Bloomberg — A Exxon Mobil e a Chevron avançam com cautela ao avaliar o apelo do presidente Donald Trump para investir US$ 100 bilhões na reconstrução da indústria petrolífera da Venezuela, um plano que contrasta com o modelo de disciplina de gastos que impulsionou as ações das empresas em Wall Street.
Os CEOs das duas companhias destacaram as oportunidades de longo prazo na Venezuela, que no papel detém as maiores reservas de petróleo do mundo, mas evitaram assumir novos compromissos de capital após a divulgação dos resultados na sexta-feira (30).
Segundo eles, reformas políticas e legais são necessárias para proteger os investimentos, além de enfatizar que quaisquer novos projetos teriam de competir com outras oportunidades ao redor do mundo.
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A Chevron, atualmente a única grande petroleira americana com operações na Venezuela, planeja financiar suas atividades no país com caixa gerado por ativos existentes, o que permitiria elevar a produção em até 50% sem recorrer ao orçamento global de capital.
“Vocês devem esperar que continuemos focados em valor e disciplina de capital”, disse o CEO Mike Wirth em teleconferência com analistas. “É um recurso enorme, com potencial para se tornar uma parcela mais relevante do nosso portfólio no futuro. Mas também precisamos ver estabilidade no país. Precisamos ter confiança no regime fiscal.”
No início desta semana, a presidente interina da Venezuela sancionou mudanças históricas na política nacionalista do setor de petróleo, que reduzem impostos e permitem maior participação acionária de empresas estrangeiras — menos de um mês após forças dos EUA capturarem o líder de longa data Nicolás Maduro.
Pouco depois, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos emitiu uma licença geral que amplia a capacidade de empresas americanas exportarem, venderem e refinarem petróleo proveniente do país sul-americano, que segue sob sanções.
O CEO da Exxon, Darren Woods — que irritou Trump ao chamar a Venezuela de “não investível” em uma reunião na Casa Branca no início do mês — adotou um tom mais positivo na sexta-feira, elogiando os esforços do governo para melhorar o regime legal e fiscal do país. Ele ressaltou, no entanto, que essas mudanças levam tempo.
“O que eu disse na Casa Branca foi que, dadas as estruturas fiscais e legais atuais, não era possível investir, mas que existiam oportunidades para corrigir isso”, afirmou Woods. “O governo Trump está comprometido em fazer isso.”
Woods acrescentou que o país também precisaria de maior representação democrática, um ponto que o governo Trump ainda não priorizou.
As ações da Exxon ficaram praticamente estáveis na sexta-feira, mas tocaram um recorde histórico nesta semana, à medida que investidores recompensaram a gigante do petróleo pelo forte crescimento em barris de baixo custo na Guiana e na Bacia do Permiano, o que ajudou a compensar a queda nos preços do petróleo bruto e reduziu a necessidade de a empresa investir na Venezuela.
Os papéis da Chevron subiram 3,3% após a companhia cortar custos, elevar dividendos e aumentar a produção.
A Venezuela “é um motor de crescimento tangível para a empresa, considerando que seus ativos foram mantidos em nível operacional enquanto concorrentes deixaram o país”, escreveu James West, analista da Melius Research, em nota. “No entanto, a escala da produção ainda depende do regime fiscal, da regulação e da estabilidade política.”
A Chevron pretende usar os lucros iniciais gerados na Venezuela para recuperar dívidas devidas pela estatal Petróleos de Venezuela SA (PDVSA) e pagar custos operacionais recorrentes, como recondicionamento de poços e manutenção de bombas, oleodutos e estações de compressão.
Atualmente, a empresa produz cerca de 250 mil barris por dia em joint ventures com a PDVSA, o que representa aproximadamente 2% do fluxo de caixa anual da Chevron.
As mudanças na lei de hidrocarbonetos da Venezuela aprovadas nesta semana representam “um passo na direção certa”, disse a diretora financeira Eimear Bonner em entrevista.
Ainda assim, a Chevron precisaria de autorizações adicionais do Tesouro dos EUA para alcançar o aumento de 50% na produção planejado, afirmou.
Outro desafio é o petróleo pesado da Venezuela, altamente viscoso e de difícil escoamento. Woods comparou esse tipo de óleo às areias betuminosas do Canadá, onde a Exxon dispõe de uma “abordagem diferenciada que leva a custos de produção mais baixos”.
O maior obstáculo, porém, é garantir que qualquer investimento futuro esteja juridicamente e politicamente protegido. A Exxon já teve ativos nacionalizados na Venezuela tanto nos anos 1970 quanto em meados dos anos 2000.
“Eles mudaram as regras do jogo”, disse Woods em entrevista à CNBC. “É um terreno muito escorregadio quando se começa a cooperar e trabalhar com pessoas que estão roubando de você.”
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