Bloomberg — As ações da LVMH registraram o pior início de ano de sua história, pressionadas pelo impacto da guerra no Oriente Médio sobre as perspectivas econômicas globais e pela deterioração da demanda por produtos de luxo.
Os papéis caíram 28% no primeiro trimestre, a maior retração entre as grandes empresas europeias do setor, superando perdas observadas durante a crise financeira de 2008-2009, a pandemia de Covid-19 e a bolha das pontocom, segundo análise da Bloomberg desde 1989.
O movimento também reflete a disrupção em viagens e turismo, fundamentais para a venda de itens de maior valor.
⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.
Investidores avaliam os desdobramentos do conflito e suas implicações sobre custo de vida, crescimento e mercados, disse Jelena Sokolova, da Morningstar, destacando o impacto como indicador relevante para o consumo de luxo nos Estados Unidos.
A guerra agrava um cenário já desafiador para o grupo, cuja perspectiva mais fraca divulgada em janeiro foi mal recebida.
Leia também: Por que o crescimento da LVMH não significa uma recuperação do setor de luxo
A LVMH é mais exposta a consumidores aspiracionais, que tendem a reduzir gastos em períodos de incerteza, e também possui presença relevante em vinhos e destilados — segmento pressionado há três anos, especialmente pela queda na demanda pelo conhaque Hennessy.
Diante do desempenho inferior, a ação passou a negociar com desconto de cerca de 20% em relação aos pares — uma inversão em relação ao prêmio observado ao longo da última década. Os papéis são negociados abaixo de 20 vezes o lucro esperado para os próximos 12 meses, nível que vinha funcionando como piso para investidores nos últimos anos.
Leia também: Bernard Arnault amplia participação na LVMH e reforça controle sobre gigante de luxo
A companhia, dona da Tiffany, é a maior do setor em receita e valor de mercado e funciona como referência para um segmento que tenta se recuperar da desaceleração pós-pandemia e dos efeitos de tarifas nos EUA.
Entre concorrentes, as ações da Richemont recuaram cerca de 20% em Zurique no período, enquanto a Hermès perdeu aproximadamente um quarto de seu valor. As quedas também contribuíram para pressionar o desempenho das bolsas europeias, junto a empresas como Novo Nordisk e SAP.
A LVMH deve divulgar os resultados do primeiro trimestre ainda este mês, com foco na divisão de moda e artigos de couro, que inclui marcas como Louis Vuitton e Christian Dior Couture.
Historicamente, um início de ano negativo não determina o desempenho anual — em 2020, por exemplo, a ação terminou em alta —, embora episódios como 2008 e 2001 tenham resultado em quedas expressivas.
Embora não detalhe o desempenho no Golfo, a diretora financeira Cécile Cabanis afirmou em janeiro que o Oriente Médio apresentava crescimento significativo. Antes da escalada do conflito, a região representava cerca de 6% da receita, segundo estimativas do RBC. O grupo segue mais dependente dos EUA e da Ásia, incluindo a China, onde as vendas ficaram estáveis ou em queda no último ano.
A desvalorização das ações também reduziu a fortuna do CEO Bernard Arnault em US$ 55,4 bilhões no primeiro trimestre, para cerca de US$ 152,5 bilhões, segundo o Bloomberg Billionaires Index — a maior perda entre os 500 mais ricos do mundo no período.
No trimestre, a participação da família Arnault na companhia superou 50%.
“A LVMH deixou de ser apenas uma ação de luxo e passou a funcionar como um termômetro da confiança global”, disse John Plassard, da Cité Gestion.
“A questão não é a exposição ao Oriente Médio em si, mas o que ela sinaliza: incerteza, pressão sobre o efeito riqueza e receio de desaceleração mais ampla.”
-- Com a ajuda de Tara Patel e Jack Witzig.
Veja mais em bloomberg.com