A Leão construiu um império do chá no Brasil. Agora planeja dobrar de tamanho

Em entrevista à Bloomberg Línea, o CEO Marcelo Corrêa explica a estratégia da marca controlada pela Coca-Cola desde 2007 para avançar no mercado com novos produtos, além de apostar na exportação de erva-mate; Leão detém 68,5% do mercado de chá no Brasil, segundo dados da Nielsen

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Bloomberg Línea — Controlada pela Coca-Cola desde 2007, a Leão Alimentos e Bebidas vê espaço para dobrar de tamanho até o fim da década, de olho no aumento do consumo de chás, o carro-chefe da empresa fundada há 125 anos em Curitiba.

A marca líder no mercado brasileiro iniciou um ciclo de investimentos em capex de R$ 100 milhões até 2030, sendo 60% destinados à modernização de equipamentos e 40% à ampliação da capacidade produtiva.

O novo investimento é aplicado depois de a empresa investir R$ 60 milhões nos últimos quatro anos na mesma estrutura.

“O Brasil tem um grande mercado promissor ainda a se desenvolver”, disse o CEO Marcelo Corrêa em entrevista à Bloomberg Línea.

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O principal vetor de crescimento dos últimos anos foi um produto lançado em 2019: o chá de preparo em água gelada, que acumulou expansão de 127% entre 2020 e 2025.

A linha permite o preparo em garrafas com água fria, sem necessidade de infusão quente, e reposicionou o chá como bebida de consumo fora do lar.

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As ervas utilizadas passam por tratamento microbiológico diferenciado que substitui a etapa térmica tradicional. A inovação figura entre os produtos que compõem os 40% do Ebitda atribuídos a novos produtos.

A linha de chá gelado chega ao mercado num momento em que outras categorias de bebidas percebem a mesma tendência. O Starbucks, por exemplo, expandiu recentemente sua oferta de cafés gelados no Brasil, sinalizando que as novas gerações migram para formatos frios independentemente da bebida.

Para a Leão, a vantagem competitiva está nos atributos que o chá carrega por si só.

“Hoje os jovens procuram saudabilidade, naturalidade, procuram o faça-você-mesmo. A gente não fala só de cafeína, a gente fala também de cafeína, mas a gente fala de relaxamento, de diferentes funcionalidades, de diferentes atribuições, inclusive refrescância”, disse Corrêa.

Em 2025, a Leão lançou 11 produtos, incluindo a entrada no mercado de erva-mate verde com chimarrão e tereré. Para 2026, o foco declarado é consolidar esses lançamentos e ampliar a presença no mercado internacional, além de desenvolver estratégias B2B.

Novos lançamentos funcionais dependem de regulamentação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e não têm prazo definido.

Quase 70% de market share

A Leão detém 68,5% de participação em volume no mercado brasileiro de chás por infusão, segundo dados da Nielsen citados pela companhia.

O número representa um avanço de cinco pontos percentuais desde 2021, quando a participação era de 63,5%, e consolida uma trajetória de oito anos consecutivos de crescimento a dois dígitos num mercado que, apesar do avanço, ainda consome 24 xícaras de chá por habitante por ano, contra 1.200 do Uruguai e 500 da Argentina.

O contraste com os vizinhos sul-americanos revela a dimensão da oportunidade. O Brasil saiu de 16,5 xícaras per capita em 2016 para 24 em 2025, um crescimento de 45% em menos de uma década.

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Ainda assim, opera em menos de 2% do patamar uruguaio e muito abaixo da média mundial de 250 xícaras por habitante. Países como Turquia (1.300), Irlanda (900) e Reino Unido (800) ilustram o teto possível.

O domínio de mercado da Leão não elimina a pressão competitiva. Nas gôndolas dos supermercados brasileiros, a marca divide espaço com a Dr. Oetker no segmento intermediário, com a Twinings no premium e com marcas próprias de redes varejistas.

A rede Dia Supermercados aposta em duas linhas de chá de marca própria, a Chámeguin, com clássicos como camomila e hortelã, e Cochichá, com blends de ervas e frutas. A produção fica a cargo da Herboflora, de Machado (MG). O Dia pratica preços até 20% abaixo da Leão nas versões básicas, constatou a reportagem em loja na zona oeste de São Paulo.

“A estratégia da marca própria do Dia é atrair consumidores que buscam produtos com bom custo-benefício, mas exigem qualidade”, afirmou o CEO Fabio Farina, em nota.

Outra concorrente é a Maratá, com presença concentrada no Norte e Nordeste. A empresa foi adquirida em 2024 pela JDE Peet’s, multinacional holandesa dona das marcas Pilão e Caboclo.

Ainda assim, a Leão é quatro vezes maior do que o segundo colocado em valor, segundo Corrêa, o CEO da marca. O dado, porém, não apaga o desafio maior: disputar atenção num país onde o café é a bebida de referência.

“O hábito de consumo de chá no Brasil não está vinculado ao clima, até porque se o clima fosse, nós não beberíamos café em pleno verão”, disse Corrêa.

Erva-mate para exportação

A aposta de longo prazo fora do Brasil está na erva-mate, produto com 85% do plantio mundial concentrado no sul do país.

A empresa opera há 18 meses em seis mercados externos (Estados Unidos, Canadá, Espanha, Portugal, Japão e Oriente Médio) e as exportações já representam aproximadamente 5% do faturamento.

O mercado americano é o mais representativo, impulsionado pela concentração de brasileiros residentes nos Estados Unidos.

A estratégia não compete com as ervas tradicionais de cada mercado, mas aposta na novidade da erva-mate como produto brasileiro ainda desconhecido fora do cone sul, um caminho que o açaí e o guaraná percorreram antes.

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“É um produto brasileiro tal qual o açaí, o guaraná da Amazônia. São produtos que a gente pode dizer que são proprietários do nosso Brasil”, afirmou Corrêa.

Japão e Oriente Médio são apontados como mercados de maior potencial de longo prazo, por já terem o hábito de consumo de chá consolidado.

Norte e Nordeste como nova fronteira

No mercado doméstico, a próxima fronteira está nas regiões historicamente mais frias para o chá. Norte e Nordeste crescem acima de 20% ao ano em volume e valor nos últimos seis anos, segundo dados Nielsen, mas ainda representam apenas 15% da receita total da empresa. Sul e Sudeste concentram cerca de 40%.

A assimetria é reveladora: as regiões com menor penetração histórica crescem no ritmo mais acelerado. O consumo per capita regional gira em torno de três xícaras por habitante por ano, o que indica que o desenvolvimento do hábito, e não a disputa por share em mercados maduros, é o principal motor de crescimento disponível nos próximos anos.

Fundada em Curitiba em 1901, a Leão opera de forma ininterrupta desde então. A família fundadora não tem participação remanescente desde a aquisição pela Coca-Cola.

Fazer parte do sistema da gigante americana confere à empresa padrões internacionais de produção e políticas corporativas globais, segundo o CEO.

Sobre fusões e aquisições, Corrêa foi cauteloso em meio a um setor em movimento. A General Mills vendeu recentemente suas operações no Brasil para a Três Corações.

“A gente observa o mercado sempre”, disse, sem confirmar negociações em curso. “O que falta construir são os próximos 100 anos”.

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