galeria.
Como avalia a identidade brasileira no mercado de luxo global?
O Brasil está à frente do mercado global no modelo de relacionamento com o cliente de luxo. CEOs de grupos internacionais que visitam os empreendimentos do grupo reconhecem a qualidade do design, comparável ao que existe na Ásia, e a profundidade do relacionamento com o cliente, indo além do oferecido nos mercados europeu e americano. Esse relacionamento é o que faz o cliente construir uma relação afetiva com o Iguatemi ao longo do tempo.
A quem atribui a visão que sustenta essa estratégia?
A família Jereissati, controladora do grupo, sempre teve uma visão voltada para a experiência do cliente. As decisões de internacionalizar o portfólio, criar o programa de fidelidade e desenvolver os espaços de eventos foram tomadas com base em planejamento de longo prazo. O Iguatemi sempre foi valorizado pela excelência operacional, e os resultados atuais decorrem desse planejamento.
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