Bloomberg Línea — A presidente do Banco do Brasil, Tarciana Medeiros, definiu o ano de 2025 como o mais desafiador entre os seus 26 de carreira na instituição. O principal obstáculo foi o agronegócio, que segue com a inadimplência elevada e vem pressionando os resultados do banco desde o início do ano passado.
O Banco do Brasil (BBAS3) é o maior financiador do agro do Brasil, com um terço da carteira de crédito voltado para o segmento – um montante de R$ 406 bilhões. Para 2026, o banco vai reduzir o apetite no agro, com perspectiva de crescimento zero da carteira no ponto médio do guidance (projeção), que vai de -2,0% a +2,0%.
A expectativa da CEO é que o freio no crédito ajude o BB a arrumar a casa e entregar avanço em duas das linhas mais observadas pelos investidores: lucro líquido e rentabilidade.
“2025 foi um ano desafiador que apresentou queda depois do maior resultado do BB. Foi um ano que tivemos comportamento atípico no agronegócio”, afirmou Medeiros a jornalistas nesta quinta-feira (12), um dia após a divulgação dos resultados.
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O lucro líquido acumulado do BB no ano foi de R$ 20,68 bilhões, queda de 45,4% frente ao recorde apurado em 2024. Para 2026, o banco projeta alta de 15% na última linha do balanço, considerando o ponto médio da projeção para o ano – um saldo de R$ 24 bilhões.
Já o retorno sobre o patrimônio líquido médio (ROAE), principal indicador de rentabilidade do banco, ficou em 11,4% no acumulado de 2025 – bem abaixo dos 21,4% do ano anterior. Na mínima do ano, o ROE chegou a cair para o patamar de 8,4% no segundo e no terceiro trimestre.
O BB havia adiantado que o primeiro passo era retomar um ROE de dois dígitos – meta que foi alcançada no quarto trimestre. O próximo movimento é avançar para a faixa intermediária, entre 14% e 16%, antes de buscar a retomada do patamar de 20% que costumava ser o padrão.
“Este ano podemos começar a mirar os ‘mid teens’ [patamar entre 14% 16%]. Isso vai depender de quão rápido se recuperam os agricultores, da nossa eficiência na cobrança, do estancamento das recuperações judiciais”, afirmou Geovanne Tobias, CFO do Banco do Brasil, na mesma conversa.
O banco conta ainda com a ajuda da Medida Provisória 1.314, que autorizou o lançamento de uma linha de R$ 12 bilhões para ajudar os produtores rurais a renegociarem suas dívidas.
“Com a MP, esperamos o arrefecimento desses volumes, sejam financeiros ou de clientes entrando em RJ”, afirmou Felipe Prince, CRO do BB.
A postura mais conservadora do BB foi inicialmente bem recebida no mercado. As ações chegaram a subir até 7% logo início da sessão, mas perderam força ao longo do dia e operavam com ganhos de 2,65% por volta das 14h.
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Do agro à pessoa física
O agronegócio já foi fortaleza do Banco do Brasil no pós-pandemia. Enquanto outros grands bancos eram prejudicados pela alta inadimplência, o BB teve dois anos de resultados recordes, em 2023 e 2024, alcançando até R$ 9,6 bilhões de lucro.
O cenário mudou em 2025 por uma combinação desafiadora de safras e um aumento expressivo nas recuperações judiciais do setor nos últimos dois anos.
O saldo de clientes em RJ passou de 176 ao final de 2022, para 608 em dezembro de 2024 e 980 no último mês do ano passado. O saldo total em RJ subiu de R$ 400 milhões para R$ 7,1 bilhões no mesmo período.
Enquanto mira uma atuação mais firme junto aos inadimplentes – inclusive com medidas judiciais –, o BB anunciou, ainda em 2025, a meta de crescer na pessoa física para deixar o portfólio menos suscetível ao momento do agro.
O banco reforçou a mensagem ao apresentar o guidance para 2026. Enquanto outras linhas podem apresentar encolhimento, a de pessoa física é a maior aposta do banco, com crescimento previsto entre entre 6,0% e 10,0%.
Medeiros afirmou que a prioridade é crescer em linhas mais conservadoras como crédito consignado público e privado – o BB é líder no segmento público e quer buscar 20% de participação de mercado no privado.
“No crédito não consignado, onde já tivemos no passado algumas questões, vamos focar em públicos estratégicos: um cliente que já está conosco há muito tempo e sabemos histórico de inadimplências. E também em linhas com garantias de imóveis, saldo de previdência”, disse.
O BB também renovou o apetite para a alta renda, considerado um segmento prioritário entre os bancos que querem crescer na PF sem comprometer a inadimplência.
O CFO anunciou durante a coletiva que o BB terá sua primeira sala VIP em Guarulhos, seguindo o exemplo dos principais concorrentes que já possuem espaços no aeroporto para alta renda.
O objetivo anunciado ainda em 2024 é crescer em 25% dentro da própria base nesse segmento.
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