Aegea voltou a adiar a divulgação do balanço. Agora os bonds atingem mínima histórica

Títulos em dólar da Aegea atingem mínima histórica após novo adiamento do balanço, ampliando dúvidas sobre governança e risco de crédito em um mercado já mais avesso a empresas alavancadas no Brasil

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Bloomberg — Os títulos da Aegea Saneamento caíram a um novo piso histórico depois que a companhia deixou de apresentar suas demonstrações financeiras após sucessivos adiamentos, o que aumentou as preocupações com seu balanço em um momento de maior cautela dos investidores em relação ao crédito corporativo brasileiro, após uma série de eventos negativos.

A empresa de saneamento — que tem entre seus principais acionistas o fundo soberano de Singapura e a Itaúsa — informou na sexta-feira que não divulgaria os resultados conforme o previsto, atribuindo o atraso a “extensão e complexidade do processo de revisão, que abrange a reapresentação de resultados de períodos anteriores e o reprocessamento de um volume significativo de informações”.

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A companhia já havia postergado a divulgação diversas vezes, levando a S&P Global Ratings e a Fitch Ratings a rebaixarem sua nota de crédito ainda mais para grau especulativo e a colocarem o rating em observação para novos cortes.

A Aegea não respondeu de imediato a um pedido de comentário.

Os bonds em dólar com vencimento em 2036, entre os mais líquidos, caíram 6,8 centavos de dólar e passaram a ser negociados pouco abaixo de 72 centavos por dólar, segundo dados da Trace. O rendimento desses papéis agora supera 12%, após uma queda de cerca de 15 centavos de dólar desde o fim de março.

“Os investidores, em geral, deram o benefício da dúvida à gestão profissional da Aegea — especialmente considerando acionistas de private equity de primeira linha”, disse Roger Horn, estrategista sênior da Mariva Capital Markets.

“Mas, em algum momento, como no terceiro adiamento das demonstrações financeiras, é inevitável que a preocupação comece a surgir.”

A S&P também alertou que a Aegea tinha até 10 de abril para publicar suas demonstrações financeiras. O descumprimento desse prazo poderia configurar um evento de default em alguns títulos locais e acionar cláusulas de vencimento antecipado cruzado (“cross-default”) em seus títulos em dólar — um alerta que já havia pressionado esses papéis na semana passada.

Os atrasos ocorrem em um momento em que investidores adotam uma postura mais cautelosa em relação à dívida corporativa alavancada no Brasil, após uma série de desenvolvimentos negativos. Raízen e GPA iniciaram recentemente negociações para reestruturações extrajudiciais de dívida, a Alliança Saúde buscou proteção contra credores e outras empresas — como Braskem, Kora Saúde e Oncoclinicas — também avaliam opções de reestruturação, segundo pessoas a par do assunto.

Embora a Aegea tenha reiterado na sexta-feira que o atraso não afetará fluxo de caixa, liquidez ou covenants, a principal questão envolvendo a empresa diz respeito a preocupações com sua divulgação financeira e governança, afirmou Cesar Fernandez, sócio da Alpha Credit Advisors. Esses fatores, acrescentou, já vêm alterando rapidamente a forma como o mercado precifica o risco.

“No Brasil, especialmente neste ambiente, quando os investidores começam a questionar os números, o custo de financiamento sobe, o acesso se restringe, a flexibilidade diminui — e o mercado pode passar a precificar um cenário de reestruturação muito antes de os fundamentos efetivamente chegarem a esse ponto”, disse Fernandez.

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